camiloHoje, quinta-feira (26/2), estreia um dos filmes nacionais mais premiados no ano passado, trata-se de “A História da Eternidade” (2014), filme do cineasta pernambucano Camilo Cavalcante, que leva às telas pela primeira vez um longa-metragem, pois sua carreira era formada, até então, por curtas, em sua maioria curtas bastante conceituados.

Camilo, que possui mais de dez curtas em sua carreira, se atenta em falar sobre a condição humana e a relação com o mundo exterior. São trabalhos que além de possuírem uma grande profundidade, são trabalhos tecnicamente impecáveis, mostrando todo o conhecimento cinematográfico que ele possui.

Dentre tantos ótimos curtas, selecionei três para comentar aqui. Que servirá, além de fazer uma apresentação à obra de Camilo, também irá preparar o terreno para “A História da Eternidade“, que depois de passar por tantos festivais, chega finalmente aos cinemas.

“O Velho, o Mar e o Lago” (2000)

Em ordem cronológica, começaremos com o curta “O Velho, o Mar e o Lago” (2000), que recebeu inúmeros prêmios, incluindo de melhor curta em vários festivais em sua época de lançamento. A premissa é aparentemente simples, apesar de ser um filme que fala sobre existencialismo, além de ser rodado praticamente em uma locação e em sua maior parte com somente um ator: Cosme Soares, que entrega uma interpretação belíssima, cheia de inspiração.

O curta também é uma homenagem ao ator, poeta e compositor Mário Lago, que se faz presente no título do filme – uma brincadeira fonética concedida por Camilo. O texto também é brilhante, pois é simples, embora poético; a cena do monólogo de Cosme dos Santos regando as suas flores é poesia pura, somos apresentados ali ao passado do personagem, suas angústias e seus sofrimentos, a cena se desenrola na maior parte em um plano sequência, deixando um campo aberto para a interpretação de Cosme, além da edição de som, que faz várias colagens, dando um toque de marginalidade em seu contexto.

O Velho, o Mar e o Lago” é um trabalho primoroso, rodado totalmente em preto e branco, com ótimos planos, momentos reflexivos e com uma maravilhosa interpretação, sendo um filme profundo e com pouco mais de vinte minutos de duração, o suficiente para fisgar o espectador.

O velho somos todos nós. O mar é a vida. O lago, solidão“.

Ave Maria ou Mãe dos Oprimidos (2003)

Logo depois de realizar “O Velho, o Mar e o Lago“, Camilo voltou com um filme também poético, porém bastante cru em suas cenas, “Ave Maria ou Mãe dos Oprimidos” (2003) é um filme impactante e é o seu trabalho que mais gosto, até o momento. O filme mostra diversas situações na cidade de Recife às 18:00, o momento onde as rádios mais populares da cidade interrompem as suas programações para tocar a música Ave Maria, a cada cena tomamos um soco no estômago.

Primeiramente, Camilo nos mostra a cidade num panorama geral, em planos abertos, enquanto ouvimos alguém tentando sintonizar o rádio. Então, chegamos até um bar, onde momentos depois a canção se inicia. A partir daí, viajamos por Recife e somos testemunhas de várias situações diferentes, desde um suicídio até uma cena real de nascimento, que Camilo filma em um plano frontal, e enquanto isso vamos ouvindo a melancólica canção. As cenas são impactantes, por uma contribuição muito forte também da música e pelo que ela representa, e assim, Camilo nos propões uma reflexão sobre nossas vidas, nos mostrando momentos de dor e de felicidade em pessoas tão distintas. Ao fim, quando a música acaba, Camilo ainda nos deixa acompanhar alguns momentos no bar, mostrando que a vida continua, para cada um, em seus próprios conflitos.

Camilo usou esse mesmo formato em um outro curta, chamado “Ave Maria ou Mãe dos Sertanejos” (2009), que apesar de também ser muito bem realizado, não chega a ser tão visceral quanto esse, pois a proposta também era diferente.

Tecnicamente o filme também é maravilhoso, a fotografia é muito bem executada, os planos que parecem sobrevoar as cenas e todo o jogo de montagem dão ao filme um toque perturbador, que deixará o espectador simplesmente maravilhado/horrorizado com toda a singularidade da vida.

A História da Eternidade (2003)

Apesar do mesmo nome do seu longa-metragem recém chegado aos cinemas, o curta “A História da Eternidade” (2003) possui uma proposta diferente do recente trabalho de Camilo. A semelhança entre os dois pode-se dizer que é geográfica, pois ambos se passam no sertão e ambos contam uma história bastante simbólica.

O filme é narrado em um falso plano sequência, onde acompanhamos várias situações diferentes, dentro de uma linguagem repleta de metáforas e poesias. Como a proposta do filme é fazer com que o espectador entre de cabeça nas situações ali expostas, o plano sequência, mesmo possuindo cortes em momentos chaves, funciona muito bem.

Assim como em seu filme anterior, “Ave Maria ou Mãe dos Oprimidos“, Camilo não poupa as cenas fortes, começando o filme com uma cena de aborto, onde o feto é jogado aos cachorros. Apesar de forte, as cenas são líricas e não chegam a ser gratuitas, pois como em outros trabalhos de Camilo, elas possuem a tarefa de serem reflexivas.

A História da Eternidade” é um belíssimo filme, que em tom de fábula, fala sobre a alma e a tragédia humana, e como a própria linguagem do curta sugere, é uma tragédia que deve se repetir por toda a eternidade.

Tudo na vida é frágil. Tudo passa…

Se vocês se interessaram pela obra de Camilo Cavalcante não tenha medo de ir ao cinema e assistir “A História da Eternidade” e seus outros curtas, pois ele é um cineasta que possui uma visão única e poética sobre a humanidade e os seus filmes sempre tem (muito) o que dizer.

Assista abaixo o trailer de “A História da Eternidade” e descubra o que é maior que o amor!