Existem obras que se fazem valer muito mais pela sua relevância política em seu campo oportuno, do que pela narrativa cinematográfica. Embora em muitas das vezes a força temática do filme possa acabar se perdendo meio a tropeços narrativos.

O caso de “O Insulto” (L’insulte, 2017), longa libanês presente no Oscar de 2018 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, é justamente o citado acima, pois não possui força narrativa o suficiente, embora tematicamente possua seu valor.

Na trama, que se passa em Beirute, no Líbano, acompanhamos o desenrolar de um mau entendido entre duas pessoas, o que acaba as levando ao tribunal. Tony (Adel Karam), um cristão libanês, e Yasser (Kamel El Basha), um refugiado palestino, acabam tornando-se bandeiras políticas sem ao menos perceberem, mobilizando todo um país e aflorando velhos preconceitos da população.

O filme de Ziad Doueiri se inicia com um letreiro dizendo que os fatos apresentados na obra refletem a opinião de seus realizadores e não a do governo do país, o que insinua de antemão que o filme caminhará por conflitos espinhosos. E ele o faz, partindo de uma discussão trivial entre duas pessoas. O problema aqui é a completa falta de sutilezas que Doueiri trata tais conflitos. A princípio, o filme parece buscar inspiração nos roteiros de Asghar Farhadi, desdobrando-se através de pequenas discussões, algo muito bem explorado por exemplo em “A Separação” (2011), um dos filmes mais icônicos do cineasta iraniano. Mas, nem de perto “O Insulto” se aproxima do brilhantismo dos filmes de Farhadi.

A escolha apressada de imergir de imediato o espectador ao conflito dos personagens não dá tempo o suficiente para que os personagens sejam explorados, tornando suas ações mecânicas e arbitrárias. O filme ainda tenta trabalhar esse personagens inserindo elementos da trágica história de seus respectivos povos, refletindo assim sobre como é germinado as condutas de ódio, mas tal elemento chega tardiamente na trama. Os personagens são exemplos puros de arquétipos que servem em função de um roteiro truncado.

O filme parece não saber por qual caminho trilhar, pois mesmo sendo uma obra com uma forte discussão política, ele se envereda por sub-conflitos que não dizem a que veio e que, dramaticamente falando, não acrescentam em nada ao texto. O conflito, por exemplo, do pai e filha advogados pode ser algo que em seu simbolismo possua o seu valor, mas que narrativamente acaba por desvirtuar o caminho do conflito central.

A impressão geral que fica de “O Insulto” é que as escolhas narrativas são ingênuas, afinal não é só o roteiro que se perde, a cinematografia também é desorientada. Os planos escolhidos, que servem para emular sentimentos no espectador são um tanto quanto óbvios, enquadrando os personagens num tom tão sentimentalista que acaba o tornando clichê.

A montagem acaba prejudicando ainda mais o filme, pois o corte entre as cenas não dá um sentindo claro de continuidade à trama e os inúmeros fade to black, que deveriam simbolizar a passagem de tempo, acabam por tirar o ritmo do filme.

Porém, tirando os problemas técnicos apresentados, o filme tem sim um discurso político que, quando é focado devidamente, o engrandece. Pois, através de uma discussão identitária de cristãos e palestinos, reside uma reflexão sobre a compreensão, que vai do micro ao macro. Além disso, o filme também expõe situações de opressão que foram vivenciadas pelo povo do oriente médio ao longo das décadas, e o interessante é que, embora ele pareça tomar um partido, não há um julgamento sacramentado acerca de ambos os lados. A preocupação do filme vai além do apontamento do certo ou do errado, ele está mais interessado de como se dá o entendimento entre grupos que divergem.

Infelizmente, “O Insulto” só explora com sucesso a sua força temática em seu ato final, o que pode ser recompensador de alguma forma, já que o conflito apresentado inicialmente é dramaticamente fértil e é interessante ver o que o diretor consegue extrair quando existe o foco certo, pena que, em sua maioria, o filme escolhe ir pelo caminho mais fácil, o que se reflete em clichê, em sentimentalismo e, principalmete, em falta de substância nos personagens.

Título Original: L’insulte
Direção: Ziad Doueiri
Roteiro: Ziad Doueiri, Joelle Touma
Elenco: Kamel El Basha, Kamel El Basha, Camille Salameh, Diamand Bou Abboud, Rita Hayek, Talal Jurdi, Christine Choueiri, Julia Kassar, Rifaat Torbey, Carlos Chahine
Fotografia: Tommaso Fiorilli
Produção: Rachid Bouchareb, Jean Bréhat, Julie Gayet, Antoun Sehnaoui, Nadia Turincev
País: Líbano
Ano: 2017
Duração: 112 minutos
Estreia: 08/02/2018
Distribuição no Brasil: Imovision

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima