Após a parceria entre a Sony Pictures e a Marvel Studios, para que o Homem-Aranha fizesse parte do Universo Cinematográfico da Marvel, a curiosidade em relação ao primeiro filme solo do personagem dentro desse universo cresceu, ainda mais tratando-se do segundo reboot que a franquia ganhou em quinze anos.

O Homem-Aranha foi introduzido originalmente no UCM no filme “Capitão América: Guerra Civil” (2016), dos irmãos Russo. Inserindo o personagem sem a necessidade de contar uma história de origem, simplesmente o apresentando no meio da ação. A história de origem do personagem de fato nunca existiu dentro do UCM, mas o primeiro filme solo do herói, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” (2017), de Jon Watts, não deixa de ser um filme de origem, embora não de uma forma convencional.

No filme, Peter Parker (Tom Holland), após atuar ao lado dos Vingadores, volta para casa, onde combate crimes pequenos de sua região, conciliando a sua vida de herói com os estudos da escola. Mas, ao tentar provar o seu valor enfrentando o vilão Abutre (Michael Keaton), ele desencadeia uma série de fatores que vão colocar suas atitudes em xeque.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar” possui as mesmas características de outros filmes da Marvel, com uma fotografia que possui uma paleta de cores bastante saturada e um tom leve, onde muitas vezes soa despretensioso. Mas há aqui um ponto fora da curva, que se dá ao fato do longa possuir uma escala menor se tratando de eventos, o que favorece demais ao filme, fazendo a trama se voltar em função aos seus personagens, os dando camadas.

Fica bastante claro que o filme se preocupa com seus personagens quando as primeiras cenas servem para contextualizar o mundo do antagonista e assim, dar sentido às suas motivações. Apesar do roteiro usar de artifícios preguiçosos, pulando o tempo da trama para mostrar que este personagem percorreu um caminho nas sombras enquanto os Vingadores atuavam ao longo do tempo. Tal artifício também é usado para contextualizar o universo em torno do Homem-Aranha, pois como há uma lacuna da origem do personagem, alguns aspectos precisam ser explicados.

Mas quando o filme se vê livre dessas infelizes amarras, onde é necessário contextualizar o protagonista dentro desse universo repleto de heróis, ele funciona muito bem. O filme incorpora o dinamismo dos tempos atuais em sua narrativa, o que acaba se refletindo também a geração dos personagens jovens, que ainda estão na escola. Por exemplo, para mostrar e explicar como se deu a presença do Homem-Aranha na luta dos heróis em Guerra Civil, o filme incorpora uma narrativa dinâmica, onde o próprio personagem se grava através de seu celular, que, além de incorporar a tecnologia na trama, também apresenta as características do personagem, que é um misto entre a ingenuidade, ansiedade e o deslumbre.

Quando o filme dá mais espaço para o universo de Peter Parker ele é mais cativante. Os momentos na escola e a interação entre Peter e os outros alunos é um respiro nas mesmices de filmes de heróis. Aliás, todo o grupo de alunos é desconstruído de seus arquétipos, não há o clichê do esportista valentão e muito menos o perfil clichê da menina popular que cativa o protagonista, há uma nova roupagem nesses personagens que funciona muito bem, fazendo o núcleo escolar ser um dos pontos altos do filme.

E, impossível falar da relação de Peter com os demais alunos, sem citar o seu melhor amigo Ned Leeds (Jacob Batalon), com quem divide o segredo da sua identidade secreta. O personagem de Ned é crucial para que a dinâmica entre os dois funcione, seja dentro ou fora da escola, mas há ainda uma outra função importante de Ned, tratando-se de trama, pois é ele que irá guiar o espectador quando começa a interrogar Peter sobre seus poderes e como os conseguiu. É algo sutil e bastante funcional, pois tudo é explicado através de rápidos diálogos, de uma forma bem orgânica, sem precisar perder tempo com explicações mais elaboradas e enfadonhas.

As primeiras cenas onde mostra o Homem-Aranha em ação também são ótimas, pois a montagem dinâmica explora bastante a relação que o personagem tem com a sua cidade, seja a forma com que ele balança entre os prédios com suas teias, ou até mesmo como ele se locomove num lugar onde não há prédios. É muito bom ver que o filme encorporou a cidade na trama, mas de uma forma bem diferente dos filmes anteriores do personagem, sem aspectos grandiosos.

