Estamos inaugurando mais uma coluna Spiral, que se chama “Pontos Turísticos“, onde daremos indicaremos filmes de consagrados diretores que possuem uma vasta filmografia.

Para começar selecionei 15 filmes que não só considero os mais importante da filmografia de Woody Allen, mas que também representam as diversas fases do diretor. Atualmente Allen possui 53 produções como diretor, dentre curtas, longas, filmes televisivos, segmentos dentro de antologias e inclusive uma série pra televisão com seis episódios. Uma longa carreira para um cinéfilo curioso que ainda não sabe por onde começar.

Abaixo separei os filmes e fiz rápidos comentários sobre eles, então se você quer começar a se aventurar na filmografia de Woody Allen esse é um bom guia. Boa aventura!

O Dorminhoco (1973)

Sinopse: Um clarinetista (Woody Allen) que foi congelado em 1973 é trazido de volta 200 anos depois por um grupo contrário ao poder vigente, que tenta derrubar o governo opressor. No entanto, ele quer conhecer este novo mundo mas as inúmeras modificações ocorridas nestes dois séculos o coloca em diversas confusões.

Pode-se dizer que “O Dorminhoco” (1973) é o filme que melhor define a primeira fase da carreira cinematográfica de Woody Allen como diretor. Seus filmes que até então eram marcados pelo humor pastelão, aqui a obra ganha outros elementos e Allen flerta com outras vertentes do cinema, como a ficção científica B. A influência de Chaplin, Keaton e Bob Hope fica mais evidenciado nesse filme, Allen mostra mais uma vez que possui um ótimo timing cômico e também que amadureceu em relação aos seus trabalhos anteriores, onde a piada servia para sustentar o filme, coisa que em “O Dorminhoco” é ao contrário, ou seja, o filme sustenta as piadas, criando assim uma narrativa mais fluída.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

Sinopse: Alvy Singer (Woody Allen), um humorista judeu e divorciado que faz análise há quinze anos, acaba se apaixonando por Annie Hall (Diane Keaton), uma cantora em início de carreira com uma cabeça um pouco complicada. Em um curto espaço de tempo eles estão morando juntos, mas depois de um certo período crises conjugais começam a se fazer sentir entre os dois.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977) é a obra o mais celebrada da carreira de Woody Allen, pois foi o filme que lhe consagrou perante o público e crítica e que também lhe rendeu o Oscar de Melhor Diretor e Melhor Roteiro em 1978, além do Oscar de Melhor Filme.

Nesse filme, Allen achou o tempo perfeito de seu humor, se em filmes anteriores da sua carreira o humor funcionava por possuir um ar pastelão e repleto de fisicalidade, em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” as piadas estavam concentradas nos diálogos afiados e em algumas situações peculiares. Vemos aqui também um grande avanço da narrativa em seus filmes, Allen entende como funcionam as formas convencionais de se contar histórias através do cinema e subverte pontos interessantes, como a frequente quebra da quarta parede.

Esse filme foi um ponto de virada na carreira de Woody Allen, que trouxe elementos que se tornariam lugares comuns em sua filmografia, como os conflitos de um relacionamento a dois e as inquietações intelectuais e sociais de um protagonista de fato neurótico.

Interiores (1978)

Sinopse: A aparente rotina de tranqüilidade de uma família burguesa de Manhattan é abalada quando o pai decide abandonar a casa para viver com outra mulher.

Após a consagração em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa“, Woody Allen deu ao público uma obra totalmente fora da curva de sua filmografia até então, um drama frio repleto de conflitos familiares e muito palpável. Muito se fala da paixão de Allen pela obra do cineasta sueco Ingmar Bergman, o mesmo já cansou de dizer isso, e aqui nós vemos um pouco dessa influência sendo reverberada na construção de seus personagens, fato que seria explorado novamente em “Setembro” (1987) e “A Outra” (1988).

Interiores” só foi uma das obras onde o cineasta se desafiou na tentativa de dar outras características para a sua obra, coisa que nem sempre funcionou tão bem, como em “Memórias” (1980) por exemplo, mas que mesmo assim possuem seu valor artístico. “Interiores” não é só uma obra que nos apresenta uma outra faceta de Allen, como também é um filme consistente e repleto de carga emocional.

Manhattan (1979)

Sinopse: Um escritor de meia-idade divorciado (Woody Allen) se sente em uma situação constrangedora quando sua ex-mulher decide morar com a companheira e publicar um livro, no qual revela assuntos muito particulares do relacionamento deles. Neste período ele está apaixonado por uma jovem de 17 anos (Mariel Hemingway), que corresponde a este amor. No entanto, ele sente-se atraído por uma pessoa mais madura, a amante do seu melhor amigo, que é casado.

Manhattan” possui fortes elementos de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” no quesito de relação de personagens, mas o humor ácido dá espaço aqui para um humor mais melancólico, que se reflete na bela fotografia em preto e branco de Gordon Willis.

Além da nova abordagem com os conflitos de seus personagens, Allen faz uma carta de amor à cidade de Nova Iorque, que chega a ser um personagem forte no filme. A relação de Woody Allen com a cidade de Nova Iorque se mostraram fortes ao longo de sua carreira, mas nunca tão apaixonante como em “Manhattan“.

Zelig (1983)

Sinopse: Um pseudo-documentário sobre a vida de Leonard Zelig (Woody Allen), o homem-camaleão, que tinha o dom de modificar a aparência para agradar as outras pessoas.

Em “Zelig“, Woody Allen se envereda por novos caminhos, nesse filme feito num formato de documentário acompanhamos a figura misteriosa de Zelig, que se transforma fisicamente dependendo do local em que se encontra. Tal premissa poderia servir para mais uma comédia pastelona que remetesse ao início da carreira de Allen, mas a escolha narrativa usada traz um outro discurso para a obra.

A ideia de se apropriar do estilo de documentário para contar a história de um personagem tão peculiar acaba servindo como uma sátira aos grandes períodos históricos do século XX. O humor do filme vai além das simples situações estranhas que o protagonista acaba caindo, o filme faz um registro ácido da humanidade, usando o falso documentário para reforçar o discurso, que é contundente e também engraçado.

A Rosa Púrpura do Cairo (1985)

Sinopse: Em área pobre de Nova Jersey, durante a Depressão, uma garçonete (Mia Farrow) que sustenta o marido bêbado e desempregado, que só sabe ser violento e grosseiro, foge da sua triste realidade assistindo filmes. Mas ao ver pela quinta vez “A Rosa Púrpura do Cairo” acontece o impossível! Quando o herói da fita sai da tela para declarar seu amor por ela, isto provoca um tumulto nos outros atores do filme e logo o ator que encarna o herói viaja para lá, tentando contornar a situação. Assim, ela se divide entre o ator e o personagem.

Por mais que Woody Allen tenha brincado com elementos fantásticos em seus outros filmes, como em “Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão” (1982), nenhum um outro filme anterior a “A Rosa Púrpura do Cairo” foi tão mágico na sua proposta, que iria se repetir fortemente em “Meia-Noite em Paris” (2011).

Essa deliciosa comédia romântica fantasiosa possui um charme que vem da magia cinematográfica, nesse filme somos remetidos à fantasia do cinema clássico de Hollywood, o romance que se dá nos parece tão honesto quanto os que existiam nos filmes clássicos das décadas de 1930, 1940 e 1950. Mas sabiamente Woody Allen subverte essa lógica e o filme ganha um gosto bastante agridoce, evidenciando novamente o tom sutil de pessimismo que suas obras possuem.

Hannah e Suas Irmãs (1986)

Sinopse: A amizade e o relacionamento de três irmãs vivendo em Nova Iorque, seus conflitos amorosos e existenciais no meio de um grupo de amigos e parentes não muito homogêneo.

Um filme aos moldes de “Interiores” (1978), com um trio de protagonistas mulheres que possuem uma forte relação, mas ao contrário do filme de 1978, “Hannah e Suas Irmãs” é muito menos sombrio e mais muito mais cativante.

Mas mesmo apresentando um filme menos denso, todas as questões existenciais fortemente presente na obra de Allen estão presentes. A eloquência do típico personagem angustiado dá espaço para questionamentos mais humanos, sem tanta psicanálise e com bastante sentimento. Destaque para participação de Max von Sydow, ator presente nos grandes filmes de Bergman, que Allen usa no elenco para homenagear seu grande ídolo.

A Outra (1988)

Sinopse: Para escrever seu novo livro, uma intelectual de Nova York aluga um apartamento que tem como vizinho um consultório de psicanálise. Através do seu apartamento é possível ouvir as confissões dos pacientes, em especial de uma paciente grávida, fazendo intensificar nela uma crise existencial adormecida.

