Cinebiografias são bastante comuns na indústria cinematográfica, a fórmula é perfeita para vender bem, ainda mais quando se retrata a vida de alguma figura emblemática, mas, embora o personagem aqui retratado não seja nenhum grande ícone popular, a sua trajetória é perfeita para um filme biográfico. Entre altos e baixos, a vida do boxeador Chuck Wepner foi marcada pela quantidade de porradas que ele conseguia aguentar, dentro e fora do ringue, o que gera uma história minimamente curiosa, que se completa quando a sua figura é mais lembrada por ter sido a que inspirou a trama de “Rocky – Um Lutador” (1976), filme dirigido por John G. Avildsen e protagonizado e escrito por Sylvester Stallone.

Como dito anteriormente, “Punhos de Sangue” (2016), filme dirigido por Philippe Falardeau, retrata a vida do vendedor de bebidas Chuck Wepner (Liev Shreiber), que posteriormente se tornou um lutador de boxe reconhecido em todo os E.U.A. por ter a oportunidade de enfrentar o consagrado lutador Muhammad Ali (Pooch Hall), numa luta valendo o cinturão da categoria.

Como o filme é ambientado na década de 1970, a projeção se inicia com imagens de arquivo daquele período para fazer com que o espectador se transporte para aquela década, tais imagens de arquivo se fazem presente em todo o filme, pois ao longo da narrativa, são inseridas imagens que reforçam sempre o período em que a obra é retratada, o que nem sempre funciona. Mas, se aparentemente, o filme se faz valer por essas imagens de arquivo para compor a sua ambientação, a verdade é que toda a cinematografia de “Punhos de Sangue” é bastante funcional, conseguindo alcançar sua proposta através dos figurinos, da trilha sonora e, mais fortemente, em sua fotografia.

A fotografia do filme possui uma paleta de cores bastante amarelada que, além de nos transportar para a década de 1970, nos remete aos filmes B daquela época, aliás, toda a narrativa nos remete aos filmes B da década de 1970, seja através dos planos escolhidos, que em certos momentos abusam de planos detalhes nos corpos de mulheres, ou seja pela trilha sonora escolhida, que funciona muito bem com o dinamismo dos dois primeiros atos. Os planos conjunto dão bastante valor ao cenário, que é muito bem reconstituído, e a câmera na mão traz mais fluidez às cenas, principalmente nos momentos de luta, que possuem uma montagem bastante dinâmica.

Além dos artifícios já mencionados, o filme também conta com uma narração em off do próprio protagonista, que narra a sua própria história de uma maneira irreverente, tal como a personalidade do personagem. A narração em off, além de dar ritmo ao filme, também é um outro elemento que mesclado aos já citados, referenciam aos filmes B americanos dos anos 1970.

Diferentemente do que se possa esperar de “Punhos de Sangue“, quando o comparamos a filmes que contam a história de um lutador de boxe, é que a luta não é o clímax do filme, o protagonista não se prepara o filme todo para o esperado embate e, mesmo o filme possuindo essa luta, nada é tratado como épico e a luta também não serve como ponto final da trajetória, mas sim o ponto de virada na vida do personagem. A preparação para a luta entre Chuck e Muhammad Ali, que ocorre no primeiro ato, é construída de forma bastante divertida, mostrando os bastidores, como coletivas de imprensa e entrevistas em programas de auditório. Ver toda a ascensão do nome de Chuck na mídia é deveras recompensador, pois no início o personagem aparenta ser alguém amável, preocupado com sua família.

Mas, como dito, a esperada luta serve como um ponto de virada na vida de Chuck e o processo de fama em que ele acaba se inserindo é destrutivo. O seu distanciamento de sua esposa e consequentemente de sua família se dá de forma gradativa, mas de uma forma bastante irreversível. E a partir do segundo ato o que vemos é a tentativa de Chuck de se manter no estrelato, com uma vida repleta de festas, drogas e mulheres. A tentativa de reaproximação com sua família nunca se dá de forma espontânea, mas os conflitos se intensificam, deixando a figura de Chuck um tanto quanto detestável, o que é contraposto ao seu jeito irreverente, debochado e malandro.

