Inúmeros documentários musicais acompanharam músicos e bandas para fazer uma panorama do cenário político de determinado período, dentro dessa narrativa temos o excelente “Gimme Shelter” (1970), de Albert Maysles, Charlotte Zwerin e David Maysles, que demonstra de forma orgânica o processo de mudança ideológica e política na juventude da época, e ao mesmo tempo acompanha o grupo Rolling Stones em meio a toda essa efervescência cultural. Cito esse filme, pois “Rude Boy” (1980), filme de Jack Hazan e David Mingay também possui uma proposta similar, mas que, infelizmente, não funciona tão bem quanto sua premissa.

No filme, acompanhamos uma mistura de ficção com documentário, onde o personagem Rude Boy (Ray Gange) é o protagonista. Ele é um rapaz sem perspectivas na vida eque trabalha numa sex shop, mas a vontade da mudança de ares acaba o levando a ser roadie dos The Clash, onde vivencia de perto as inúmeras fases da banda. De pano de fundo temos a Inglaterra da década de 1970, com suas fortes políticas conservadoras, o governo de Margaret Thatcher e o forte embate ideológico da população, que inclui nazis e anti-nazis.

Rude Boy” se inicia contextualizando o cenário político daquele momento, vemos manifestações com pautas racistas sendo contrapostas pelas pautas do partido socialista e, nesse clima polarizado, conhecemos o protagonista do filme e aos poucos vamos acompanhando a sua rotina, que varia entre sair do trabalho da sex shop, ouvir discos, ir à shows e se embriagar.

De início já percebemos a estranheza da montagem em dar uma unidade e um tom às cenas de ficção juntas com as cenas documentais, e a medida que o filme avança esse problema só se agrava. Rude transita pela cidade, conhecemos seus amigos e os seus discursos políticos, ou melhor dizendo, sues discursos despolitizados, repletos de senso comum. Claro que essa é a gênese do personagem, que carrega consigo o reflexo de uma geração, e o que o filme tenta construir são cenas que se contrapõe a visão de mundo do protagonista, evidenciando reais problemas de uma sociedade conservadora e preconceituosa. Mas tal artifício, que em teoria é a grande sacada do filme, acaba se perdendo novamente meio a montagem super confusa, onde personagens e situações são inseridos sem mais nem menos.

O filme caminha entre bons e maus momentos. O que se diz respeito a inserção dos The Clash na trama funciona bastante, assim como em algumas cenas de shows, embora se estenda demasiadamente em certos momentos. A relação de Rude com a banda é confusa, ao mesmo tempo que parece ser próxima também é o mais distante possível, são poucas as cenas onde se tira algum proveito dramático do conflito ideológico entre os personagens, na maioria das vezes a impressão que passa é que o filme basta ser verborrágico, soltando vários pensamentos na tela, mesmo que eles não se sustentem.

A narrativa do filme é bastante lenta, o que vai deixando-o enfadonho. Por mais que os The Clash segurem a trama, o filme vai se tornando aborrecido, não conseguimos enxergar o arco dramático do protagonista, o discurso político que o filme se propõe no início também se perde e as cenas inseridas só parecem se justificar pelas apresentações da banda. O roteiro de Ray Gange e David Mingay é tão problemático que muitas das vezes os personagens precisam de diálogos expositivos para situar o espectador na trama, que nunca parece avançar.

É verdade que a montagem é o grande problema do filme, mas há uma cena em que ela consegue acertar o tom e através da montagem de atração consegue expor problemas sociais de uma forma elegante e certeira. Tal cena acontece enquanto a banda toca a música “White Riot“, que já tinha sido apresentada no filme anteriormente num grande show, e então são intercaladas as cenas da banda tocando a música com as cenas de violência, que primeiramente são praticadas pelos seguranças do show com o público presente e posteriormente da polícia para com os negros da cidade. Há nessa cena um certo tipo de ironia e contestamento, o que da um novo ar para a obra, mas que infelizmente não consegue se repetir novamente em cenas semelhantes, pois esse conceito é inserido de forma tão arbitrária posteriormente que a força política nela contida acaba se perdendo.

Rude Boy” demora muito pra dizer a que veio, o filme possui pequenas pinceladas sobre o que quer abordar ao longo de sua longa projeção, mas nunca se aprofunda nas ideias que lança, o que acaba se tornando um auto boicote temático. No fim, parece claramente que o filme é uma junção de ideias distintas e que não se conversam entre si, uma que inclui cenas documentais dos atos políticos e das declarações de Thatcher, outra que acompanha a banda nos shows e uma terceira que acompanha o protagonista.

Se por um lado o documentário peca em ser um documento histórico detalhado de sua época, é interessante ver registros tão próximos dos The Clash e é somente nisso que o filme consegue agradar, se tornando uma obra destinada somente aos fãs da banda, o que, se fosse o caso, seria mais interessante realizar um registro de um show completo do grupo, sem essas falhas tentativas de criar um filme politizado e um retrato de uma complexa geração.

*Filme assistido durante o In-Edit Brasil 2017 – 9º Festival Internacional do Documentário Musical