Mais um filme de Woody Allen na sua fase bergmaniana, essa é uma das obras mais minimalistas do diretor, os conflitos vão surgindo aos poucos e com eles os personagens vão ganhando profundidade e seus anseios vão sendo transpassados para a tela.

A Outra” é um filme extramente denso, mesmo se comparado aos outros dessa mesma fase de Allen. Talvez por conta disso seja uma obra praticamente esquecida em sua extensa filmografia, mas com certeza é um ótimo filme, mostrando um cineasta maduro, que possui o total domínio da narrativa. É um belo exercício de personagem, com dramas palpáveis e também reflexivos.

Crimes e Pecados (1989)

Sinopse: O diretor Woody Allen trata duas histórias de adultério em um mesmo filme. Um médico de Nova York (Martin Landau) tenta encobrir de sua esposa sua vida de traições desesperadamente. Um documentarista (o próprio Woody Allen) luta contra a tentação enquanto está produzindo seu novo filme.

Ao meu ver “Crimes e Pecados” é o filme mais maduro de Woody Allen, existe um domínio de narrativa muito forte e o roteiro possui muitos méritos, como por exemplo conseguir canalizar todas as questões que o filme levanta em momentos pontuais e chave.

Como acompanhamos duas histórias paralelas e aparentemente sem ligação alguma, nem ao mesmo temática, o filme poderia ficar sem ritmo, mas as duas histórias são muito bem amarradas e ao se encontrarem no final do filme levantam questionamentos fortes sobre moral. É arrebatador!

O humor ácido típico de Allen também está aqui, mas um pouco mais dosado, talvez a cena mais irônica que o filme possui seja a final, que além de irônica é tão reflexiva que chega a encher os olhos.

Maridos e Esposas (1992)

Sinopse: O casal Gaby Roth (Woody Allen) e Judy Roth (Mia Farrow) recebem chocados a notícia de que Jack (Sydney Pollack) e Sally (Judy Davis), um casal muito amigo deles, está se separando, muito provavelmente pelo fato de Gabe e Judy também estarem se distanciando e agora tomarem consciência disto. Assim, enquanto Jack e Sally tentam conhecer novas pessoas, o casamento de Gabe e Judy se mostra desgastado e eles começam a se sentir atraídos por outras pessoas.

Maridos e Esposas” é com certeza o filme mais intimista de Woody Allen e, talvez, o último drama bergmaniano do diretor. O filme inteiro possui um aspecto sufocante, os diálogos são certeiros e disparam a todo momento as angústias de seus personagens.

É o menor filme do diretor (em nível de produção) dos anos 1990, mas ao meu ver é o melhor dessa década, não por demérito das obras de período, mas pelo texto impecável que essa obra possui, que é bastante cerebral, mas nunca enfadonho.

Desconstruindo Harry (1997)

Sinopse: Harry Block (Woody Allen) é um escritor que usa suas experiências amorosas como inspiração para livros e contos, o que não agrada nem um pouco as pessoas ligadas a ele. Convidado para uma homenagem que será feita pela faculdade de onde foi expulso quando jovem, ele se vê sem companhia. Após acompanhar um amigo, Richard (Bob Balaban), em um exame médico, ele aceita viajar com ele como retribuição. Harry convida ainda Cookie (Hazelle Goodman), uma prostituta negra com quem teve um programa na noite anterior da viagem. Prestes a partir, Harry tem a ideia de sequestrar seu filho para que ele possa ver o pai sendo homenageado, mesmo com a mãe dele, Joan (Kirstie Alley), tendo proibido sua viagem.

Outra comédia inventiva do diretor, que vinha de filmes menos inspirados. Woody Allen mais uma vez nos mostra um roteiro brilhante, com situações complexas e divertidas ao mesmo tempo, aqui sua sutileza é deixada de lado e o humor ácido, rápido e inteligente característico de sua obra volta com força.

Pode-se dizer que “Desconstruindo Harry” é uma releitura totalmente cômica do clássico “Morangos Silvestres” (1957), de Ingmar Bergman.

