Le Sang d'un poèteJean Cocteau com certeza foi um dos nomes mais importantes do movimento surrealista na França na década de 1930, embora seja mais reconhecido pelas suas atuações em outras áreas, como na poesia e no teatro, do que no cinema. Aqui, Cocteau faz um filme que agrada aos fãs do gênero e que promete deixar o espectador tão alucinado quanto o filme “Um Cão Andaluz” (1929) de Luis Buñuel.

Sangue de um Poeta” é o primeiro filme da Trilogia Órfica, composta também por “Orfeu” (1950) e ” Testamento de Orfeu” (1960). A história é narrada em quatro episódios, que são: “Primeiro Episódio: a mão ferida, ou as cicatrizes de um poeta”, “Segundo Episódio: as paredes tem ouvidos?”, “Terceiro Episódio: a guerra da bola de neve” e “Quarto Episódio: a profanação da hóstia”. Como o nome sugere, o filme conta a história de um poeta e a forma como ele interage com o mundo exterior, tudo de forma bastante alegórica. Assim como nos filmes franceses surrealistas daquela época, as imagens são colocados como se tudo parecesse um sonho, que tantas vezes soa como indecifrável.

O filme se inicia com o poeta (Enrique Rivero), que também se envereda por outras artes, a pintar um rosto e a boca que estava em sua pintura acaba parando em sua mão e logo em seguida para um estátua. Nesse momento a estátua ganha vida e encoraja o poeta a se confrontar no espelho e sair da sala através dele, e assim ele atravessa o espelho e chega a um corredor com várias portas, onde ele espreita através de suas fechaduras e vê cenas distintas, desde um mexicano sendo fuzilado até um hermafrodita. As imagens oníricas e muitas vezes pervesas chocam o poeta, que acaba atirando em sua própria cabeça.

Nesses dois primeiros capítulos já vemos o poder de Cocteu em manipular as câmeras para conseguir o efeito visual desejado, é de se ficar embasbacado com o domínio dos cineastas daquela época em usar as trucagens do cinema para contar suas histórias. Era um conjunto que se completava, direção e roteiro trabalhavam juntos para narrar histórias surreais, o cinema se parecia com belas pinturas em movimento.

O que se segue nos dois últimos capítulos são também representações da sensibilidade do poeta. Começamos com várias crianças em um pátio brincando de arremessar bolas de neve, mas o clima de brincadeira muda quando uma criança morre sendo acertada por uma dessas bolas de neve. Logo em seguida nós vemos um casal jogando cartas nesse mesmo pátio, enquanto um público os assiste e os aplaudem como se estivessem em uma espécie de camarote. Enquanto tudo isso acontece a criança morta permanece jogada ao chão nesse mesmo pátio.

Esse capítulo final é o auge do experimento surrealista do filme. Se no segundo capítulo nós tínhamos várias representações sobre o mundo, quando o poeta olhava pelas fechaduras das portas. Aqui a maior representação é a banalidade da classe mais dominante referente a assuntos sociais, como é o caso dessa criança, aparentemente pobre e morta no chão, e enquanto isso, as pessoas vão aplaudindo um simples jogo de cartas. E é nesse momento que um dos jogadores resolve trapacear em uma situação de distração de sua adversária, e pega uma carta que estava no peito do garoto morto, claro que é a carta de copas, que possui um coração como símbolo. Logo em seguida surge o anjo da guarda da criança para o levar, que tem a forma de um rapaz negro e com asas bem singelas. Apesar dessa cena ser forte, ela é contada de uma maneira que o espectador tem que estar muito atento para pegar as suas nuances.

Jean-Cocteau-The-Blood-of-a-Poet-1930

O final do filme nos fala sobre a função do poeta e como ele enxerga o mundo através de sua sensibilidade, como dito anteriormente. Com legendas vindas do cinema silencioso, diálogos certeiros e uma narração que deixa o filme mais aberto para diversas interpretações, frases como “Os espelhos deviam pensar um pouco mais antes de refletirem as imagens” e “Se você não tem um coração gelado, meu querido, você é um homem perdido”, nos colocam em confronto não só com o poeta, mas com nós mesmos.

Assim, Cocteau faz um belíssimo filme, que apesar de ter sido financiado pelo Visconde de Noailles –  que também financiou o filme “A Idade de Ouro” (1930), não chega a ser tão popular quanto os filmes do Buñuel, infelizmente.