Existem casos raros de cineastas que conseguem usar a tecnologia do 3D em função da narrativa, não a usando como um mero artefato para simplesmente vender mais ingressos e, Win Wenders, estabelece essa relação com a tecnologia de uma forma autoral mais um vez em “Os Belos Dias de Aranjuez” (2016), fato que havia sido explorado anteriormente em “Pina” (2011) e em “Tudo Vai Ficar Bem” (2015). Mas por que enfatizar tanto o uso do 3D em seu mais recente trabalho? Pois além de realçar toda a linda locação, é uma das grandes coisas da obra, mas explico melhor sobre isso mais adiante.

Em “Os Belos Dias de Aranjuez“, Wenders realiza o seu primeiro filme em francês para nos contar uma história sobre contar histórias. O filme é adaptado da peça “Les Beaux Jours d’Aranjuez“, de Peter Handke e, sendo uma adaptação teatral, o filme é bastante centrado nos diálogos de seus personagens. Mas a grande tarefa de Wenders aqui é conseguir sustentar todo o texto e a estrutura narrativa dentro de uma obra cinematográfica, inserindo elementos que a definissem como obra audiovisual, e isso é realizado de forma objetiva no maior tempo da projeção.

Na trama, acompanhamos o Escritor (Jens Harzer) em sua bela casa num dia de verão, onde o mesmo começa a datilografar e criar um casal de personagens que interagem nessa mesma casa, mais precisamente no seu jardim, onde conversam entre si sobre desejo e vida. Esse casal, que brilhantemente não possuem nomes, são arquétipos de seus gêneros, o Homem (Reda Kateb) faz perguntas incisivas para Mulher (Sophie Semin), que as responde serenamente. E, assim, vamos acompanhando os devaneios que surgem à partir dessa conversa.

Os primeiros planos do filme são extasiantes, como dito anteriormente, o uso do 3D traz uma profundidade de campo para os planos gerais que ficam lindos plasticamente. Nesses planos, Wenders nos mostra uma Paris romântica, mas não da forma habitual, ele não apela pelas famosas luzes da cidade, mas sim para o verde e para a natureza, que acabam servindo como um preparo para nos apresentar o jardim em que a história do filme irá se passar. A paleta de cores traz um tom vivo e misturada com os figurinos de seus personagens nos transmitem uma sensação de leveza, plenitude e por que não de calor, já que o filme se passa no verão e esse clima é essencial para a tentativa de fluidez dos diálogos.

A câmera de Wenders passeia muitíssimo bem entre as árvores, entre os personagens e entre os cômodos da casa, isso quando somos transportados para o ambiente do Escritor. Parece que Wenders quer que o espectador desfrute ao máximo o lindo jardim em que os personagens estão presentes, e não é só a fotografia que corrobora para essa sensação, mas todo o trabalho de edição de som do filme é ótimo, ouvimos claramente o vento balançar as folhas das árvores e os passarinhos cantando. A mixagem de som também possui um trabalho importante no filme, pois, apesar do filme se passar no mesmo local, há aqui uma divisão quase invisível entre dois ambientes em que ele se passa, um é o do Escritor e o outro é do Homem e da Mulher conversando, mas para não parecer universos tão distintos, a mixagem de som une esses dois espaços, inserindo barulhos do Escritor datilografando enquanto acompanhamos algumas falas dos protagonistas no jardim. Para fechar esse aspecto, o que talvez tenha mais força na obra se tratando disso é a música, que por muitas vezes começa diegética com o Escritor colocando um disco em sua jukebox, e conforme a câmera vai passeando e deixando o ambiente interno da casa e se aproximando do jardim, as músicas passam a ser extradiegéticas, nos dando a sensação de que estamos acompanhando uma história dentro de uma história.

As músicas escolhidas para compor a trilha sonora do filme são ótimas, todas possuem um misto de melancolia e complementam o sentido da cena com suas respectivas letras, como a bela “Perfect Day“, de Lou Reed, no qual ele canta em um dos versos a seguinte frase: “Oh, é um dia quase perfeito e estou contente por passá-lo com você“, criando assim uma analogia entre os personagens do filme que irão passar um belo dia de verão juntos e por que não, a também nós espectadores, que iremos dividir esse tempo com esses personagens. A cena da participação de Nick Cave cantando “Into My Arms” é bastante poderosa, onde Wenders brinca mais uma vez com a música diegética e extradiegética, sempre evidenciando os dois ambientes que o local possui.

