Existem obras que transbordam nostalgia, que nos revelam como uma janela que olha para o passado, e esse passado pode ser luminoso e vívido, como clássicos da era de ouro do cinema. E “O Filme da Minha Vida” (2017), terceiro longa-metragem dirigido por Selton Mello, possui essa áurea, graças ao olhar de seu protagonista, que vai descobrindo o seu universo e se encantando com ele pouco a pouco, tal como o público.

O Filme da Minha Vida” é adaptado do livro “Um Pai de Cinema”, do escritor chileno Antonio Skármeta, que tinha um desejo de que sua obra literária fosse parar nas telas do cinema, mais precisamente num filme falado em português. A trama se passa em 1963, nas Serras Gaúchas, e acompanhamos o jovem Tony Terranova (Johnny Massaro), que é professor de francês numa pequena cidade e que vive com um sentimento de ausência desde que seu pai Nicholas Terranova (Vincent Cassel) o deixou. Seu vínculo familiar se dá com sua mãe Sofia Terranova (Ondina Clais Castilho) e as sua relações de confiança e de proximidade são com Paco (Selton Mello) – amigo próximo da família, e também da jovem Luna Madeira (Bruna Linzmeyer) – com quem nutre uma paixão. Nesse cenário, enquanto busca notícias do pai, Tony vai começar a enxergar a vida por um novo prisma, sendo através de seus desejos ou através de suas relações.

O filme se inicia com uma narração em off, nos contextualizando a trama, nos apresentando toda a ambientação necessária e também inserindo o elemento lúdico que a obra possui, como se fosse uma clássica história que começa com um narrador que depois libera a história para que ela aconteça.

Inicialmente, o filme solta aos olhos, pois a fotografia de Walter Carvalho novamente é deslumbrante. Ele usa sabiamente planos gerais para compor cenas para ambientar o filme, já que ele se passa na década de 1960 e isso se faz necessário. Além disso, os planos gerais são pensadamente usados para também mostrar as locações externas com um vigor magnífico, como as montanhas, neblinas e florestas, que abraçam seus personagens, incorporando assim o cenário com os atores, os transformando em uma única força em função da trama. A paleta de cores do filme possui um tom bastante amarelado, como se fosse de ferrugem, o que além de também servir de ambientação para aquele período em que a trama se passa, também faz um paralelo com a cidade, com o trem – muito importante dentro da história, e com toda o aspecto de maquinário que o filme possui.

A cinematografia se completa como um apuro técnico primoroso com toda a sua mise-en-scène meticulosa. Os figurinos são ótimos e toda a ambientação para reconstituição de época funciona muito bem e, ao contrário do que possa esperar, Selton ainda abre o plano em vários momentos para que o espectador possa ver a grandiosidade do cenário, com carros e casas da época. Ambientando a trama de uma forma tão orgânica que a vida dos personagens naquele ambiente se torna palpável. É um trabalho técnico brilhantemente construído e que não deixa o filme carregado.

E, quando se trata de não deixar o filme carregado, o roteiro contribui muito para que isso aconteça. Apesar de se tratar de um drama familiar, o roteiro possui várias passagens com um ótimo tempo cômico e despretensioso, tornando-o um filme leve de se assistir, que conforta o espectador. Há duas cenas no filme que podem facilmente entrar futuramente para o imaginário popular como uma das cenas mais emblemáticas do cinema brasileiro, que no caso são os sonhos de Tony, onde o personagem, em êxtase, começa a flutuar, erguendo lentamente os seus pés do chão. E são cenas lúdicas como essa que transportam o espectador para uma realidade um tanto quanto particular e cativante.

O adjetivo cativante também pode se estender para o protagonista do filme, que vai ganhando cada vez mais força na trama. No início Tony é um rapaz perdido, preso em suas lembranças, calado e bastante inexpressivo. Mas a medida que ele começa a se encantar pelo mundo, ele vai ganhando voz e isso se deve muito ao seu companheirismo com Paco, para quem transfere a figura paterna que tanto lhe falta. A relação dos dois, pode-se dizer que são os melhores momentos do filme, pois enquanto Tony é um rapaz sonhador e ingênuo, que está em seu processo de amadurecimento, Paco é um homem um tanto quanto amargo, mesmo sem perder sua leveza. Seus diálogos, que refletem nas visões de mundo completamente diferentes de ambos, rendem cenas cômicas e divertidas, além de os aprofundar como personagens, vide a cena no restaurante.

