O cinema de Andrzej Wajda (1926-2016), por muitas vezes, serviu como um artefato para contar a conturbada história de seu país, a Polônia. Em sua carreira como cineasta, Wajda colocou em questão temas como a liberdade do indivíduo, que por incontáveis vezes ia de encontro com a situação política vigente. Seus filmes possuem, além de tudo, um aspecto de denúncia, tanto como um retrato semi biográfico do próprio cineasta, por toda a repressão que sofreu ao longo de sua carreira.

Em seu derradeiro filme, “Afterimage” (Powidoki, 2016), Wajda realiza uma cinebiografia do artista vanguardista Wladyslaw Strzeminski (Boguslaw Linda), que, ao não concordar com os dogmas artísticos estabelecidos pelo stalinismo na Polônia após a Segunda Grande Guerra, se vê perseguido pelas autoridades.

De uma maneira sublime, Wajda nos apresenta Strzeminski, numa sequência que se passa num lindo campo aberto. Todo o aspecto visual dessa cena serve como contraponto ao que está por vir, pois as cores vivas e a liberdade que tal cena possui é consumida pelo ar de opressão que o filme vai ganhando ao longo de sua projeção. O verde do campo dá espaço para o cinza e o frio da cidade, que surge como um campo totalmente hostil, que reduz seus personagens às suas pequenices diante do poder do estado.

Tal fato é belamente evidenciado na sequência onde é hasteada uma gigantesca bandeira de Josef Stalin em um prédio, na qual cobre a entrada de luz no apartamento de Strzeminski, que o impede de pintar suas obras. A sequência, além de ser visualmente bela, jogando um forte vermelho em todo o ambiente, também nos revela como um aspecto assustador repentino, que através da forte cor vermelha que vem da janela e que toma conta do personagem, invoca sentimentos de profunda apreensão. E, não é ao acaso que tal cena serve como o ponto chave para os embates ideológicos entre Strzeminski e o estado.

O poder da imagem é o grande subtexto do filme, que, através da visão artística do protagonista, faz uma ligação entre suas obras vanguardistas e o cinema de Wajda. A pós-imagem, que Strzeminski discorre durante uma aula na primeira cena do filme, serve também como reflexão para a temática da obra, que, ao chegar no espectador, através de seu discurso, reverbera mesmo após o fim da projeção, fazendo assim um paralelo com o próprio conceito da pós-imagem.

Outro aspecto temático, esse mais claro, é a semelhança da trajetória entre o protagonista do filme e seu realizador, que ao serem firmes em suas visões artísticas, vão de encontro com a perseguição e com a censura imposta pelo estado. Toda a luta de Strzeminski para continuar realizando suas obras pode servir como um paralelo a própria carreira de Wajda como cineasta, que desafiou o regime para que seus filmes fossem assistidos.

Em “Afterimage“, Wajda está mais preocupado em levantar a questão da liberdade de seu personagem, do que contar a história de sua vida. Claro que o filme pincela alguns pontos, como a relação do protagonista com sua filha e com sua ex-esposa, mas a obra não toca, por exemplo, no passado de Strzeminski, ou de como ele perdeu uma parte de sua perna. A trajetória do personagem é pontual, vemos, aos poucos, tudo sendo retirado de sua vida, desde a proibição de atuar como artista, até as aulas que lecionava na Escola de Belas Artes de Lodz. Strzeminski é usado no filme como um instrumento, primeiramente, que vai falar sobre a força da imagem e a vocação artística e, posteriormente, como um personagem que denuncia todo um regime, e é nesse ponto que a arte e política se encontram, tornando-se a força temática do filme, que carrega a obra por toda a trajetória do protagonista.

E, tratando-se de arquétipos, apesar de Strzeminski ser retratado como claramente um mártir, o personagem possui camadas, ele não é só um perseguido político, ele também é um humano com seus dramas pessoais, que possui problemas de relacionamentos familiares. É um personagem bem construído, e que vai além dos aspectos engessados que são retratados em personagem de cinebiografias. No caso do regime socialista, Wajda não precisa tratá-lo como algo caricato e absurdamente antagonista para nos mostrar o totalitarismo exercido no país, as situações falam por si só, embora em alguns momentos elas soem violentamente arbitrárias.

A atuação de Boguslaw Linda é bastante segura, ele consegue transmitir toda a angústia que o personagem sofre ao decorrer da projeção, deteriorando-se a medida que as portas vão se fechando para ele. O elenco é bastante homogêneo em suas atuações, dos personagens de apoio destacam-se, claramente, Nika Strzeminska (Bronislawa Zamachowska), filha de Strzeminski, que o acompanha nos momentos mais conturbados, e da aluna Hania (Zofia Wichlacz), que nutre uma paixão pelo professor e também o ajuda para que sua obra se mantenha viva.

Afterimage” é um filme que quase se traduz como uma síntese das obras de Andrzej Wajda, traçando paralelos sobre a figura central aqui retratada e a sua própria carreira. Mas, além de um filme contestador, ele também propõe reflexões sobre a liberdade e a importância da arte, ao mesmo tempo que reflete sobre o poder da imagem e sobre o que se restará após a morte do artista. O que no caso fica evidente, seja com Strzeminski ou com Wajda, o que perpetuou e irá perpetuar são suas obras com um forte aspecto autoral e totalmente livres.

Título Original: Powidoki
Direção
: Andrzej Wajda
Roteiro: Andrzej Wajda e Andrzej Mularczyk
Elenco: Boguslaw Linda, Zofia Wichlacz, Aleksandra Justa, Bronislawa Zamachowska, Krzysztof Pieczynski, Paulina Galazka
Fotografia: Pawel Edelman
Produção: Malgorzata Fogel-Gabrys, Michal Kwiecinski
País: Polônia
Ano: 2016
Duração: 98 minutos
Estreia: 17/8/2017
Distribuidora: Imovision

Avaliação
  • 8/10
    Afterimage (2016), de Andrzej Wajda - 8/10
8/10

Resumo

“Afterimage” é um filme que quase se traduz como uma síntese das obras de Andrzej Wajda, traçando paralelos sobre a figura central aqui retratada e a sua própria carreira. Mas, além de um filme contestador, ele também propõe reflexões sobre a liberdade e a importância da arte.