Há 10 anos a Marvel Studios vem construindo o seu universo cinematográfico, e com o sucesso comercial das produções ao longo dos anos, o estúdio pôde expandir o seu leque de heróis e realizar filmes que, em décadas atrás, seriam impensáveis. Dito isso, podemos afirmar que “Pantera Negra” (Black Panther, 2018), chega num momento oportuno e que, graças ao desenvolvimento do universo Marvel no cinema, podemos conferir um filme que não possui medo de arriscar, mesmo sendo um produto com base numa fórmula pop.

Pantera Negra” é o terceiro longa dirigido por Ryan Coogler, que conseguiu boas avaliações da crítica com seus primeiros trabalhos, como “Fruitvale Station – A Última Parada” (2013) – que foi premiado no Festival de Sundance, e “Creed: Nascido para Lutar” (2015) – que foi indicado ao Oscar 2016. E, talvez, Coogler tenha sido a melhor escolha para dirigir o projeto, injetando elementos temáticos característicos de sua obra para dar profundidade aos personagens.

Na trama do filme, que é o último do MCU (Universo Cinematográfico Marvel) antes do aguardado “Vingadores: Guerra Infinita” (2018), acompanhamos os desafios de T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman) para se tornar o líder da nação africana Wakanda. E ao passo que novos conflitos eclodem, revelações do passado interferem diretamente no destino do país, que será obrigado a tomar decisões drásticas para decidir o seu futuro.

Podemos afirmar que “Pantera Negra” é sim um filme grandioso, e isso fica evidente devido a fotografia de Rachel Morrison, que nos apresenta Wakanda em deslumbrantes planos gerais, revelando a bela paisagem das locações, que por muitas vezes divide espaço com um lugar altamente tecnológico, criando um híbrido bastante funcional entre as tradições do povo, que é tão importante na trama, com as riquezas vindas através do Vibranium – cobiçado metal que é abundante no país.

A cinematografia do filme é fantástica, todo o trabalho do desenho de produção engrandece ainda mais a riqueza cultural dos habitantes de Wakanda. Os figurinos são vívidos e definem muito bem as diversas tribos que se apresentam no filme, criando um universo cultural plural e que não servem somente para compor a mise-en-scène, pois boa parte dos elementos apresentados possuem um valor para o desenrolar da trama, fazendo com que a maior parte da concepção visual da obra não possua uma função somente estética, dando a ela um trabalho quase etnográfico, que possui função narrativa.

E, ainda tratando-se do aspecto imagético criado para dar vida à riqueza cultural dos personagens, é preciso destacar o ótimo trabalho de Kendrick Lamar na trilha sonora, que captou a essência da obra e inseriu mais ritmo ao universo criado. As canções vão do hip-hop à musicalidade africana, com percussões marcantes, que casam perfeitamente com a trilha incidental de Ludwig Göransson. Lamar, além de figurar na trilha com canções que compôs exclusivamente para o filme, também foi o curador musical, proporcionando um leque maior de artistas envolvidos, como Travis Scott e SZA, por exemplo. A ótima trilha sonora com certeza é parte fundamental da obra, colaborando com a cinematografia para a criação de um universo crível.

Se por um lado a cinematografia é deslumbrante, o filme ainda cai em arquétipos fáceis, que podem ser ‘justificados‘ quando pensamos no alcance comercial que a obra pretende ter. E é nesse ponto que o produto Marvel entra com mais força, pois, apesar de enaltecer devidamente seus personagens negros, o filme opta por utilizar de esteriótipos norte-americanos acerca da língua utilizada em Wakanda, já que os personagens, em seu próprio país, falam em inglês com um sotaque que os distancia da realidade que os cercam, forçando assim uma identidade norte-americana, mesmo quando o próprio filme coloca a questão da ancestralidade africana como primordial para o desenvolvimento de seus personagens.