O elenco é bastante homogêneo em suas atuações, todas possuem um mesmo equilíbrio e cumprem muito bem as suas respectivas funções. Até mesmo a inserção do francês Vincent Cassel, que poderia destoar desse universo, se dá de forma orgânica, pois além de falar bem o português, o ator consegue transmitir todo o sentimento paterno de forma afetiva, principalmente nos flashbacks, onde é mostrado sua relação com Tony ainda criança. Embora, como já citado, o filme possua um ar despretensioso, alguns de seus personagens carregam em si um tom melancólico, o que é bem extraído por Sofia, onde percebe-se o vazio em que ela sente ao lembrar de seu marido, é com certeza é um trabalho com muita expressão da atriz Ondina Clais Castilho. Outro destaque também vai para a personagem Petra Madeira (Bia Arantes), que carrega consigo não só uma estranha melancolia, mas também um mistério que a envolve e que acaba se revelando crucial para a trama.

Mas, se existe um personagem crucial para criar o sentido reflexivo da trama, esse é o maquinista Giuseppe (Rolando Boldrin), que carrega uma das maiores belezas do filme: o significado do tempo, que ressignifica objetos. Ele é um personagem silencioso, que praticamente só observa as situações ao longe, mas mesmo com poucas palavras, o seu papel é fundamental no sentindo de personificação. E não é por acaso que Boldrin foi escalado para esse papel, pois além de possuir uma longa carreira na TV, a sua persona quanto artista se confunde com a persona de seu personagem, que sobreviveu ao tempo e que viu as mudanças de gerações e que entende, como poucos, o caminhar da vida.

Citando objetos, é importante ressaltar o sentido que eles possuem, nada é tão literal quanto parece. Um livro não é somente um livro, ele é tudo que carrega consigo, tal como uma sala de cinema também não é somente uma sala de cinema, ela é o que representa para determinado personagem. Tal artifício nos remete ao que Kleber Mendonça Filho fez em “Aquarius” (2016), dando significado e vida para os objetos que cercam a protagonista, criando assim um lugar vivo e repleto de memórias.

A trilha sonora do filme também contempla esse sentimento do significado dos objetos, pois a relação dos personagens com o rádio é várias vezes evidenciada, seja para ouvir uma partida de futebol com os amigos, como no caso de Paco, ou para ouvir músicas e dançar, trazendo assim, as músicas para o universo do filme e brincando com sua diegese. Mesmo assim, com tantas trilhas memoráveis, faltou ao filme um pouco do reconhecimento da música brasileira, o que traria a obra mais próxima ao Brasil, referenciando grandes músicos daquela época.

Outro destaque técnico da obra é a sua montagem, que consegue inserir flashbacks de uma forma natural, sem fazer o filme perder o ritmo e ainda assim não retroceder a trama, aliás, muito pelo contrário, a montagem dá forças para a trama seguir adiante, deixando-o numa crescente e seguindo seu caminho, como se de fato estivesse em um trem que ajuda a levar seus personagens, seus dramas e suas histórias.

No terceiro ato, há uma reviravolta que dá ao filme uma carga dramática maior e isso é crucial para o rito de amadurecimento do personagem se completar. Além dessa reviravolta servir como um elemento surpresa na trama, ela também serve para fechar algumas pontas no roteiro que permaneciam em aberto, preparando o terreno para a conclusão do filme. Mas há aqui um problema, pois, ao entrar nesse aspecto mais dramático, o filme deixa de explorar um conflito ético que acaba cercando a figura de Nicholas, passando batido na situação e, talvez, ainda pior, a incentivando, mudando claramente o antagonismo do filme em sua percepção, mas que para o público ainda permanece dúbio.

Mas ainda assim, “O Filme da Minha Vida” é uma obra totalmente afetiva e que consegue abraçar o espectador em seu universo crível, repleto de memórias e de sentimentos. Criando assim uma rápida identificação do público com o mundo imagético aqui criado, pois, além de ser convidativo visualmente, o caminho que o protagonista do filme cruza, de ir descobrindo o mundo ao seu redor, nos parece palpável e sentimentalmente verdadeiro. Aliás, além disso tudo, “O Filme da Minha Vida” trata de sentimentos e de como é importante compartilhá-los.

Título Original: O Filme da Minha Vida
Direção
: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello, Marcelo Vindicato (Adaptado do livro “Um Pai de Cinema”, de Antonio Skármeta)
Elenco: Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Bia Arantes, Selton Mello, Ondina Clais Castilho, Vincent Cassel, Martha Nowill, Rolando Boldrin e João Prates
Fotografia: Walter Carvalho
Produção: Vania Catani
País: Brasil
Ano: 2017
Duração: 113 minutos
Estreia: 03/8/2017
Distribuidora: Vitrine Filmes