Esse tipo de brincadeira também funciona para transportar a obra para uma linguagem cinematográfica e criar uma identidade própria e autoral para a narrativa. Apesar do filme deixar bastante claro que os personagens dividem núcleos diferentes, eles estão num mesmo espaço que parece preso no tempo, distante do mundo moderno. O Escritor por exemplo se relaciona com coisas analógicas, ele escreve numa máquina de escrever e ele ouve música em discos de vinil numa jukebox, mesmo a câmera tendo nos mostrado que na mesma mesa em que ele escreve tem um tablet, ou seja, o personagem tem o poder de escolha sobre a tecnologia que irá usar, mas mesmo assim ele se volta para objetos do passado e nega a modernidade em sua volta. Wenders têm consciência disso quando nos mostra em uma cena em que o Homem olha com um binóculos a paisagem a sua volta e vê vários edifícios ao horizonte, deixando claro que aquele jardim é um lugar preso no tempo, deslocado da conturbada vida moderna. Nesse jardim o tempo passa mais lentamente, o vento passa pelos cabelos nos transmitindo vida, os passarinhos cantam e os sentimentos florescem.

E é nesse jardim suspenso e deslocado no tempo que mora a grande metáfora do filme, pois, juntamente com os dois núcleos da obra estão duas maçãs com um vermelho vívido, uma sob a mesa do Escritor, ao lado de sua máquina de escrever e a outra na mesa externa no jardim, que compõe o cenário do casal. A maçã por si só simboliza o desejo e eventualmente o pecado carnal quando nos baseamos nos dogmas cristãos, esse desejo é o cerne da conversa entre o casal, onde a Mulher fala com bastante lirismo sobre suas relações sexuais e paixões. Todos esses elementos quando mesclados nos remetem ao Jardim do Éden, o local descrito em Gênesis em que a humanidade teve início. Então, temos aqui Deus na forma do Escritor, que deu vida aos seus personagens, Adão e Eva, onde conversam sobre paixões e desejos sexuais, num jardim deslocado no tempo e distante do resto do mundo. Essa analogia criada não serve somente para refletir na paisagem do filme e nos desejos sexuais de seus personagens, em certo momento da trama é incluso também um aspecto forte de mortalidade nos diálogos dos protagonistas, nos dando um indício do futuro da humanidade após a extinção do jardim e das pessoas que ali estão, incluindo seus anseios. O filme acaba ganhando um tom fabulístico e que, combinado com a profundidade de campo proporcionada pelo 3D, nos faz entrar num ambiente encantador, onde, embora pareça distante da nossa realidade, ainda assim nos é palpável.

Tudo isso citado anteriormente serve como pano de fundo para o principal da obra, que no caso são os diálogos dos protagonistas, mas incrivelmente isso é o que acaba não funcionando no filme, infelizmente. Toda a parte técnica e os simbolismos da obra estão em função de um texto enfadonho e que, ao tentar ser lírico demais acaba se perdendo. Embora a química entre Sophie SeminReda Kateb funcione até uma certa medida, os personagens parecem demasiadamente distantes um do outro. As provocações jogadas do Homem para a Mulher parecem ser interessantes a princípio, mas rendem tantos devaneios que o espectador acaba ficando desinteressado nos que os personagens tem a dizer.

A medida que a projeção avança ele vai ficando com um ritmo cada vez mais truncado, pois as conversas não levam a lugar nenhum e são poucas as reflexões que conseguimos extrair desses diálogos. O que era pra ser o grande trunfo do filme acaba sendo sua quase ruína. Os momentos em que passeamos com a câmera pelo jardim e que o filme brinca com as músicas são muito mais prazerosos do que as cenas dos diálogos, o que acaba tornando os personagens completamente desinteressantes e consequentemente isso se reflete no filme, que acaba parecendo mais longo do que realmente é. O que acaba nos salvando de uma monotonia absurda é toda a mise-en-scène do filme, que é meticulosamente trabalhada.

No fim, ficamos com a sensação de que esse é um filme que vale muito mais pela contemplação do que ele tem a nos transmitir através de palavras, já que sua força está nas imagens, imagens essas que nos dizem muito mais do que qualquer frase proferida na obra. Embora Wim Wenders tenha todo o apuro técnico de um grande cineasta, ele não consegue transformar o texto que sustenta o filme em algo interessante, nos dando a impressão de que “Os Belos Dias de Aranjuez” é uma linda pintura sem uma moldura, pois a estética por si só não sustenta uma obra.

Título Original: Les Beaux Jours D’Aranjuez
Direção
: Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders (Baseado na peça teatral “Les Beaux Jours d’Aranjuez”, de Peter Handke)
Elenco: Reda Kateb, Sophie Semin, Jens Harzer, Peter Handke e Nick Cave
País: França
Ano: 2016
Duração: 99 minutos
Estreia: 30/3/2017
Distribuidora: Imovision