Ponto Final: Match Point (2005)

Sinopse: Chris Wilton (Jonathan Rhys-Meyers) é um jogador de tênis profissional que, cansado da rotina de viagens, decide abandonar o circuito e se dedicar a dar aulas do esporte em um clube de elite. É lá que conhece Tom Hewett (Matthew Goode), filho de família rica que logo se torna seu amigo devido a alguns interesses em comum. Convidado para ir à ópera, Chris lá conhece Chloe (Emily Mortimer), irmã de Tom. Logo os dois iniciam um relacionamento, para a alegria dos pais dela. Só que Chris fica abalado quando conhece Nola Rice (Scarlett Johansson), a bela namorada de Tom que não é bem aceita pela mãe dele.

Ponto Final: Match Point” foi o filme que trouxe de volta o prestígio de Woody Allen perante a crítica, embora tal fator não seja relevante nas últimas décadas em sua carreira. Mas o fato é que esse filme trouxe um respiro na filmografia do diretor, que acabava se repetindo tantas vezes, seja em temas ou mesmo em arquétipos de personagens.

A trama é muito bem desenvolvida, repleta de reviravoltas e com um forte senso de suspense que não deixa o ritmo da obra cair. Temas como relações amorosas voltam a surgir, mas a diferença nesse filme é que tais temas estão em uma nova roupagem.

Vicky Cristina Barcelona (2008)

Sinopse: Duas jovens americanas – a conservadora Vicky (Rebecca Hall) e a aventureira Cristina (Scarlett Johansson) – viajam para Barcelona a fim de passar as férias de verão e acabam se envolvendo em confusões amorosas com um artista extravagante e sua insana ex-esposa.

Vicky Cristina Barcelona” foi um enorme sucesso de público e iniciou uma nova fase na filmografia do diretor, que é conhecida como fase européia, embora seja o quarto filme do diretor rodado na Europa. Mas nesse caso, a cidade ganha papel fundamental na história, se antes tínhamos Nova Iorque como um personagem em seus filmes, tal fator se repete nessa obra e em outras posteriores.

Os protagonistas do filme são cativantes, muito salientados pela sua belíssima locação. Temos aqui mais um filme com uma nova roupagem para os dramas amorosos de Woody Allen, dessa vez com todo o romantismo e encantamento de Barcelona.

Meia-Noite em Paris (2011)

Sinopse: Gil (Owen Wilson) sempre idolatrou os grandes escritores americanos e quis ser como eles. A vida lhe levou a trabalhar como roteirista em Hollywood, o que por um lado fez com que fosse muito bem remunerado, por outro lhe rendeu uma boa dose de frustração. Agora ele está prestes a ir para Paris ao lado de sua noiva, Inez (Rachel McAdams), e dos pais dela, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy). John irá à cidade para fechar um grande negócio e não se preocupa nem um pouco em esconder sua desaprovação pelo futuro genro. Estar em Paris faz com que Gil volte a se questionar sobre os rumos de sua vida, desencadeando o velho sonho de se tornar um escritor reconhecido.

Outro grande sucesso de público recente de Woody Allen, “Meia-Noite em Paris” é lindamente mágico e fabulesco. Fica evidente aqui o amor de Allen à Paris, o filme é belamente fotografado, trazendo o que há de mais mágico nas locações e se apropriando muito bem da magia da cidade.

As situações fantásticas que acontecem no filme não possuem um motivo aparente e isso o torna ainda mais encantador. É um dos melhores trabalhos do diretor nos últimos tempos, não temos aqui o que estamos habituados a sempre ver em seus filmes, além de outros temas, o filme possui uma leveza encantadora.

Blue Jasmine (2013)

Sinopse: Jasmine (Cate Blanchett) vive na alta sociedade em Nova York. Sua vida muda completamente quando ela separa-se do marido e perde todo seu dinheiro. Com isto ela é obrigada a ir morar com sua modesta irmã em São Francisco. Agora, distante de seu luxuoso universo, Jasmine precisará reorganizar toda sua vida.

Último grande filme de Woody Allen, focado nos dramas de só um personagem e como esse personagem se relaciona com os outros à sua volta. “Blue Jasmine” rendeu a Cate Blanchett o Oscar de Melhor Atriz em 2014 e também ótimas críticas.

Não quero atingir a imortalidade com meu trabalho, mas sim não morrendo.

E aí? Pronto pra se aventurar?

E se você já conhece a obra de Woody Allen comente abaixo qual seriam seus pontos turísticos do diretor, concorda com a minha lista ou acredita que faltou algo? Fique à vontade para expor quais são as obras que você considera mais importantes dentro da filmografia de Woody Allen.

Até a próxima!