“No filme do Steven Spielberg, “E.T. – O Extraterrestre”, por que o extraterrestre é marrom? Por nenhuma razão.
Em “Love Story”, por que os protagonistas apaixonam-se loucamente? Por nenhuma razão.
No filme de Oliver Stone, “JFK”, por que o Presidente é assassinado subitamente por um desconhecido? Por nenhuma razão.
No fantástico “O Massacre da Serra Elétrica”, de Tobe Hooper, por que nunca vemos os personagens irem ao banheiro, para lavar as suas mãos, como as pessoas fazem na vida real? Por nenhuma razão.
Pior, em “O Pianista”, de Polanski, como é que o tipo tem de se esconder e viver como um vagabundo, quando toca piano maravilhosamente? Mais uma vez a resposta é por nenhuma razão.
Podia enumerar vários exemplos horas a fio. A lista não tem fim. Vocês provavelmente nunca tinham pensado nisso, mas todos os excelentes filmes, sem exceção, contém um importante elemento de “nenhuma razão”. E sabem porquê? Porque a própria vida está inundada de “nenhuma razão”.
Por que não podemos ver o ar ao nosso redor? Por nenhuma razão.
Por que estamos sempre a pensar? Por nenhuma razão.
Por que algumas pessoas adoram salsichas e outras detestam-nas?

Por nenhuma razão.”

(Monólogo inicial do filme “Rubber – O Pneu Assassino” (2010) de Quantim Dupieux)

rubber_ver2Esse monólogo serve para fazer uma ambientação geral do filme e do próprio cinema, que é discutido em “Rubber“.

Sinopse: Em algum lugar do deserto californiano, um pneu telepático acorda subitamente para uma missão demoníaca, isto é, assassinar todos os seres que vir pela frente. Os habitantes da região assistem incrédulos aos crimes cometidos por esta espécie de serial killer das rodovias, que sente-se misteriosamente atraído por uma bela jovem. Em paralelo, uma investigação é lançada.

Não há razão! Assim pode parecer definir o filme de Quentin Dupieux, “Rubber” é um filme metalinguístico que pode causar estranheza pela sua proposta, mas se você comprar essa tal proposta, irá se deliciar com um filme que trata de cinema numa forma ampla.

Antes de se iniciar o tal enredo do pneu assassino, somos apresentados a um policial que faz um monólogo sobre a razão nos filmes e na vida, logo em seguida somos apresentados a um grupo de pessoas, que posteriormente descobriremos que são os espectadores desse suposto filme sobre o pneu assassino e uma outra pessoa que aparentemente está lá fazer um intermédio entre o filme e os espectadores. Somos surpreendidos estranhamente com a forma que o filme é ‘exibido’, ao vivo e um pouco distante das pessoas, que assistem tudo de binóculos. Primeiramente achamos que é algo para soar somente surreal, com as pessoas assistindo a esse filme que não está sendo projetado, mas ao decorrer do longa percebemos que esse formato metalinguístico contribui e muito para a eficácia do filme.

Logo depois dessa ‘preparação‘ que é feita para os espectadores (e por que não para nós mesmos), começa a história do pneu assassino. Em enquadramentos muito bem colocados, vemos os primeiros ‘passos’ do pneu pelo deserto do Texas, nós o acompanhamos por uns minutos até descobrir que ele possui um poder de explodir as coisas, isso mesmo, um pneu assassino que tem um poder mental que faz as coisas se explodirem. Não há razão.

A direção nesses primeiros minutos do ‘nascimento’ do pneu é primorosa, o acompanhamos de uma forma tão singular que quase sentimos que podemos tocá-lo. As suas descobertas pelo deserto são muito bem trabalhadas, nos passando a impressão que estamos descobrindo o mundo, assim como o pneu.

Quando o pneu chega em um hotel na beira de estrada e começam os assassinatos o filme ganha um aspecto mais divertido. Com todas as explosões de cabeças pelo pneu (que nos remetem ao  filme Scanners (1981) do Cronenberg), o filme ganha um toque violento, mas sutil, apesar das cabeças sendo explodidas maravilhosamente.

O enredo iria caminhando para o mais do mesmo se não fosse o trabalho de metalinguagem que Dupieux faz, quando nos mostra os espectadores entediados com o enredo e até mesmo empolgados com cenas de nudez. Todo esse ambiente foi o que mais me agradou no filme, me veio à cabeça uma crítica forte ao mecanismo de produção e exibição de grandes filmes Hollywoodianos.

Pegamos três personagens distintos, o policial que abre o filme com o monólogo sobre a razão do cinema e que também é um dos personagens no filme do pneu assassino, o seu subordinado que se encarrega de cuidar do público que vai assistir ao filme, levando os binóculos, que são entregues de qualquer forma como se não fizesse qualquer questão que as pessoas assistissem ao filme que seria ‘exibido‘, e por fim temos os próprios espectadores que procuram uma forma de entretenimento.

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Pensando que a primeira pessoa apresentada simbolize a produtora, explicando para o público que não está afim de pensar e está acostumado a ter tudo mastigado, esse tal personagem sempre quer que o público tenha um consumo rápido, praticamente indigesto e que venham mais e mais espectadores. A segunda pessoa pode ser atribuída ao papel das salas de exibição, que trabalham em conjunto com produtoras e distribuidoras, e que fazem o intermédio entre esses dois blocos. E por fim temos o próprio espectador, que é representados de várias formas, desde os que consomem tal mídia até passarem mal, ou aqueles que estão lá para algo a mais e querem continuar com a experiência cinematográfica. Todo esse universo que se esbarra com a história do pneu assassino vai ganhando cada vez mais força até se misturarem ao término do filme.

Para dar mais ênfase a subjetividade do filme, a cena final é emblemática e pode levar a uma série de desambiguações de interpretações, pois apesar de não fazer sentido ou não houver razão no âmbito geral, o sentido do filme está direcionado, e muito bem direcionado, como se fosse (ou talvez seja) possível ver esse direcionamento ao horizonte em letras garrafais no alto de uma montanha.

Screen Shot

Em época onde temos grandes filmes que só fazer barulho e nada dizem, temos aqui um longa que caminha para um lado oposto e deixa a sua marca. “Rubber” tem todos os elementos para se tornar um filme Cult daqui a uns anos e ser redescoberto como um filme mais amplo do que ele foi enxergado desde o seu lançamento. Assistam de peito aberto e conversem com o filme, garanto que será uma boa e divertida experiência. Lembrem-se ainda que quando algo não fizer sentido, é só lembrar da seguinte frase: “Não há razão“!