O cinema é fruto de seu tempo e um espelho sociopolítico da sociedade, as obras autorais se preocupam em apresentar conflitos pertinentes e, assim, juntamente com o público levantar questões que merecem serem debatidas. Com isso em mente, “Fatima” (2015), de Philippe Faucon, nos conta a história de uma personagem com conflitos tão palpáveis que rapidamente os absorvemos. Embora tais questões não sejam o foco maior da obra, elas estão presentes de uma forma bem pontual.

Na trama, acompanhamos a história de Fatima (Soria Zeroual), uma mulher nascida na Argélia e que atualmente mora na França com suas duas filhas: Souad (Kenza-Noah) – com quem possui alguns problemas de relacionamento e Nesrine (Zita Hanrot) – que está iniciando os estudos em medicina. Enquanto Fatima cria suas duas filhas sozinha, ela também trabalha como doméstica e se desdobra entre o trabalho e os afazeres de casa.

Se em 2015, o filme “Que Horas Ela Volta?“, de Anna Muylaert conquistou o público e a crítica por expor as contradições trabalhistas de uma doméstica e como a mesma se relacionava com sua família, em “Fatima” a mesma temática está presente, porém visto por um prisma diferente, que além desses pontos também abrange conflitos de dogmas culturais, além da xenofobia e conflitos geracionais.

Assim como outros países africanos, a Argélia sofreu uma terrível colonização francesa e um dos reflexos desse processo se vê na economia do país africano, sendo assim pessoas se veem na necessidade de migrar de sua terra natal para conseguir se manter e buscar construir um lar para suas famílias em outros países. E é dentro desse contexto que o personagem de Fatima se situa, com uma jornada de trabalho super rígida e com direitos trabalhistas negados por muitas vezes. Nesse sentindo, o filme também se assemelha ao curta “A Negra de…” (1966), do cineasta senegalês Ousmane Sembene, no qual é exposto a vida de uma mulher que viu oportunidades de trabalho na França e sai de seu país para trabalhar como doméstica e acaba sofrendo com as péssimas condições de trabalho, e a relação da forte colonização francesa também se faz presente nessa obra, tal como já citado em “Fatima“.

No início do filme vemos a protagonista esperando uma mulher para lhe apresentar um apartamento em que ela pretende alugar, mas logo que a pessoa chega e vê o lenço na cabeça de Fatima, ela desconversa e nem chega a abrir o apartamento para que se possa visitar. Fica claro nessa cena o olhar preconceituoso que a personagem enfrenta e enfrentará ao decorrer da trama, e após um diálogo com suas filhas fica evidente que tal situação é corriqueira e que a mesma já passou por tais transtornos anteriormente.

A dificuldade da protagonista em se comunicar em francês também é muito bem explorado no filme, pois em vários momentos a personagem se vê perdida num mundo repleto de desconhecidos que nem ao menos falam sua língua. Isso também se reflete na relação da personagem com suas filhas, que por tantas vezes se tem uma impressão que existe uma barreira entre elas. Mas, essa barreira existe muito mais por uma questão de geração do que por outros fatores, pois em vários momentos as jovens questionam os valores culturais da mãe. Em uma cena, por exemplo, Nesrine é confrontada pela mãe em relação as suas roupas que mostram os ombros, e são nesses momentos que podemos ver com mais clareza como Fatima se relaciona com o mundo exterior em que habita.

Embora possa parecer, em momento algum Fatima é agressiva ao impor seus valores às suas filhas, demonstrando uma doçura presente em seu caráter. A atriz Soria Zeroual canaliza muito bem as características de Fatima e nos mostra uma personagem firme, com um olhar que possui um enigmático aspecto híbrido entre determinação e deslocamento. Fatima é bastante determinada em ajudar suas filhas em seus estudos e isso traz transtornos com suas companheiras de trabalho, que não gostam dessa atitude, e também com suas filhas, em diferentes proporções. Nesse aspecto Souad é a mais problemática, já que não gosta do trabalho de doméstica da mãe e a ataca por isso, enquanto a mais velha, Nesrine, entra em vários conflitos internos sobre continuar seus estudos em medicina financiados pela mãe, pois várias pessoas a sua volta dizem que ela está se aproveitando financeiramente da mãe e isso a desmotiva. Embora o filme intercale muito bem o tempo de tela das duas irmãs, o arco de Nesrine é o mais desenvolvido e o que mais se destaca na trama.

Infelizmente o filme acaba não desenvolvendo todas as questões poderosas que ele pontua. A abordagem escolhida por Philippe Faucon acaba por tirar a força do filme em alguns aspectos, embora trate de assuntos densos, o filme possui uma narrativa um tanto quanto leve e a sua curta duração atrapalha o que poderia ser um estudo mais aprofundado de uma personagem que carrega em si vários conflitos contundentes.

Mesmo assim, Fatima é um filme que se faz necessário, muito mais pelas questões que ele pontua do que pelo aprofundamento nessas tais questões. A força do filme está mesmo em sua protagonista, que é uma personagem forte e muito humana, embora possua dificuldades em se comunicar por conta do idioma, ela nos diz muito através de seu olhar e de seus gestos, a cena final nos exemplifica muito bem isso, onde se diz muito sem ao menos soltar uma palavra.

Título Original: Fatima
Direção
: Philippe Faucon
Roteiro: Philippe Faucon
Elenco: Soria Zeroual, Kenza-Noah, Zita Hanrot, Chawki Amari e Franck Andrieux.
País: França
Ano: 2015
Duração: 79 minutos
Estreia: 16/3/2017

Avaliação
  • 7/10
    Fatima (2015), de Philippe Faucon - 7/10
7/10

Resumo

“Fatima” é uma obra que pontua questões importantes sobre xenofobia, conflitos culturais e geracionais, embora não se aprofunde muito na maioria desses pontos que levanta. A força do filme está mesmo na interpretação de Soria Zeroual, que canaliza muito bem as características de Fatima e nos mostra uma personagem firme, com um olhar que possui um enigmático aspecto híbrido entre determinação e deslocamento. É um filme necessário, mas que poderia ter sido muito mais contundente.