dolan-posterXavier Dolan sempre foi um cineasta conhecido pelos seus excessos, fato que define as suas obras. São excessos nas concepções de personagens, excessos no roteiro e na mise en scene, e são por esses motivos que seus filmes são aclamados ou execrados. Porém, Dolan se tornou um personagem bastante aclamado nos festivais de cinema, talvez por ter apenas vinte e sete anos e já ter dirigido seis longas com grande reconhecimento internacional, inclusive, seu último filme, “É Apenas o Fim do Mundo” (2016), ganhou o grande prêmio do júri no Festival de Cannes, mas com nenhum mérito para tal.

É Apenas o Fim do Mundo” é adaptado de uma peça teatral escrita por Jean-Luc Lagarce e conta a história de Louis (Gaspard Ulliel), um escritor que, após doze anos, volta para casa de sua mãe para se encontrar com seus familiares para contar-lhes algo doloroso, mas os conflitos logo florescem com a sua chegada.

Logo no início, quando sobem os créditos, vemos um elenco de peso, o que garante que o filme ao menos terá ótimas atuações, mas infelizmente o texto é tão raso que os personagens possuem poucos momentos interessantes dentro da obra. E assim que os créditos iniciais terminam, vemos Louis chegar em casa, onde é recepcionado por sua mãe (Nathalie Baye), sua irmã Suzanne (Léa Seydoux), seu irmão Antoine (Vincent Cassel) e sua cunhada Catherine (Marion Cotillard). O desconforto instaurado nos é passado nos primeiros instantes com diálogos rápidos e ríspidos, as posições dos personagens em cena também dizem muito sobre seus respectivos sentimentos, por exemplo: enquanto a mãe está de frente ao filho, Antoine está sempre de lado, como se estivesse evitando ao máximo um contato maior.

O desconforto acompanha o filme até o final, deixando o espectador totalmente sufocado meio a tantos diálogos densos, mas por incrível que pareça, o que sustenta o longa nesse quesito não são os diálogos, que em alguns momentos soam até monótomos, mas sim a fotografia, que deixa o filme com um tom claustrofóbico à partir dos quadro sempre fechados nos rostos dos personagens, além da paleta de cores totalmente quente. A maioria das cenas se passam nos cômodos da casa, dificilmente vemos os personagens em cenas externas e, mesmo quando o filme parece dar ao espectador a esperança que tudo será resolvido, logo tal esperança nos é tirada e voltamos pro interior da casa, que é completamente sem vida.

Se por uma lado a escolha da fotografia em fechar os quadros nos rostos dos personagens funciona, os outros elementos que o filme usa são uma catástrofe. Começando pela trilha sonora, que acompanha praticamente toda a obra, pois, se Dolan queria transmitir sentimentos através das músicas, ele no máximo deixa suas cenas artificiais. As músicas incidentais funcionam em momentos pontuais, tal quando acompanham bem discretamente a tensão dos diálogos. O problema é quando ela cresce e toma o protagonismo da cena pra si, e isso é muito grave em um filme que possui uma proposta angustiante em seu texto e mise en scene, pois silêncios são necessários para que possamos emergir nos sentimentos de seus personagens. E, infelizmente, não é isso que acontece, e em alguns momentos as cenas se parecem mais com clipes musicais.

Ainda se tratando da trilha, as escolhas de usar músicas diegéticas pop durante alguns diálogos importantes, tira totalmente a atenção do espectador para o que realmente importa, e é pior ainda quando essas músicas diegéticas são cortadas abruptamente por uma trilha extradiegética que engole completamente a cena, criando uma bagunça sonora e visual completamente irritante.

O filme também encontra problemas quando tenta ser mais onírico, pois em determinados momentos da trama, o longa sente a necessidade de cenas que desafoguem o espectador. Mas, o que era pra soar orgânico acaba se tornando artificial demais. Os devaneios do protagonista são embalados, novamente, com cenas repletas de música, e a plasticidade dessas cenas destoam de todo o filme, o que acaba não funcionando. Tal como Louis começa a relembrar sentimentos, onde a cena se transforma e acaba parecendo um grande comercial de perfume, totalmente estilizado, e assim, toda a poética que se fazia necessária se perde.

A montagem do filme também é confusa, deixando o espectador perdido em relação a distribuição dos personagens em cena, mas isso não atrapalha tanto quanto a fixação de Dolan por criar metáforas visuais, que são repetidas até a exaustão. Em várias cenas, Dolan fecha o quadro em relógios para mostrar que o tempo está passando e que tudo está ruindo, além de também querer transmitir uma urgência no protagonista, que corre contra o tempo para contar algo doloroso para a família e quem sabe assim, poder prosseguir em paz.

O que nos resta, além da inteligente fotografia, é desfrutar o maravilhoso elenco que o filme possui, embora o roteiro não se aprofunde nos personagens, todos parecem lutar para entregar uma boa atuação e dar mais complexidades aos seus personagens dentro do material base. Marion Cotillard faz uma personagem mais contida e que, se contraposta aos demais, é quase uma personagem apática. Já os demais são totalmente histéricos, Vincent Cassel por exemplo, precisa gritar em quase todas as cenas para demonstrar que é um personagem bruto e que não consegue expressar seus sentimentos, enquanto a personagem de Léa Seydoux precisa chorar em quase todas as suas cenas.

Todos são muito explosivos e nada é ameno em suas relações, o que extrapola a própria proposta do filme em incomodar o espectador. Embora esses deslizes fazem parte de várias sequências do filme, algumas cenas são bastante interessantes, como uma longa cena sem cortes que se passa num passeio de carro entre Antoine e Louis, na qual os conflitos advento da incomunicabilidade entre os dois ficam claros, e assim, é trabalhado de uma forma mais concisa, coisa que infelizmente não volta a se repetir durante a projeção, isso sem contar o trabalho primoroso dos atores que seguram uma longa cena dentro de um carro em movimento com diálogos totalmente carregados. Uma pena o filme não possuir mais momentos assim.

No fim, saímos com uma sensação de que, apesar do texto raso, a forma que Dolan usou para contar a sua história não funciona e infelizmente não vai para lugar nenhum. E assim, “É Apenas o Fim do Mundo” ultrapassa a linha do poético, do sensível e acaba se tornando um filme enfadonho. A questão do tempo contrapostos aos diálogos e aos sentimentos dos personagens fica bem evidente, mas toda essa poética acaba não se sustentando, graças aos já conhecidos exageros do cineasta. Essa é uma obra que pedia algo mais intimista, sem músicas pulsantes a todo momento, atuações explosivas e analogias visuais reforçadas a cada instante. Eis aqui um filme nada inspirador de Xavier Dolan.

*Filme assistido durante a 24º edição do Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade

Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan – Baeado na obra de Jean-Luc Lagarce
Elenco: Nathalie Baye, Vincent Cassel, Marion Cotillard, Léa Seydoux, Gaspard Ulliel, Antoine Desrochers, William Boyce Blanchette, Sasha Samar, Arthur Couillard, Emile Rondeau, Théodore Pellerin e Jenyane Provencher
País: Canadá, França
Ano: 2016
Duração: 97 minutos