Com mais de 50 anos de carreira, Woody Allen é um cineasta que estabeleceu as suas marcas temáticas ao longo dos mais de 50 filmes escritos e dirigidos por ele. Por mais que, em alguns momentos, suas obras possam parecer repetitivas, Allen sempre busca algo novo a cada filme, principalmente no quesito de estrutura narrativa. E, o que podemos ressaltar de seu novo longa, “Roda Gigante” (Wonder Wheel, 2017), é que há um certo frescor estrutural que, acompanhado da cinematografia e da atuação da protagonista, traz ao filme um certo destaque em relação aos seus últimos trabalhos.

Em “Roda Gigante”, acompanhamos um período da vida de Ginny (Kate Winslet), que, em meio a uma rotina cruel e desesperançosa, encontra um novo significado para a sua vida através de uma relação fora de seu casamento. Mas, o que por um momento era o caminho da felicidade, acaba-se por tornar-se espinhoso, pois a relação com as pessoas que a cercam está a cada dia pior e o seu amor extraconjugal parece não ter tanta força como se imaginava.

Podemos observar em “Roda Gigante” os vários traços autorais de Allen e os seus temas recorrentes, como traições, relações amorosas desastrosas e personagens desequilibrados. Mas, tal como mencionado anteriormente, o que destaca este filme dos mais recentes trabalhos do cineasta é a sua forma, que encontra uma maneira mais elaborada de contar uma história já conhecida.

Assim como é de costume nos filmes de Allen, o texto possui bastante força e, neste caso, possui também um valor simbólico que é totalmente alinhado a sua narrativa. Logo de início somos apresentados ao narrador do filme, o personagem Mickey (Justin Timberlake), que é um salva-vidas na bela praia de Coney Island. Ele, um amante do teatro, leva consigo elementos da tragédia grega para contar a história do filme, que curiosamente não é sobre ele, embora ele participe da trama efetivamente ao desenrolar da trama.

A estrutura funcional do filme se deve também ao carisma que Mickey emprega ao narrar a história, que em vários momentos se demonstra fatalista em relação a protagonista, que por sinal é contraposta a uma realidade mais cruel do que as palavras poderiam expressar. E isso nos leva ao choque, proposital, da cinematografia otimista e os dramas bastante carregados vividos pela protagonista.

É inegável o poder do design de produção do filme e, sabendo da imersão que o universo criado traria ao espectador, Allen usa de muitos planos gerais para nos mostrar cada detalhe da praia quente e cheia de vida. Os planos abertos utilizados nos jogam completamente dentro de Coney Island da década de 1950. E a fotografia de Vittorio Storaro, sempre com cores quentes, e os figurinos muito bem trabalhados, dão todo o aspecto palpável do lugar, tornando-o praticamente mágico.

A magia da cinematografia também fica muito evidente quando somos levados ao parque de diversões, onde Humpty (Jim Belushi) trabalha e mora com Ginny, sua esposa. Mas, toda essa ambientação mágica que nos é apresentada ao início de filme é quebrada quando Carolina (Juno Temple) encontra Humpty, seu pai, com quem não falava há anos. Neste momento, se inicia uma ruptura do visual encantador, dando espaço, cada vez mais, aos dramas familiares, que vão tomando conta da narrativa. Deixando o filme com um visual acolhedor, mas com um texto dramático, o que dá a obra um tom bastante peculiar.

Inclusive, a própria roda gigante que dá título ao filme, serve como um símbolo narrativo e visual. A ideia de dar voltas e sempre acabar no mesmo lugar se aplica as trajetórias dos personagens, que tragicamente mostram-se cíclicas. Quanto a sua força visual simbólica, Allen usa de um artifício que, não surge somente com um capricho meramente estilístico, mas que também serve para dar camadas aos sentimentos dos personagens, pois, como os personagens principais moram no parque de diversões, as luzes da roda gigante acabam refletindo no interior da casa, e as mudanças de cores dessas luzes conversam diretamente com as sensações desses personagens. É um artifício interessante, mesmo soando óbvio em alguns momentos. Mas a direção de Allen é segura o suficiente para saber usá-lo nos momentos de virada da trama, não cansando o espectador e nem fazendo com que a proposta perca a força.

Claro que, quem está habituado com as obras de Woody Allen consegue prever a maioria das viradas da trama, pois argumento do filme é uma variação de tantos outros presentes na filmografia do cineasta. E, além disso, a trama também se mostra previsível em vários momentos, ademais quando nos baseamos na simbologia da roda gigante.

Mas, mesmo com um argumento não tão original, o texto ainda é muito bom, ainda mais nas mãos de uma Kate Winslet inspirada, que chama o filme para si e nos entrega uma forte atuação. O desempenho de Winslet traz camadas para a personagem, que se mostra ao mesmo tempo como uma mulher um pouco amarga, por conta de escolhas na vida, e também sonhadora, que ainda almeja sonhos que sonhara em sua juventude. Se há algo que se destaque ainda mais da cinematografia do filme, com certeza é a atuação de Winslet.

Roda Gigante” não é um grande filme, mas ainda sim é um bom trabalho de Woody Allen e que merece destaque em sua filmografia recente. O argumento soa um tanto quanto requentado, mas a bela cinematografia, a interessante estrutura narrativa e a ótima atuação de Kate Winslet dão o frescor necessário à obra, algo que não víamos desde “Blue Jasmine” (2013).

Título Original: Wonder Wheel
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple, Tony Sirico, Debi Mazar, Geneva Carr, Max Casella, Steve Schirripa
Fotografia: Vittorio Storaro
Produção: Edward Walson
País: Estados Unidos da América
Ano: 2017
Duração: 101 minutos
Estreia: 28/12/2017
Distribuição no Brasil: Imagem Filmes

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima

Avaliação
  • 7/10
    Roda Gigante (2017), de Woody Allen - 7/10
7/10

Resumo

“Roda Gigante” não é um grande filme, mas ainda sim é um bom trabalho de Woody Allen e que merece destaque em sua filmografia recente. O argumento soa um tanto quanto requentado, mas a bela cinematografia, a interessante estrutura narrativa e a ótima atuação de Kate Winslet dão o frescor necessário à obra.