O cinema de Maria Augusta Ramos sempre teve um olhar pertinente sobre importantes questões sociais, que consequentemente revelam o agora. São filmes frutos de seus tempos e que servem, muito além de um documento audiovisual, mas também como um registro histórico, importantíssimo para que possamos refletir melhor a sociedade brasileira atual.

Sendo assim, podemos categorizar “O Processo” (2018), seu mais recente documentário, como uma clara continuação de fatos históricos que foram apresentados em “Futuro Junho” (2015), que cumpre um papel esclarecedor sobre a crise política instaurada no Brasil após as manifestações de 2013. No documentário em questão, acompanhamos intimamente todo o longo processo que culminou com a destituição da presidenta Dilma Rousseff do cargo.

Se tematicamente o filme de Maria Augusta já dispõe de forças próprias, a obra acerta em possuir uma linguagem bem definida e um roteiro preciso, que, divido em blocos, mostram todas as etapas de tal processo. Ele se inicia com letreiros que contextualizam, de forma extremamente pragmática, os períodos apresentados, artifício que volta a ser utilizado para simbolizar a passagem de tempo e que situa o espectador perante os acontecimentos.

A montagem de Karen Akerman, crucial para que o filme funcione, não só consegue extrair fatos importantes para que o documentário seja o mais elucidativo possível, como também funciona de forma extramente dialética, contrapondo ideias de ambos os lados. Criando assim, um olhar investigativo sobre o período, que percorre o lado da defesa e da acusação. Embora o filme adentre de forma mais particular na defesa de Dilma, não porque ele procure tomar algum algum partido, mas sim pelas próprias autorizações de uso de imagens, que foram concedidas em sua maioria pela parte da defesa. O que, afinal, pode nos dizer algo.

Se a montagem é um dos pilares do filme, não podemos deixar de enaltecer o seu roteiro muito bem elaborado. Desde o princípio a proposta do documentário fica nítida, a câmera de Maria Augusta se instauraria no Congresso Nacional, acompanharia os personagens e as situações que ocorreriam em volta daquele perímetro. E o roteiro consegue criar os seus contrapontos em questão de personagens, como no caso de Janaína Paschoal, umas das autoras do pedido de “impeachment”, e Gleisi Hoffmann, que participou efetivamente na defesa de Dilma. Embora a presença de Lindbergh FariasJosé Eduardo Cardozo seja crucial e devidamente colocada no filme, fica nítido o contraponto inserido entre as duas personagens citadas acima. O que extrai um certo simbolismo acerca da obra como um todo, afinal é um filme escrito e dirigido por uma mulher, sobre um processo que culminou no afastamento de uma presidenta, e que coloca duas mulheres como figuras centrais dentro dessa narrativa. Claro que, em certos momentos, o olhar acerca de Janaína Paschoal se mostra um tanto quanto caricato, embora isso possa ser um reflexo de sua personalidade e de seus discursos.

E por falar em simbolismos, a fotografia de Alan Schvarsberg também capta imagens que, mesmo não saindo dos arredores do Congresso, revelam a polarização política tão clara daquele momento. O quadro que coloca uma barreira em primeiro plano, dividindo a tela, dá espaço para um plano geral da divisão geográfica de manifestantes contra e pró Dilma. Imagens fortes e sintomáticas. O filme também acerta em registrar momentos corriqueiros do cotidiano, que servem como uma vírgula perante as informações que são fornecidas e a densidade das imagens.

O documentário também abre espaço para discussões que vão além do processo em si, pois ao captar reuniões da defesa de Dilma, nos é mostrado apontamentos pertinentes realizados, por exemplo, por Gleisi Hoffmann, que faz um balanço dos governos petistas e, com bastante autocrítica, escancara que o partido não possui uma base forte perante a juventude. E que a insatisfação instaurada e a falta de representatividade política que tanto bradavam, também se deve ao distanciamento do partido com as bases. Algo que é mostrado no, já citado, filme anterior de Maria Augusta.

Mesmo com o claro foco em mostrar os bastidores de todo o processo, o filme também coloca Dilma em cena em certos momentos. A princípio calada, mas sempre destemida, com um olhar firme de uma mulher que já enfrentou a ditadura civil-militar, que foi torturada e sobreviveu a um câncer e que, naquele momento, enfrentava mais uma grandiosa batalha. O documentário, aliás, faz questão de mostrar o apoio popular que a presidenta tinha, fato importantíssimo para relembrar que ela foi democraticamente eleita. O que revela muito o que estava em jogo e quais as eram as verdadeiras intenções por trás do “impeachment”, fato que o filme igualmente relembra em seus letreiros finais, quando são mostradas as políticas exercidas por Michel Temer.

O Processo” é um filme que surge como uma obra fundamental na atual conjuntura brasileira e que, além de mostrar as etapas do processo que retirou Dilma da presidência, conjuntamente revela seus pormenores e faz um panorama extremamente necessário sobre a fragilidade da democracia brasileira. Seu olhar é tão abrangente que ainda há espaço para mostrar, rapidamente, o que aconteceu após o “impeachment” ser consumado, incluindo a prisão de Lula. No fim, os fatos são mostrados, cabe ao povo brasileiro tirar as suas próprias conclusões, porém com sensatez. Pois, além de tudo, o filme também nos deixa a reflexão, tal como no livro homônimo de Kafka, no qual é abordada a arbitrariedade do judiciário. E aqui a alusão kafkiana não é por acaso, infelizmente.

Título Original: O Processo
Direção: Maria Augusta Ramos
Roteiro: Maria Augusta Ramos
Fotografia: David Alves Mattos, Alan Schvarsberg
Produção: Leonardo Mecchi
País: Brasil
Ano: 2018
Duração: 137 minutos
Estreia: 17/05/2018
Distribuição no Brasil: Vitrine Filmes

Notas

00 a 1.5 (Péssimo)
2.0 a 3.0 (Ruim)
3.5 a 5.0 (Regular)
5.5 a 6.5 (Bom)
7.0 a 8.0 (Muito Bom)
8.5 a 9.0 (Ótimo)
9.5 (Excelente)
10 (Obra-Prima)

Avaliação
  • 9/10
    O Processo, de Maria Augusta Ramos - 9/10
9/10

Resumo

“O Processo” é um filme que surge como uma obra fundamental na atual conjuntura brasileira e que, além de mostrar as etapas do processo que retirou Dilma da presidência, conjuntamente revela seus pormenores e faz um panorama extremamente necessário sobre a fragilidade da democracia brasileira.