Sem dúvida alguma Ousmane Sembène (1923–2007) foi o mais importante cineasta africano. Seus filmes, desde o princípio, possuíam uma forte crítica ao neocolonialismo que Senegal sofreu da França e aos desdobramentos que isso se deu na cultura de Senegal. Seus filmes também surgiram para dar voz ao povo africano no campo do cinema, mas diferentemente de outros filmes africanos realizados anteriormente, como: “Estação Central do Cairo” (1958) – dirigido por Youssef Chahine, “A Prece do Rouxinol” (1959) e “Um Estranho Em Minha Casa” (1961) – ambos dirigidos por Henry Barakat; os filmes de Sembène possuíam uma linguagem própria, que fugia dos melodramas realizados naquele período no Egito. Embora Sembène bebesse na fonte do neo-realismo italiano, principalmente da utilização de não atores em seus filmes, a narrativa possuía traços fortes das tradições africanas, mesclando assim diversas linguagens e dando início ao cinema de autor no continente africano.

Mas antes de usar o cinema como forma de denunciar os problemas de Senegal, Ousmane Sembène fora escritor e durante suas idas à França teve contato com ideais marxistas, fato que contribuiu para que escrevesse livros engajados socialmente. Mas mesmo usando seus livros para denunciar a exploração social da França em cima do Senegal, Sembène não ficou satisfeito com o alcance de suas obras e suas ideias, ficando sempre preso aos intelectuais da esquerda, passando bem longe do povo senegalês. Foi assim que Sembène se aventurou no cinema, enxergando que assim ele poderia chegar aonde ele desejava, criando um diálogo direto com a elite letrada e o povo, que em sua maioria era analfabeto. Além de levar sua mensagem para o resto do mundo.

Sembène realizou 11 filmes durante sua vasta carreira, sempre incisivo em seus temas. Temas importantíssimos como o já mencionado aqui sobre os efeitos da neo-colianização francesa, que é visto muito fortemente em “La noire de…” (1966); as complexidades vindas com a independência em “O Carroceiro” (1993); a participação dos africanos na Segunda Guerra Mundial em “Emitaï” (1971) e “Camp de Thiaroye” (1988); e também sofre a forte influência do islamismo sobre as tradições africanas em “Moolaadé” (2004), que nesse caso também é mesclado com um forte questionamento sobre a globalização e envolto num forte cunho humanitário e feminista.

Hoje, Sembène é visto com o pai do cinema africano e seus filmes são discutidos e admirados. Uma pena é que sua obra fica à margem de outros cineastas europeus, mesmo com temas tão importantes e filmes tão bem realizados, Sembène ainda é conhecido por uma pequena parcela de cinéfilos, mas dentre os que se aventurarem em seus filmes com certeza sairão mais ricos culturalmente e com uma visão mais clara da história africana recente.

Jean Rouch e Ousmane Sembène

Em 1965 Ousmane Sembène e Jean Rouch (cineasta francês que tinha como trabalho principal filmes sobre a África) tiveram uma conversa que deixa muito claro a opinião de Sembène sobre o olhar europeu referente aos africanos. Uma conversa importantíssima que mostra dois importantes cineastas de sua época e que falavam sobre o mesmo tema, embora um sendo francês e o outro senegalês.

Essa conversa foi retirada originalmente do livro The Short Century: Independence and Liberation Movements in Africa 1945-1994, de Chinua Achebe e traduzido pelo blog Cine África.

Ousmane Sembène: Cineastas europeus, como você, continuarão a fazer filmes sobre a África uma vez que haja vários cineastas africanos?

Jean Rouch: Isso dependerá de várias coisas, mas meu ponto de vista, no momento, é de que eu tenho uma vantagem e uma desvantagem ao mesmo tempo. Eu trago o olhar do estranho. A própria noção de etnologia está baseada na seguinte ideia: alguém confrontado com uma cultura que é estranha a ele vê certas coisas que as pessoas de dentro dessa mesma cultura não veem.

Ousmane Sembène: Você diz olhar. Mas no ramo do cinema, não basta ver, é preciso analisar. Estou interessado no que vem antes e depois do que nós vemos. O que eu não gosto na etnografia, sinto dizer, é que não basta dizer que um homem que nós vemos está andando; precisamos saber de onde ele vem, para onde ele vai.

Jean Rouch: Você está certo nesse ponto porque nós não chegamos ao objetivo de nosso conhecimento. Acredito também que para estudar a cultura francesa, a etnologia a respeito da França deveria ser praticada por pessoas de fora. Se alguém quer estudar Auvergne ou Lozere, é preciso ser Briton. Meu sonho é que africanos produzam filmes sobre cultura francesa. De fato, você já começou. Quando Paulin Vieyra fez Afrique sur Seine, seu objetivo era de fato mostrar estudantes africanos, mas ele os estava mostrando em Paris e estava mostrando Paris. Poderia haver um diálogo e você poderia nos mostrar o que nós mesmos somos incapazes de ver. Estou certo de que a Paris ou a Marselha de Ousmane Sembène não é a minha Paris, minha Marselha, de que ela não tem nada em comum.

