O que é o cinema? Por que os realizadores fazem cinema? O que há por trás dessa arte que encanta o público há mais de um século? Engana-se quem acredita que encontrará respostas objetivas sobre tais questões em “Um Filme de Cinema” (2015), documentário dirigido por Walter Carvalho. A força do filme se encontra no olhar subjetivo sobre o cinema, que é o protagonista não só desse filme, mas das vidas dos personagens que são apresentadas nele.

Em “Um Filme de Cinema“, Walter Carvalho nos apresenta várias entrevistas, que foram obtidas ao longo de anos, com cineastas de diferentes lugares do mundo, cada um com sua ideia própria do que significa a sétima arte.

Antes de tudo, pode-se dizer que o filme de Walter é uma aula de cinema, pois, ao entrevistar realizadores de linguagens tão distintas, o filme ganha uma amplitude que só mesmo são encontradas em livros e em determinadas aulas. São, ao todo, mais de dez realizadores que debruçam sobre o ato de fazer cinema, nos dando um pouco do seu olhar, sobre seus anseios e questionamentos.

O documentário se inicia com lindos planos de um cinema abandonado no interior da Paraíba, na qual, as ruínas dão espaço à luz, seja primeiramente a de uma fogueira, para depois dar espaço à luz da projeção. Deixando claro a essência da sétima arte, que é uma arte da luz, e é essa luz que nos ilumina quanto espectadores quando os cineastas entram em cena para compartilhar com o público os seus devaneios sobre o cinema.

Como dito anteriormente, o protagonista do filme é o cinema quanto expressão artística, e isso fica claro quando Walter usa de seus entrevistados como pontos de ligação para o tema principal. Os personagens aqui não tomam o filme pra si, como podia se esperar, eles são figuras que completam a obra, servindo de ponte de ideias para as reflexões que o filme nos propõe. Tanto que quando os entrevistados entram em cena, eles não possuem letreiros em seus nomes.,Nem os personagens e nem os inserts dos filmes que Walter usa para ilustrar uma ideia ganham nomes. As cenas, os cineastas e os demais personagens apresentados na obra são artefatos que servem muito bem à temática do filme, e esse é o propósito.

Primeiramente, nota-se o cuidado da fotografia de Lula Carvalho ao retratar o universo narrativo de cada realizador, como por exemplo as entrevistas do cineasta húngaro Béla Tarr, que carrega consigo o olhar em preto e branco, tal como os planos mais longos nas entrevistas do cineasta chinês Jia Zhangke. Tal escolha narrativa reflete nos que esses personagens dizem e reforçam a ideia de que cada um ali possui uma visão característica sobre a sétima arte.

Mas o deslumbre inicial com os depoimentos dos personagens só se mantêm ao longo da projeção por conta de sua montagem super precisa, pois, vê-los falando de forma tão passional sobre a arte que os conduz, transforma, a partir da montagem, o jogo de ideias numa discussão em vários aspectos no processo de realização. A montagem é muito efetiva em criar um diálogo entre os entrevistados, seja para corroborar algumas visão apresentada ou mesmo para discordar, e quando isso acontece é de uma satisfação enorme, pois ao ver grandes nomes do cinema ao discordar sobre determinado assunto, o público aprende com isso e percebe que não existe o certo ou o errado e sim maneiras diferentes de se produzir.

O filme é dividido por blocos, o que é uma saída eficiente para criar uma linha lógica de pensamentos dentro da narrativa. Os personagens falam sobre montagem, sobre os planos, sobre o som, sobre o tempo do filme e sobre demais temas que se desdobram a partir disso. O interessante, como já mencionado, são os inserts de cenas que ilustram o que está sendo dito em cena, com isso temos cenas extraídas de filmes de Jean-Luc Godard, que é o cineasta mais citado dentre os realizadores; temos a magistral cena de abertura de “O Cavalo de Turim” (2011), do próprio Béla Tarr; e uma cena em específico que nos chama a atenção, que no caso é uma cena que não entrou no corte final de “Madame Satã” (2002), filme de Karim Aïnouz, a força dessa cena em específico é tamanha que, em poucos minutos, consegue emocionar o espectador e nos transportar para um universo bastante particular, já que nela ouvimos Walter e Karim dirigindo Lázaro Ramos em um tom apaixonante e emocionante.

Karim também está presente no filme, nos brindando com ideias amplas sobre o que é cinema, exemplo disso é quando ele cita cineastas como Kenneth AngerStan Brakhage para explanar sobre um cinema mais sensorial, evidenciando mais uma vez o desejo de Walter de abraçar, em seu discurso, o cinema como um todo. É por isso que há o desejo de entrevistar cineastas consagrados de estilos tão distintos, que vão desde Lucrecia MartelAsghar FarhadiAndrzej WajdaGus Van SantKen Loach e Julio Bressane, e até mesmo cineastas em ascensão como Benedek Fliegauf.

Enquanto “Um Filme de Cinema” se mantêm em seu processo de investigação sobre o cinema ele permanece firme, mas quando o filme começa a comentar sobre o ato de assistir cinema e se volta com mais profundidade para o espectador, o ritmo se quebra e ele perde um pouco de sua força. As cenas registradas na Itália, que servem para comentar o filme “Cinema Paradiso” (1988), de Giuseppe Tornatore, são muito belas, mas que destoa da narrativa até então apresentada. Toda a sequência que usa do “Cinema Paradiso” para discutir o poder do cinema quanto local sagrado de exibição é curiosa, ainda mais com as entrevistas de Salvatore Cascio – que quando criança foi o protagonista do filme de Tornatore. Mesmo servindo como curiosidade, essa sequência faz o filme perder toda a amplitude construída até então e, caso realmente fosse necessário falar do espectador, mesmo inconscientemente, os cineastas já cumprem esse papel, vide as citações a Godard.

O filme se encerra com uma rima estrutural interessante, onde voltamos ao cinema abandonado e mais uma vez Walter volta aos espectadores para concluir a sua narrativa. Novamente, as cenas são belas e a montagem dá ao espectador o aspecto de grandeza que tal sequência clama, que juntamente com a trilha sonora nos mostra o poder do cinema perante ao público, mas ainda assim, essas cenas parecem se deslocar de todo o processo investigativo que havia sido apresentado.

Um Filme de Cinema” é uma obra que instiga o público através das plurais visões sobre a sétima arte de seus entrevistados e, no fim, aquela pergunta de ‘o que é o cinema?‘ não pode ser respondida como uma verdade absoluta, pois cada um carrega a verdade em si mesmo e essa é beleza da expressão artística, com as diferentes formas de olhar para o mesmo objeto.

Título Original: Um Filme de Cinema
Direção: Walter Carvalho
Elenco: Béla Tarr, Andrzej Wajda, Beto Brant, Gus Van Sant, Héctor Babenco,Jia Zhang-Ke, José Henrique Fonseca, José Padilha, Júlio Bressane, Karim Aïnouz, Ken Loach, Laís Bodanzky, Philippe Barcinski, Ruy Guerra, Vilmos Zsigmond e Lucrecia Martel
Fotografia: Lula Carvalho
País: Brasil
Ano: 2015
Duração: 108 minutos
Estreia: 24/8/2017
Distribuidora: ArtHouse