Estamos chegando ao fim de 2017 e, como não poderia deixar de ser, a temporada de listas de melhores e piores filmes do ano está oficialmente aberta aqui na Revista Spiral.

Neste ano tivemos ótimos filmes que chegaram aos cinemas brasileiros, como será também em 2018, com filmes que foram exibidos em festivais ao longo deste ano e que já possuem distribuição garantida para o ano que vem.

Mas também existem aqueles filmes que chamaram a atenção ao longo do ano e que mereciam uma distribuição no circuito comercial, mas que são ousados demais para cair na graça das distribuidoras.

Eis aqui uma lista de ótimos filmes de 2017 e que, até o momento, não possuem distribuição comercial garantida. São filmes que arriscam em suas narrativas, que carregam um forte aspecto autoral e que encantam por suas originalidades e peculiaridades.

05 – Pororoca (2017), de Constantin Popescu

SinopseCristina e Tudor Ionescu formam uma família feliz com seus dois filhos, Maria, 5, e Ilie, 7. Ambos têm por volta de 30 anos e moram em um bom apartamento numa cidade romena. Em um domingo pela manhã, enquanto Tudor leva as crianças ao parque, Maria desaparece e a vida deles muda, de forma abrupta, para sempre.

Pororoca” é um ótimo representante do chamado novo cinema romeno. A construção do arco de seu protagonista é lenta e gradativa, de forma bastante crua. Os longos planos acompanham a degradação psicológica de um personagem que vai perdendo as suas esperanças pouco a pouco e que, cada vez mais, vai adentrando numa paranoia, resultando num final violento e surpreendente.

Por conta de sua narrativa lenta e por ter quase três horas de duração, “Pororoca” não possui grandes chances de ganhar uma distribuição comercial no Brasil.

04 – A Ghost Story (2017), de David Lowery


SinopseUm rapaz recentemente morto retorna para o seu lar em forma de um fantasma de pano branco para tentar se reconectar com sua esposa ainda viva.

A Ghost Story” é um daqueles filmes que usam de elementos de gênero para conceber uma obra repleta de simbolismos e cargas dramáticas. O estranhamento que o filme de David Lowery causa é imediato, graças a sua razão de aspecto que, por possuir um formato reduzido, nos joga diretamente para um universo fantástico e, por conta de sua paleta de cores, o transforma num horror de sentimentos frios.

O tempo no filme é quase um personagem, a sua narrativa é calcada através do olhar de seu protagonista, que absorve o tempo de uma forma diferente da habitual. Isso é refletido na duração dos planos, que dão ao filme um aspecto contemplativo.

As chances de “A Ghost Story” estrear nos cinemas brasileiros é quase nula, pois o filme já caiu na internet e, além disso, ele também é um filme que não possui um grande apelo comercial.

03 – Pazúcus: A Ilha do Desarrego (2017), de Gurcius Gewdner

SinopseOréstia & Omar buscam harmonizar sua relação em um acampamento e se veem, gradualmente, oprimidos pela natureza que de paradisíaca vai se tornando infernal. Paralelamente, dentro do intestino de Carlos, monstros fecais preparam-se para seu fim. Essa confusão estomacal faz dele uma presa fácil para o obsessivo Dr. Roberto.

Eis um ótimo exemplar de um delírio cinematográfico poderoso e raramente visto no cinema nacional atual. “Pazúcus: A Ilha do Desarrego” é uma junção de tudo que é característico na filmografia de Gurcius Gewdner, há aqui o caos vivenciado pelos personagens, que é refletido num caos narrativo – que mistura inserções de animações, tramas paralelas, escatologias e um humor bastante peculiar.

A montagem do filme só o deixa mais perturbador, a quebra da linearidade pode causar um desconforto aos mais desavisados, trazendo à tona a sensação de vômito dos personagem para a o espectador. O filme é um desbunde experimental repleto de gritarias e vômitos, tornando-o uma obra difícil de ganhar distribuição, o que é uma pena, pois a recepção do espectador casual seria algo tão maravilhoso de se acompanhar que poderia render até mesmo um documentário.

 02 – As Misândricas (2017), de Bruce LaBruce

SinopseEm algum lugar da Alemanha, um “exército de amantes” radical se prepara para sua revolução final. Mulheres estão discutindo, militando, menstruando, batalhando pelo declínio do patriarcado, aprendendo sobre reprodução assexuada e, claro, fazendo sexo. Repentinamente, um jovem e perdido soldado busca refúgio nesta espécie de convento feminista. Sua chegada desperta uma pergunta crucial entre as internas: é possível haver igualdade em um sistema corrupto? Novo filme de Bruce LaBruce (Hustler White, O reich framboesa) sobre um mundo utópico sem homens.

Um deboche em forma de filme, uma sátira ao pós-modernismo que somente artistas vanguardistas possuem coragem de realizar atualmente. Bruce LaBruce coloca o seu espírito punk e contestador numa obra repleta de humor duvidoso e também reflexiva.

As Misândricas” é um presente para os admiradores do cinema exploitation e mais precisamente para os fãs dos filme de John Waters, pois o humor cínico característico do cineasta está presente em todo o filme. Além disso, “As Misândricas” possui uma das cenas mais emblemáticas do cinema em 2017, tematicamente e visualmente.

Tal como em “Pazúcus: A Ilha do Desarrego“, seria interessante ver a recepção do grande público em relação “As Misândricas“. Mas, infelizmente, não teremos esse prazer de ver o novo filme de Bruce LaBruce estreando nos cinemas brasileiros.

01 – 24 Frames (2017), de Abbas Kiarostami

Sinopse“Um dia, quando eu não tinha nada para fazer, comprei uma Yashica barata e saí pela natureza. Eu queria estar em contato com ela. Ao mesmo tempo, desejava compartilhar com os outros momentos agradáveis que testemunhei. É por isso que comecei a tirar fotografias. Para, de alguma maneira, eternizar esses momentos de paixão e dor…”

O filme de despedida de Abbas Kiarostami não poderia ser mais primoroso, existe aqui uma grandiosidade no singelo. A experiência que Kiarostami nos propõe é puramente de observação, no sentindo mais contemplativo do ato, pois, ao experimentar imaginar histórias através de frames, ele nos conduz à uma viagem através da linguagem cinematográfica.

Aos poucos, a cada detalhe que toma vida nos minimalistas frames apresentados, um artifício é utilizado em função de uma pequena história, seja através do desenho de som, ou até mesmo da montagem, que, apesar de não utilizar de cortes propriamente ditos, abusa da profundidade de campo da fotografia para servir como montagem, fazendo com que o espectador use o próprio olho como ferramenta de corte, nos induzindo para onde olhar nas respectivas cenas.

Além da força narrativa do filme, “24 Frames” também se encerra como uma despedida emocionante de Abbas, com uma sensibilidade característica das obras do poeta do cinema. E por ser tão contemplativo, dificilmente o filme entrará em cartaz nos cinemas brasileiros.

Menção Honrosa – Custódia (2017), de Xavier Legrand

SinopseDepois do divórcio, Myriam e Antoine dividem a guarda do filho. Refém de um pai ciumento e violento, e escudo para uma mãe perseguida, Julien é levado até o seu limite para prevenir que o pior aconteça.

O filme é um primoroso trabalho de estreia do ator e cineasta francês Xavier Legrand, que o realiza numa direção sólida e segura, conseguindo guiar o espectador num drama familiar que se mostra terrivelmente assustador.

Dentre os filmes da lista, “Custódia” é o que tem mais chances de entrar no circuito comercial brasileiro, mas por enquanto nada foi anunciado a respeito.