Estados Unidos Pelo Amor“, 2016, com direção de Tomasz Wasilewski e fotografia do soberbo Oleg Mutu (mesmo de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007)): ambos foram frutos do nascimento ao fim do regime comunista na Polônia ao final dos anos 80, começo dos anos 90.

Este filme possui uma ótima montagem e sua edição é elaboradíssima, traduzindo uma narrativa cheia de enigmas ou que revelam as principais nuances do seu roteiro nas entrelinhas (um olhar, um momento de silêncio, etc).

A trama é baseada em situações do cotidiano, focada em 4 mulheres de realidades diferentes (Agata (Julia Kijowska), Renata (Dorota Kolak), Marzena (Marta Nieradkiewicz) e Iza (Magdalena Cielecka)), entretanto, ligadas por uma mesma escola. Novamente, a montagem do filme é que traduz todo desiquilíbrio (psicológico e sexual) e toda repressão no contexto da tríade máxima polonesa: A igreja, a família e o matrimônio. O filme carrega algumas sutilizas sobre hábitos comuns aos anos 90 (o cigarro é uma constante no filme, delineando o contexto de não proibição do consumo do tabaco em locais fechados), mas nada que se aproxime do que alguns jornalistas andaram alardeando: “a abertura pop da polônia para o mundo”. Ao ler isso, o espectador desavisado vai acreditar que irá conferir um filme que trata em parte do contexto da Disco Polska ou até mesmo de algo que remete ao contexto narrativo do ótimo filme “Adeus, Lênin!” de Wolfgang Becker, 2002.

Estados Unidos Pelo Amor” é um filme sobre olhares femininos, sobre um jovem diretor tentar contextualizar sua infância – através do aspecto afetivo – dentro do comportamento de mulheres adultas ou em transformação do seu cotidiano. A grande discussão ao término da exibição do filme é o seu título: A Polônia, assim como boa parte do leste europeu, sofreu com regimes políticos autoritários, portanto, o grande fator para justificar o seu título, é o aspecto temporal e a mudança de narrativa para cada personagem. É um filme sem linearidade mas muito bem construído em suas pertubações e na confusão que causa ao espectador: não se trata de estupro – tal qual o senso comum conhece – ou de ódio exacerbado, mas como poucas palavras podem destruir o contexto de convivência e de expectativa das personagens exibidas na tela. Assim como o regime político polonês nos anos 90 mostrou-se contraditório, as relações afetivas também são: indigestas, alcoólicas e categorizadas em atitudes indiferentes – alguém corre em um lago congelado, afogando-se e quem acompanha a cena, nada pode fazer.

Este filme é antes de qualquer detalhada impressão uma crítica sutil e revisionista sobre o começo dos anos 90, cheio de situações constrangedoras que oprimem jovens, mulheres e que exemplifica a ilusão em torno da convivência sadia e da credibilidade direcionada ao aspecto político. Não vá ao cinema esperando beleza ou romantismo, “Estados Unidos Pelo Amor” é frio, portanto, coerente, assim como seu aspecto visual elaboradíssimo e visceral como as suas silenciosas e impactantes atuações femininas.

Direção: Tomasz Wasilewski
Roteiro: Tomasz Wasilewski
Elenco: Julia Kijowska, Magdalena Cielecka, Dorota Kolak, Marta Nieradkiewicz, Tomasz Tyndyk, Andrzej Chyra, Lukasz Simlat, Marcin Czarnik, Jedrzej Wielecki, Julia Chetnicka, Malgorzata Majerska, Igor Bejnarowicz, Zuzanna Bernat, Lech Lotocki, Dorota Papis, Michal Grzybowski, Hanna Klepacka, Krzysztof Pluskota, Joanna Król, Malgorzata Rozniatowska, Klara Bielawka, Elzbieta Jarosik, Kinga Ciesielska, Edward Wasilewski, Piotr Gardocki, Bartosz Pietrak, Jakub Gawarecki, Lena Schimscheiner, Tomira Kowalik e Agnieszka Makowska.
País: Polônia; Suécia
Ano: 2016
Duração: 106 minutos