“Felicidade! Felicidade!
Minha amizade foi-se embora com você
Se ela vier e te trouxer
Que bom, felicidade que vai ser!

Trago no peito
O sinal duma saudade
Cicatriz de uma amizade
Que tão cedo vi morrer

Eu fico triste
Quando vejo alguém contente
Tenho inveja dessa gente
Que não sabe o que é sofrer
(Felicidade…)

O meu destino
Foi traçado no baralho
Não fui feito pra trabalho
Eu nasci pra batucar

Eis o motivo
Que do meu viver agora
A alegria foi-se embora
Pra tristeza vir morar
(Felicitá…)”

– Noel Rosa

o-homem-das-multidoes.htmlO filme “O Homem das Multidões” (2013), produção assinada por Marcelo Gomes e Cao Guimarães, leva às telas uma fábula moderna, adaptada livremente de um conto de Edgar Alan Poe.

É de se aplaudir a forma como os dois diretores resolvem contar a história, num trabalho arriscado de linguagem, com longos planos contemplativos e silenciosos, em um formato inusitado para o cinema, em 3×3, fugindo completamente do convencional. Gomes define o formato como uma “mistura das estéticas do Instagram e de uma polaroid”.

No filme, acompanhamos a vida de dois personagens, ambos trabalham no metrô de Belo Horizonte, um é Juvenal (Paulo André), que possui uma vida solitária em um apartamento praticamente vazio e a outra é Margô (Sílvia Lourenço), que também vive solitária, mas à sua maneira, cercada por amigos virtuais. Ambos personagens possuem seus pontos em comuns: a solidão e a rotina, embora cada um vivencie isso ao seu modo.

A interação de Juvenal e Margô ao decorrer do filme chega a ser de uma incomunicabilidade tão grande que chega a ser constrangedora, pois a dificuldade de lidar com a interação social é latente, fato que fica evidente nas inúmeras vezes em que eles vão almoçar juntos. Mas mesmo assim, Margô sente a necessidade de convidar Juvenal para ser o seu padrinho de casamento, já que ela não conhece muitas pessoas, e, assim como o seu noivo, que ela conheceu pela internet, ela só possui amigos em redes sociais.

O filme vai nos mostrando o paralelo entre a vida desses dois personagens, como se relacionam com o mundo e como encaram a vida solitária em uma metrópole. E o grande trunfo nisso tudo é como a história é contada. A direção faz aquilo que o filme pede, são longos planos silenciosos e alguns outros planos sequências belíssimos. Entretanto, a narrativa do filme acaba ficando cansativa, sem ritmo algum, mesmo sendo uma narrativa que se completa com a trama, é algo que pode causar estranheza.

Mas o que de fato causa estranhezas a primeira vista é o formato como “O Homem das Multidões” é exibido. Como disse anteriormente, os diretores optaram por fazer uma espécie de um formato de câmera de celular, onde nos causa a impressão que o tamanho reduzido da imagem causa uma certa claustrofobia e além de também fazer um trabalho de metalinguagem entre o conceito do filme com o estranho isolamento em que os smartphones nos dão e também que reflete muito as personalidades dos protagonistas, um mais analógico, como a polaroid e outro mais digital, como o Instagram.

Enfim, “O Homem das Multidões” é um filme frio, assim como a vida de seus personagens e assim como o estilo da vida moderna que o filme coloca em voga. É um filme também cheio de camadas, que se faz por gestos e não por palavras, gestos contidos e repetitivos, que em momentos se parecem engraçados, mas que são terrivelmente assustadores.