Mesmo com mais de um século de existência, a linguagem do cinema ainda consegue nos surpreender e a forma como somos apresentados a essa arte pode ser, a cada filme, uma experiência nova e como disse, surpreendente.

20286881A proposta do filme “Senhoras e Senhores: Corte Final(2012) parecia simples, mas ao mesmo tempo me soava um pouco pretensiosa. Contar uma história através de recortes de outros filmes é arriscado e pode não ter um resultado final satisfatório, mas mesmo assim eu fiquei super curioso para assistir ao filme, desde que soube que seria exibido no Festival do Rio em 2012. Mas enfim, finalmente consegui assisti-lo.

Os créditos iniciais já me deixaram com um belo sorriso no rosto, por ver tantos nomes de realizadores juntos e com a trilha sonora que parecia passear entre grandes temas da história do cinema. E  a surpresa já vem logo na primeira cena, com um corte do filme “Avatar(2009), e assim já começamos o longa com uma cena de um filme que é o maior arrecadador em bilheteria na história do cinema. E então nesse rápido instante já percebemos que o filme será uma longa viagem e que passaremos por várias épocas marcantes do cinema.

No começo nós acompanhamos cenas de personagens acordando e então somos apresentados a uma das figuras do filme: o homem e logo após somos apresentados a figura da mulher, que se esbarra casualmente com o homem na rua e dão inicio a uma história de paixão. O interessante dessas figuras são suas representações, como foi descrita na sinopse do filme: “O homem máximo tem o charme de Marcello Mastroianni em A Doce Vida, a virilidade de Brad Pitt em Clube da Luta, a melancolia de Tony Leung Chiu Wai em Amor à Flor da Pele e a graça de Woody Allen em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. A mulher máxima é perigosamente sensual como Gina Lollobrigida, mas tem a elegância de Audrey Hepburn. Ela é doce como Audrey Tautou, distante como Greta Garbo e direta como Sharon Stone“.

O meu maior medo nesse filme era não conseguir criar uma identificação com os personagens, já que em vários momentos eles seriam representados por vários rostos e filmes diferentes, mas o que aconteceu foi uma identificação simples, pois o diretor György Pálfi cria facilmente a figura da mulher e do homem, tudo muito bem simples. E a história também não é muito complexa, o diferencial aqui é como tudo é contado.

As cenas dos filmes são muito bem selecionadas, por vários momentos nós reconhecemos os filmes que fazem parte dessas cenas, e claro, para quem é fã da sétima arte, o filme de Pálfi é um brinde aos olhos, pois são mais de 400 filmes no meio da montagem. E é ótimo relembrar dos filmes que passam por lá, desde a “De Volta Para o Futuro(1985) de Robert Zemeckis a “Stalker(1979) de Andrei Tarkovsky, passamos também pelo cinema silencioso, como em “Metropolis(1927) e até por animação, como em “Branca de Neve e os Sete Anões(1937).

Se a montagem das cenas é muito bem feita, a trilha sonora que compõe o filme deixa tudo muito bem amarrado, as músicas foram muito bem escolhidas e nos fazem lembrar dos filmes as quais elas pertencem, fazendo um trabalho de metalinguagem muito bem construída.

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Apesar de me questionar se o filme se seguraria até o final dos seus oitenta e poucos minutos de duração, “Senhoras e Senhores: Corte Final” passou muito rápido e claro que o seu dinamismo contribuiu para isso. No fim temos um ótimo filme com recortes de outros tantos filmes, com uma trilha sonora que se mescla as cenas escolhidas e também um ótimo trabalho de som. Tudo aqui serve como uma linda homenagem ao cinema, que além disso conseguiu contar de uma maneira diferente uma história de amor entre duas pessoas.

Senhoras e Senhores: Corte Final” é um filme que mesmo resgatando várias cenas do passado e fazendo uma bela homenagem a sétima arte, nos deixa com um gosto de um trabalho diferente e inovador. Afinal de contas, em qual filme nós vimos agradecimentos para o Béla Tarr, ao IMDB e ao IsoHunt, todos juntos nos créditos finais?!