O filme, ainda dentro desse produto Marvel, cai em momentos nada inspiradores em cenas de ação, principalmente as que acontecem fora de Wakanda, o que é agravado por efeitos visuais que não são tão convincentes. Enquanto o filme caminha muito bem em sua ambientação em quesitos visuais, as batalhas vão por um outro caminho, carregando um aspecto de artificialidade que acaba tornando difícil qualquer senso de urgência que a cena poderia ter. Embora existam exceções, como as cenas do desafio para se tornar o Rei de Wakanda, que acontecem em uma bela queda d’água. Essas cenas, por exemplo, são muito mais críveis e trazem um sentindo de perigo que não são transmitidos quando o Pantera Negra uniformizado está em ação.

Agora, tratando-se de personagens, o filme se sai muito bem. Um dos pontos mais bem elaborados é o grupo de coadjuvantes, que possuem um valor narrativo bem explorado. O núcleo feminino é devidamente aproveitado, colocando as mulheres das tribos em cenas de batalhas em linha de frente, são personagens que possuem peso para trama, permeando todo o equilíbrio do povo de Wakanda. E esse brilho desses personagens não é por menos, pois o elenco é ótimo, que conta com Lupita Nyong’oDanai GuriraForest WhitakerAngela BassettDaniel Kaluuya, além do antagonista vivido por Michael B. Jordan.

E algo que precisa ser dado o devido crédito é o trabalho de desenvolvimento de Erik (Michael B. Jordan), que vai além de um vilão, já que o personagem está mais para um rival de T’Challa, que vai de encontro aos princípios políticos do personagem, do que um personagem vilanesco. O cargo de vilão, no sentindo mais clássico da palavra, fica para Ulysses Klaue (Andy Serkis), que serve como escada dramática para o personagem de Erik. E, ainda sobre Klaue, fica nítido o quanto Andy Serkis está confortável no papel, criando um personagem sarcástico e inescrupuloso. Mas, voltando a Erik, podemos afirmar que ele é o antagonista, até então, mais bem desenvolvido do MCU, com conflitos palpáveis e com um discurso bastante credível. Tal discurso, inclusive, dá respaldo para o filme ganhar um tom mais político, o que só o deixa com mais corpo, pois é através das vivências de Erik que é abordado o racismo, trazendo à tona o histórico de abusos que a população afro vivenciou e ainda vivencia.

O aspecto político da obra esbarra também no forte discurso acerca da tradição do povo africano, que quando colocado em cheque definem os caminhos de seus personagens. O interessante é ver como o filme resolve o seu conflito ideológico, que pode ser encarado até mesmo como algo corajoso dentro de uma narrativa mais palatável. Embora o longa se resolva completamente em sua primeira cena pós créditos, é gratificante ver um filme, que possui um imenso apelo popular, tratar de questões étnicas e políticas na forma mais clara possível.

Pantera Negra” é um dos grandes filmes do gênero, solidificando de vez um personagem que não era tão popular para o grande público. É uma obra que se faz dentro da fórmula Marvel, com menos humor arbitrário, claro, mas que busca trilhar por novos rumos e, quem sabe assim, abrir caminhos para blockbusters que consigam equilibrar aventura, ação, política e pautas pertinentes da sociedade atual. O fato é que, mesmo com alguns tropeços, “Pantera Negra” já surge como uma das principais obras do MCU. Vida longa ao Rei!

Título Original: Black Panther
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler & Joe Robert Cole (Baseado em quadrinhos da Marvel Comics, por Stan Lee e Jack Kirby)
Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Winston Duke, Sterling K. Brown, Angela Bassett, Forest Whitaker, Andy Serkis, Florence Kasumba, John Kani
Fotografia: Rachel Morrison
Produção: Kevin Feige
País: Estados Unidos da América
Ano: 2018
Duração: 134 minutos
Estreia: 15/02/2018
Distribuição no Brasil: Disney

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima

Avaliação
  • 8.5/10
    Pantera Negra (2018), de Ryan Coogler - 8.5/10
8.5/10

Resumo

“Pantera Negra” é um dos grandes filmes do gênero, solidificando de vez um personagem que não era tão popular para o grande público. É uma obra que se faz dentro da fórmula Marvel, com menos humor arbitrário, claro, mas que busca trilhar por novos rumos e, quem sabe assim, abrir caminhos para blockbusters que consigam equilibrar aventura, ação, política e pautas pertinentes da sociedade atual. O fato é que, mesmo com alguns tropeços, “Pantera Negra” já surge como uma das principais obras do MCU.