coutinho2Estou agora com uma página em branco para tentar escrever algo sobre um dos maiores documentaristas do mundo: Eduardo Coutinho, tarefa essa que não é fácil, pois os sentimentos são tantos que chega a ser impossível colocá-los em ordem e transferi-los para palavras certas, palavras essas que Coutinho há tempos não se relacionava para criar o seu cinema. Coutinho, que além de um exímio documentarista, foi um observador da alma humana, odiava escrever, dizia que não sabia escolher as palavras, por isso o seu campo era o documentário, onde há a fala e o corpo se comunica com as câmeras. Mesmo Coutinho afirmando que odiava escrever, ele já fora roteirista de ficção e até mesmo crítico de cinema no Jornal do Brasil por um curto período de tempo, entre 1973 e 1974.

Eduardo Coutinho nasceu em São Paulo e fez parte daquela turma que revolucionou o cinema brasileiro na década de 1960 e se mostrou cada vez mais inventivo desde então. O seu começo no cinema foi escrevendo e dirigindo filmes de ficção, como um episódio no filme “O ABC do Amor” (1967) e uma adaptação de Shakespeare para o cangaço brasileiro com o nome de “Faustão” (1970). Mas foi no período em que trabalhou como documentarista no Globo Repórter que o interesse pelo documentário surgiu, ele permaneceu no programa de 1975 a 1984, realizando reportagens que até hoje são ditas como inovadoras.

Então, foi com o filme “Cabra Mercado Para Morrer” (1984) que Coutinho ganhou um grande nome como documentarista, narrando o paradeiro de seus personagens que estariam numa ficção sobre a vida de João Pedro Teixeira, um líder camponês que foi assassinado em 1962. No filme, os personagens seriam interpretados pelas próprias pessoas envolvidas com João, incluindo familiares. O filme foi subitamente interrompido em 1964, quando houve o golpe militar no Brasil, parte da equipe foi presa na ocasião e Coutinho foi perseguido, sendo acusado de comunismo. O negativo foi resgatado em 1981 e um novo filme surgiu nesse momento, com Coutinho buscando os personagens do filmes após quase vinte anos das filmagens.

O filme foi premiadíssimo no Brasil e no exterior, e mostrou ao mundo uma nova faceta para abordagens de um documentário, com a figura de Coutinho se fazendo presente como um entrevistador ativo. “Cabra Marcado para Morrer“, foi um filme que mudou a vida não só de Coutinho, mas de seus personagens, já que Elisabeth Teixeira, viúva de João, saiu do anonimato e reencontrou os filhos após anos se escondendo do regime militar. “Cabra Marcado para Morrer” é um filme importantíssimo para a filmografia brasileira, que além de propor uma nova linguagem para o documentário, retrata um período político que é preciso ser sempre lembrado, para jamais ser repetido.

Após o sucesso de “Cabra Marcado para Morrer“, Coutinho se dedicou a fazer documentários em vídeo para o Centro de Criação da Imagem Popular, onde eram abordados temas sobre cidadania e educação, pode-se dizer que foram nesses anos que o entrevistador Coutinho ganhou mais forma, ganhando uma sensibilidade única para retirar depoimentos profundos das pessoas que entrevistava, um exemplo muito claro está em “Boca de Lixo” (1992), onde os personagens, depois de se sentirem confortáveis para falar, dão depoimentos maravilhosos.

Ao passar dos anos, surgia o método Coutinho, onde o documentário não necessitava de um tema em específico, onde não existia o plano perfeito – pois era necessário o contato real entre o entrevistado e o entrevistador, onde não existiam inserções, onde a simplicidade era o que importava, onde a filmagem do presente era o que também importava e onde a figura de Coutinho se tornou crucial, como uma voz questionadora. Mas nada disso era uma regra, pois mesmo o Coutinho, ao longo de sua carreira, foi se mostrando cada vez mais inventivo, quebrando mesmo alguns critérios de seu método, o maior exemplo disso é o filme “Um Dia na Vida” (2010), no qual Coutinho abre mão de tudo que existia de regras em documentários, gravando canais abertos de televisão aleatoriamente, nos propondo uma reflexão sobre os conteúdos apresentados na televisão brasileira.

O que importava para Coutinho era a verdade da filmagem, não a ideia que se tem da filmagem da verdade, pois é evidente que a câmera altera os personagens, e era essa verdade que Coutinho defendia no documentário. Os personagens (era como Coutinho chamava seu entrevistados) encontravam por meio do registro da câmera uma forma para serem ouvidos, para exorcizar certos problemas do passado, ou como o próprio Coutinho dizia: serem legitimados, ouvidos. Os depoimentos vinham em várias formas, mas o que era mais recorrente era a externalização dos depoimentos por meio da música, por esse motivo, Coutinho realizou um filme onde o principal foco eram as músicas cantadas pelas personagens, ao contrário do que ele já havia feito, as músicas em “As Canções” (2011) serviam como ponto de partida para os depoimentos e em outros filmes elas surgiam como uma consequência dos depoimentos.

Infelizmente, “As Canções” foi o último filme de Coutinho lançado por ele em vida, pois a exatamente um ano, no dia 2 de fevereiro de 2014, Coutinho fora brutalmente assassinado a facadas, em seu apartamento, no Rio de Janeiro, pelo seu próprio filho, devido a um surto de esquizofrenia.

Eduardo Coutinho se foi, mas deixou inúmeros personagens humanamente complexos e reais. Além de nos mostrar que é possível sim fazer documentários sobre pessoas, ele nos mostrou que cada um, não importa quem seja, possui uma história para ser contada e que ao ouvir/olhar essas histórias dessas pessoas que estão imortalizadas do outro lado da tela, podemos olhar pra nós, como pessoas que somos.

 

A necessidade de ser ouvido é uma das mais profundas, se não a mais profunda necessidade humana, ser ouvido é ser legitimado.
– Depoimento de Eduardo Coutinho no documentário “Eduardo Coutinho – 7 de Outubro” (2014) de Carlos Nader.