Durante toda a década de 1960 o cinema ganhou outros aspectos narrativos, os anseios de cineastas estavam mudando, os filmes começaram a sair pras ruas mais ativamente, trazendo assim, o povo como protagonista. As obras calcavam mais o realismo e as histórias lúdicas estavam dando espaço para dramas mais pessoais. Na França era época da Nouvelle Vague, onde Godard, Chabrol, Truffaut, Varda, Resnais e Rivette estavam propondo novas narrativas e pensando o ato de fazer cinema de uma forma diferente e inovadora. E no meio dessa grande ebulição de ideias se encontra Jacques Demy e o musical “Os Guarda-Chuvas do Amor” (1964), que levou a Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes daquele ano.

A trama do filme se passa no ano de 1957 e acompanha a vida de Guy Foucher (Nino Castelnuovo) – um jovem de 20 anos que vive com sua madrinha e Geneviève Emery (Catherine Deneuve) – uma adolescente de 17 anos que trabalha com sua mãe viúva numa loja de guarda-chuvas. Os dois jovens são muito apaixonados e pretendem se casar, mas uma carta que chega até Guy atrapalham os seus planos, pois o rapaz é convocado para o serviço militar e passará dois anos longe. Então os dois se separam e passam a viver com o drama de esperar um ao outro, que é agravado quando Geneviève descobre que está grávida. 

Por tratar de conflitos entre relações amorosas, o filme é bastante contido, mesmo se tratando de um musical. Apesar de todas as suas falas serem cantadas, o filme não busca grandes números de coreografias pra compor suas cenas. Ponto esse que é encarregado pela composição da cinematografia e das cores de seus figurinos. Todas as cores são cuidadosamente usadas para expor as personalidades de suas personagens, ou como as imposições de uns os personagens sobre outros vão tomando forma. Por exemplo, as cores que Geneviève usava antes da despedida com Guy vão sumindo com a ausência de seu namorado e vai dando conta as cores predominantes que sua mãe usa, uma clara alegoria de como a mãe consegue manipular sua filha para se casar com o rapaz que ela acha ideal, tomando conta das as ações de Geneviève gradativamente.

Mesmo sendo um musical, a medida que ele avança vai ser tornando cada vez mais denso, deixando para atrás a sua euforia do começo, causando um forte contraste com as cores vivas presente na obra. O drama dos personagens é tão palpável que rapidamente o espectador se identifica com os conflitos vivenciados, o filme vai além de uma comédia romântica convencional, onde geralmente o casal passa por alguns problemas para conseguirem ficar juntos. Ele levanta a questão da gravidez precoce, do medo do abandono por parte dos mais velhos e o medo da solidão durante a juventude, além de levantar questionamentos sobre as escolhas pessoais e como elas podem traçar um rumo totalmente inesperado em nossas vidas, nos levando para caminhos não planejados anteriormente. 

O filme possui uma estrutura convencional, os seus três atos são marcados por letreiros que dividem muito bem o filme, não existe aqui uma música crescente e que extrapola, todo o filme vai num mesmo ritmo desde o começo. Mas o diferencial aqui é como a narrativa é usada, como os elementos de um musical são usados para contar uma história mais palpável. O final de “Os Guarda-Chuvas do Amor” só confirma toda a proposta do filme, deixando o espectador com uma sensação incômoda, mas ao mesmo tempo que o final pode soar amargo ele nos entrega uma cena belíssima plasticamente, a neve que cai nesse momento nos diz muito mais do que qualquer diálogo ou canção, nesse caso.

Os Guarda-Chuvas do Amor” é um filme memorável, que é ousado por se aventurar como um musical numa época onde o cinema clamava por realismo, mas que mesmo assim sabe como ser realista perante a forma que ele é concebido. É um musical mais contido, sem grandes números, mas que possui um grande sentimento. Com certeza é um filme para ser lembrando juntamente com os grandes musicais de Hollywood das décadas de 1940 e 1950, mas seu grande destaque dentre eles é por se tratar de um filme com uma proposta única dentro de um gênero tão formulaico.