Ousmane Sembène: Há um filme seu que eu adoro, que eu defendi e continuarei a defender. É Moi, um noir. Em princípio, um africano poderia tê-lo feito, mas nenhum de nós, na época, tinha as condições necessárias para produzi-lo. Acredito que é necessária uma continuação para Moi, un noir – penso nisso o tempo todo – a história desse jovem que, após a Indochina, não tem emprego e acaba na cadeia. Depois da Independência, o que acontece com ele? Alguma coisa mudou para ele? Acredito que não. Um detalhe: esse jovem tinha seu diploma, agora acontece que a maioria dos jovens delinquentes tem diplomas escolares. Sua educação não os ajuda, não os permite viver uma vida normal. E, finalmente, sinto que até agora dois filmes de valor foram feitos sobre a África: o seu, Moi, un noir, e Come back Africa, do qual você não gosta. E há um terceiro, de uma ordem particular estou falando do Les Statues Meurent Aussi.

Jean Rouch: Gostaria que você me dissesse por que não gosta dos meus filmes puramente etnográficos, aqueles nos quais nós mostramos, por exemplo, a vida tradicional?

Ousmane Sembène: Porque vocês mostram, vocês fixam uma realidade sem ver a evolução. O que eu tenho contra você e os africanistas é que vocês nos olham como se fôssemos insetos.

Jean Rouch: Como Fabre [Jean Henri Fabre (1823-1915), famoso por seu estudo do comportamento e anatomia dos insetos] teria feito. Defenderei os africanistas. São homens que certamente podem ser acusados de olhar para homens negros como se fossem insetos. Mas pode haver Fabres por aí que, ao examinar formigas, descobrem uma cultura similar, que é tão significativa quando a deles próprios.

Ousmane Sembène: Filmes etnográficos com frequência nos prejudicaram.

Jean Rouch: Isso é verdade, mas é culpa dos autores, porque com frequência trabalhamos precariamente. Não muda o fato de que na situação atual podemos fornecer testemunhos. Você sabe que há uma cultura ritual na África que está desaparecendo: griots morrem. É preciso reunir os últimos traços vivos dessa cultura. Não quero comparar africanistas com santos, mas eles são monges infelizes encarregados da tarefa de reunir fragmentos de uma cultura baseada em uma tradição oral que está em processo de desaparecimento, uma cultura que me arrebata por sua importância fundamental.

Ousmane Sembène: Mas etnógrafos não coletam fábulas e lendas apenas dos griots. Não se trata somente de explicar máscaras africanas. Tomemos, por exemplo, o caso de outro de seus filmes. Les Fils de I’Eau. Acredito que vários espectadores europeus não o entenderam porque, para eles, esses ritos de iniciação não tiveram significado nenhum. Acharam o filme bonito, mas não aprenderam nada.

Jean Rouch: Ao filmar Les Fils de I’Eau, pensei que assistindo o filme os espectadores europeus poderiam fazer apenas isso, ir além do velho estereótipo de negros como “selvagens”. Eu simplesmente mostrei que apenas porque alguém não participa de uma cultura escrita não quer dizer que ele não pense. Há também o caso de Maitres Fous, um de meus filmes que provocou debates acalorados entre colegas africanos. Para mim, ele testemunha a maneira espontânea pela qual os africanos mostrados no filme, uma vez que fora de seu meio, livram-se desse ambiente industrial e metropolitano europeu ao representá-lo, fazendo dele um espetáculo. Acredito, entretanto, que problemas de recepção aparecem. Um dia, eu exibi o filme na Filadélfia em um congresso antropológico. Uma senhora veio até mim e perguntou: “posso ficar com uma cópia?”. Eu a perguntei por que. Ela me disse que era do sul e… ela queria mostrar… esse filme para provar que negros eram de fato selvagens! Eu recusei. Entende, eu lhe dou razão.

Obras de Ousmane Sembène

Filmes
Moolaadé (2004)
Faat Kiné (2001)
Guelwaar (1992)
Camp de Thiaroye (1988)
Ceddo (1977)
Xala (1975)
Emitai (1971)
Tauw (1970)
Mandabi  (1968)
La noire de…(1966)
Niaye (1964)
L’empire sonhrai (1963)
Borom sarret (1963)

Livros
Niiwam (1987)
Le Dernier de l’Empire (1981)
Xala (1973)
Vehi-Ciosane ou Blanche-Genèse (1966)
Le Mandat (1965)
L’Harmattan (1964)
Voltaïque (1962)
Les Bouts de bois de Dieu (1960)
Ô pays, mon beau peuple (1957)
Le Docker noir (1956)

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*Texto publicado originalmente no zine do primeiro encontro do Cineclube Belair