Existem histórias que possuem uma relevância histórica e que se fazem necessárias pra evidenciar alguns conflitos, mas há aí um perigo, porque dependendo do interlocutor, tal história pode ganhar um aspecto tendencioso e, infelizmente, é o que observamos em “Silêncio” (2016), grandiosa produção de Martin Scorsese.

Silêncio” é adaptado do romance homônimo de Shusaku Endo, lançado em 1966. Endo foi um famoso escritor japonês do século XX, que realizou suas obras por uma perspectiva cristã, fato que se revela com muita força na trama do filme de Scorsese, pois nela acompanhamos a trajetória de dois padres jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), que foram enviados ao Japão para encontrar o padre Ferreira (Liam Neeson), que desapareceu numa missão missionária. Chegando ao Japão os dois jesuítas encontram uma grande perseguição ao cristianismo por parte do inquisidor Inoue (Issei Ogata).

O filme é ambientado no Japão do século XVI e o olhar visual que o filme nos traz é extramente belo, isso se deve ao fato também de que Scorsese é um profundo conhecedor da história do cinema e aqui fica claro a homenagem aos filmes de Akira Kurosawa, seus planos evocam as obras mais épicas do diretor, como “Kagemusha, a Sombra do Samurai” (1980) e “Ran” (1985).

E é justamente a parte visual que mais encanta na produção, os planos gerais esfumaçados nos revelam uma beleza plástica de encher os olhos, todo o esmero técnico do filme serve não somente para mostrar as belezas das locações, como as praias e as montanhas, mas para apresentar um mundo gigantesco, desconhecido, cativante e também um pouco assustador aos olhos dos protagonistas.

O design de produção também se mostra poderoso em todo o figurino e nas maquiagens, trazendo um tom de realidade pro filme através de toda a ambientação muito bem construída.

O filme é carregado praticamente por Andrew Garfield, seu personagem é o que mais acompanhamos em tela e, mesmo com um personagem tão unilateral na maior do tempo, ele consegue nos entregar uma atuação bastante honesta, embora seu sotaque português possa incomodar em alguns certos momentos. Mas quando Garfield é colocado em cena com Liam Neeson, fica visível a diferença entre os dois, pois mesmo em momentos breves, Neeson se mostra muito mais a vontade com o personagem do que Garfield. Já Adam Driver é bem aproveitado como personagem de apoio, mas a impressão é que seu personagem teria muito mais conflitos internos do que o protagonista e seus questionamentos poderiam ajudar o filme a levantar questões pertinentes sobre seus atos.

Embora fique claro desde a primeira cena a proposta do filme, é inegável a necessidade de um discurso que contrapusesse a missão dos padres no Japão. Em certos momentos o filme parece indicar que os personagens iriam começar a duvidar da sua fé e o silêncio do título seria usado como metáfora para o silêncio vindo de Deus, assim como em algumas obras de Ingmar Berman, como em “Luz de Inverno” (1963), mas tais momentos são tão passageiros que não conseguem cumprir nem essa função de questionamento. Mas, se o silêncio de Deus não possui uma grande relevância na trama, o silêncio é muito bem construído em algumas cenas, literalmente em momentos que os personagens fazem suas orações e missas em lugares escondidos, deixando as cenas com um silêncio fúnebre, o que as deixa com uma composição bastante interessante.

Mas pra não dizer que o filme segue inteiramente sem questionar os atos dos protagonistas, há um diálogo muito contundente ao final do segundo ato, onde um japonês do exército do inquisidor Inoue questiona a missão de Rodrigues, mostrando o outro lado dessa catequização, dizendo que o país possui sua própria cultura e religião e que esse processo de colonização acaba destruindo a tradição de um povo. Essa é com certeza uma fala necessária no filme, que poderia ter gerado um diálogo importante, mostrando diferentes pontos de vista sobre religião e cultura, mas Rodrigues só retruca dizendo que o cristianismo é a verdade universal e mostra não entender os princípios budistas, com frases calcadas no senso comum. Ainda assim, é compreensível um personagem defender seus ideais de uma forma tão convicta no princípio, mas não é compreensível todo o conjunto da obra tratar os budistas de uma forma tão caricata, e é o que acontece.

Da metade para o final, quando Rodrigues é capturado por Inoue, o filme perde bastante o ritmo, pois acompanhamos o personagem preso junto de outros cristãos que sofrem com uma forte violência física e psicológica. Todo o jogo psicológico que fazem com Rodrigues é até interessante, pois vemos o personagem entrando num processo de histeria gradativa. Mas mesmo assim o filme perde bastante força nessas cenas, a narrativa parece truncada e os planos milimetricamente estudados por Scorsese começam a cansar, deixando o filme bem carregado e pesado.

No geral, “Silêncio” possui um andamento bem lento, mas inexplicavelmente no seu ato final tudo se torna corrido. Se por um bom tempo acompanhamos os acontecimentos da prisão de Rodrigues e sua gigantesca força para permanecer lúcido e ainda fiel aos seus dogmas, quando chegamos perto do final essa narrativa metódica desaparece por completo. O filme acaba adotando uma narração em off, que até então não se fazia presente na obra e insere um novo personagem sem mais nem menos e a história começa a ser contada a partir do olhar desse personagem, o que cria uma confusão narrativa e deixa o filme num grande embaraço, matando até mesmo o clímax que havia sendo construído de uma forma tão meticulosa, e para além disso o filme se estende demais e no ato final o protagonista que já não era tão cativante acaba se tornando desinteressante.

Infelizmente, o tão aguardado filme de Martin Scorsese possui alguns tropeços narrativos e uma trama um tanto quanto duvidável, claro que é de se levar em conta todo o martírio que os padres passaram no Japão, mas o filme carece de apresentar uma outra visão ou até mesmo questionar tais atos de modo mais incisivo. Visualmente é um filme impecável e mesmo deixando a obra um tanto quanto carregada em alguns momentos, a técnica precisa não tira a beleza visual dos planos escolhidos.

Silêncio” possui também uma direção bastante segura, pois tratando-se de Martin Scorsese não se pode esperar menos, ele é um dos cineastas mais relevantes da turma da Nova Hollywood, que surgiu em meados da década de 1970. Mas mesmo assim, o filme apresenta problemas de ritmo, principalmente no segundo ato onde as coisas acontecem bem lentamente e no último ato, onde tudo é corrido ao extremo, deixando até a cena final sem muito sentimento, embora possua uma carga dramática bastante visível e um forte simbolismo.

Título Original: Silence
Direção
: Martin Scorsese
Roteiro: Martin Scorsese & Jay Cocks, baseado na obra de Shûsaku Endô
Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano, Ciarán Hinds, Issei Ogata, Shin’ya Tsukamoto, Yoshi Oida e Yôsuke Kubozuka.
País: Estados Unidos da América
Ano: 2016
Duração: 161 minutos
Estreia: 9/3/2017