A atuação de Liev Shreiber é ótima, ele consegue compor um personagem cativante e ao mesmo tempo desprezível. Os deslumbres que o ator dá ao personagem são bastante eficientes, seja em seus momentos de glória ou seja em seus momentos de derrota, que se demonstram cada vez mais frequentes em sua vida. O elenco coadjuvante também está muito bem, principalmente a atriz Elisabeth Moss, que interpreta a personagem Phyliss, ex-esposa de Chuck, que se mostra como uma mulher forte e que não aceita mais conviver com os abusos de seu parceiro. Naomi Watts também está muito bem no papel de Linda, que surge como uma mulher enigmática e com uma personalidade bem forte. Vale destacar também a atuação de Morgan Spector como Stallone, que, embora não tenha grande expressão, está muito bem caracterizado como o famoso ator e que consegue tirar boas gargalhadas do público quando está em cena, muitas dessas cenas são bastante inusitadas.

Embora o filme possua uma carga dramática evidentemente forte, ela nunca é carregada, o filme possui o mesmo tom do início ao fim, não apelando para o dramalhão, mesmo quando o filme dá margem para isso. Mas, se ele possui uma unidade no seu tom, a narrativa em certos momentos é claramente atrapalhada por conta da montagem, primeiramente na passagem de tempo que é bastante confusa e o mais grave, que são as imagens de arquivo que entram e saem de cena sem mais nem menos, o que deixa gritante o contraste visual entre as cenas que são alternadas entre imagens propriamente gravadas para o filme e imagens de arquivo. Há uma tentativa de manter a unidade visual nesses momentos através do filtro, o que não resolve o problema, ao contrário, só o agrava. Como dito no início, o filme é muito bem ambientado, o que torna essas imagens de arquivo totalmente desnecessárias para compor a ambientação.

O filme em seu ato final perde um pouco o ritmo, as situações de fracasso começam a se tornar repetitivas e o seu tom dramático ganha mais espaço, o que coloca em cheque a posição de Chuck em relação às pessoas que o cercam, criando situações mais carregadas emocionalmente, o que ora funciona, ora não, devido ao exagero. Mas, mesmo assim, ao olhar em retrospecto, conseguimos ver claramente a trajetória do protagonista e a transformação de seu caráter, deixando o arco do personagem bastante interessante de se acompanhar.

Punhos de Sangue” é um bom filme, que subverte a narrativa da maioria dos filmes de boxeadores, não se concentrando na grande luta que se passa dentro do ringue, mas sim nas suas consequências e as lutas advindas dela, que são dão fora do ringue, na vida privada do protagonista. Não é por acaso que o apelido de Chuck seja ‘the bleeder’, que surgiu pelo fato dele conseguir apanhar muito e se manter ainda de pé nas luta de boxe, mas além disso, esse apelido também faz referência ao que Chuck passou em sua vida pessoal, sendo rejeitado várias vezes no showbiz e sempre ficando a um passo do real estrelato. Mas o filme não o trata com romantismo e entende que na maioria das vezes que ele apanhou da vida, foi unicamente por consequência de seus atos.

Título Original: The Bleeder
Direção
: Philippe Falardeau
Roteiro: Jeff Feuerzeig & Jerry Stahl e Michael Cristofer & Liev Schreiber
Elenco: Liev Schreiber, Elisabeth Moss, Ron Perlman, Naomi Watts
País: E.U.A.
Ano: 2016
Duração: 120 minutos
Estreia: 25/5/2017
Distribuidora: California Filmes

Avaliação
  • 6.5/10
    Punhos de Sangue (2016), de Philippe Falardeau - 6.5/10
6.5/10

Resumo

“Punhos de Sangue” retrata a vida do vendedor de bebidas Chuck Wepner (Liev Shreiber), que posteriormente se tornou um lutador de boxe reconhecido em todo os E.U.A. por ter a oportunidade de enfrentar o consagrado lutador Muhammad Ali (Pooch Hall), numa luta valendo o cinturão da categoria. Mas de forma alguma o filme trata a luta como o artifício de redenção do personagem, mas sim como um ponto de virada em sua vida, que começa a se desmantelar a medida em que Chuck tenta se manter no estrelato.