daisiesÉ incrível imaginar o quão rico foram os anos 1960, tudo foi revirado de cabeça para baixo, mais do que nunca a juventude pôs em voga as suas insatisfações, isso se refletiu diretamente nos costumes sócias e principalmente culturais. Em toda parte do globo estourava um movimento artístico que vinha para mudar os conceitos até então estabelecidos. E para o cinema também foi um período interessantíssimo, onde linguagens novas foram experimentadas e o reflexo dessa época se viu nas décadas seguintes, tornando os anos 1960 como um dos mais importantes da sétima arte. Naquele período a França viu o surgimento da “Nouvelle Vague” – um movimento que mudou a história do cinema mundial, no Brasil tivemos o “Cinema Novo” – reformulando completamente a cinematografia brasileira. E na Tchecoslováquia também tivemos um forte movimento cinematográfico chamado “Nová Vlna”, no qual o filme “As Pequenas Margaridas” (Sedmikrasky) (1966) é um dos principais representantes, juntamente com sua realizadora: Vera Chytilová, que faleceu em Março de 2014.

As Pequenas Margaridas” é um forte manifesto feminino, que como já citei foi concebido em uma época de grandes transformações sócias. O filme é cultuado até hoje não só pelo seu cunho feminista, mas também por ser um filme surrealista que brinca muito com os efeitos visuais.

Na trama, nós acompanhamos duas garotas chamadas Marie, que juntas resolvem ser ‘más’ e depravadas, se adequando ao mundo que as cerca. Assim, as duas partem em vários encontros românticos forjados e causando desordem em lugares onde passam. Mas nenhuma das ações são simplórias, embora extremamente bobas e aleatórias, elas possuem um fundo com certo humor negro – proposta essa que era uma das bases da “Nová Vlna”.

De uma forma pitoresca, Chytilová usa de elementos que atacam diretamente o sistema político da Tchecoslováquia, colocando duas garotas que protagonizam um filme completamente livre, livre na linguagem e também livre perante as ações das personagens, que não possuem limites para as suas peripécias, fazendo assim um contraponto ao sistema político de repressão daquele período.

O filme vai ainda mais além, quando já parte de que a sua realizadora é uma mulher e as protagonistas também, criando assim um manifesto pela liberdade da mulher que pode ser usado até hoje, afinal, todos almejamos ser livres. Ainda nesse contexto, as personagens se esbaldam em banquetes e parecem não se importar com seus ‘amantes’ que estão sempre morrendo de paixão, enquanto as duas se divertem. Elas debocham de tudo, estando em restaurantes ou em casa, mas como elas mesmas repetem ao decorrer do filme: “Você se importa?” – “Não, eu não!” (simples assim)!

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É com esse tom debochado e de subversão que as cenas caminham, com situações absurdas, dignas de um filme contestador. E além de toda a crítica que o filme faz em relação às autoridades Tchecas, ele também vai além no quesito técnico, pois Chytilová brinca com a narrativa, como um ótimo filme surrealista pede. Ela alterna imagens, muda os tons da fotografia, brinca com os efeitos sonoros, ou seja, além de um trabalho técnico, é também um trabalho primoroso de edição. Assistir a esse filme é com certeza uma experiência diferenciada, algo que poucos filmes conseguem fazer. E além de tudo isso, “As Pequenas Margaridas” é um filme extremamente divertido, as duas personagens são bastante carismáticas, além de lindas.

No fim, Chytilová criou uma verdadeira obra da sétima arte, tecnicamente único e irônico/incisivo como nenhum outro. A cena final, que é uma das mais emblemáticas do filme, fecha com maestria com a seguinte frase: “Este filme é dedicado àqueles cuja única fonte de indignação é confuso”. Genial, não?!

As Pequenas Margaridas” é um filme atemporal como poucos, é surrealista, é provocativo, irônico e acima de tudo um manifesto pela liberdade.