Se Tom Holland incorpora com bastante eficiência a figura do Homem-Aranha, com todos os trejeitos característicos do personagem, o Abutre também é muito bem representado por Michael Keaton, isso graças ao roteiro que soube explorar bem as suas motivações. No caso do vilão, ele simboliza o êxito de uma boa adaptação, onde o personagem se encaixa muito bem no universo criado pelo filme e se desprende de suas características clássicas do quadrinhos. O espectador consegue comprar as atitudes do antagonista, que são palpáveis e que vão na contramão daquela máxima do vilão querendo conquistar o mundo. Aqui, o seu objetivo é mais direcionado, que é ajudar a sua família financeiramente, nada de megalomaníaco, tal como é o filme num todo.

A trama, como era de se esperar, é a jornada do jovem Peter ao tentar se provar suficiente como um verdadeiro herói à altura do Homem de Ferro/Tony Stark (Robert Downey Jr.). E a relação entre os dois é bem aproveitada, tendo o Stark como uma figura paterna para Peter, dando-lhe lições sobre o heroísmo e afins, mesmo que em alguns momentos soem extremamente forçados, com frases em off do próprio Stark relembrando o Peter de suas responsabilidades. Embora o Homem de Ferro não apareça tanto no filme, a sua figura está sempre presente de alguma forma, seja através das atitudes de Peter ou através da presença de Happy Hogan (Jon Favreau), que faz a ponte entre Parker e Stark.

Como dito anteriormente, o arco do protagonista é bem previsível, já sabemos os pontos de virada mesmo antes deles acontecerem, o que não empolga muito, deixando o caminho do personagem marcado de clichês, como se fosse um filme de origem, mas concebido de outros moldes. Se, por um lado o arco do protagonista não surpreende, o arco do antagonista só cresce, principalmente no final doo segundo ato, onde o filme leva a trama para dentro de seu âmbito familiar, mostrando um outro lado de um personagem que poderia ser unilateral, mas que é bem explorado. Por falar nisso, Keaton tem a segurança que seu personagem precisa, embora existam poucos momentos para o ator encarnar uma aspecto mais dramático. Mesmo assim ele convence como vilão e isso é crucial para o filme funcionar bem.

Há uma cena em específico onde, após a trama nos aproximar do vilão de uma forma surpreendente, vemos um confronto entre o Aranha e o Abutre de uma forma totalmente original, bem mais palpável. Nessa cena, os planos se fecham, colaborando com o clima de tensão que existe. É uma cena importante para os dois personagens, que possuem pontos de virada a partir desse momento, dando um ar de renovação para o já citado arco clichê do protagonista. É uma cena crucial e que funciona muito bem, seja pela cinematografia, seja pela trilha, ou seja pela montagem que sustenta a tensão, com certeza é o ponto alto do filme.

O filme em seu terceiro ato ganha mais força, é inserido um tom mais denso na trama, o confronto final ganha um aspecto moral maior, o que dramaticamente falando dá mais sentido às ações de seus personagens. Mas é uma pena que essa carga dramática quase se perca em meio a confusão nas cenas de batalha, que é montada de uma forma confusa e que deixa o espectador perdido meio a ação. Os cortes rápidos não deixam o espectador entender a geografia da cena, deixando o ápice do filme desinteressante.

Mas, no fim, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” é um filme honesto com sua proposta e que funciona muito bem por se propor a ser menor em uma escala de eventos, se preocupando com a profundidade de seus personagens e entregando em seu resultado final um filme de origem bem diferente do que costumamos ver. Aqui, o arco do herói não é descobrir sobre seus poderes, mas sim o que fazer com eles e como os usar de forma responsável.

Título Original: Spider-Man: Homecoming
Direção
: Jon Watts
Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Jacob Batalon, Laura Harrier, Tony Revolori, Chris Evans e Zendaya
País: E.U.A.
Ano: 2017
Duração: 133 minutos
Estreia: 6/7/2017
Distribuidora: Sony

Avaliação
  • 7.5/10
    Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017), de Jon Watts - 7.5/10
7.5/10

Resumo

“Homem-Aranha: De Volta ao Lar” é um filme honesto com sua proposta e que funciona muito bem por se propor a ser menor em uma escala de eventos, se preocupando com a profundidade de seus personagens, aqui, o arco do herói não é descobrir sobre seus poderes, mas sim o que fazer com eles e como os usar de forma responsável.