É inegável que Star Wars é uma franquia muito bem estabelecida, que mudou completamente a forma como o grande público consome cinema e também, estabelecendo desde o primeiro o filme, o que é um legítimo blockbuster. Portanto, por conta de décadas de sucesso, dos apaixonados fãs de diferentes gerações, ousar em termos narrativos poderia trazer uma certeza estranheza para o púbico, vide o filme anterior da franquia, “Star Wars: O Despertar da Força” (2015), que emulou uma estrutura já sólida na franquia.

A franquia, num todo, é marcada por arquétipos muito bem definidos e de caminhos que calcam as passagens e aprendizados de seus personagens em meio as suas jornadas. Elementos como a Força, que embora possua um significa místico, nos era apresentada de uma forma objetiva, com o Lado da Luz e o Lado Sombrio. E, por mais que os fãs da franquia estivessem curiosos pelos acontecimentos do novo capítulo da saga, já sabíamos o que poderíamos esperar das jornadas dos personagens principais. Mas, felizmente, “Star Wars: Os Últimos Jedi” (Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi, 2017) subverte os conhecidos arquétipos e expande vários conceitos que eram extremamente sólidos.

O novo capítulo da saga começa exatamente onde o Episódio VII terminou, o que vai na contramão dos filmes anteriores, que sempre realizavam saltos temporais entre eles. O sentido de urgência que o final do filme anterior traz é sentindo aqui de forma que vai ficando cada mais evidente ao decorrer da história, que demora um pouco a engrenar e dar sentindo real ao seu roteiro.

A trama é dividida em núcleos, como é de costume na franquia. Temos o núcleo da Rey (Daisy Ridley), que busca aprender mais sobre a Força com um amargurado Luke Skywalker (Mark Hamill) e que de alguma forma também estabelece uma ligação forte com Kylo Ren (Adam Driver); temos também o núcleo do Finn (John Boyega) com a nova personagem Rose Tico (Kelly Marie Tran), que partem numa missão que não possui muita força narrativa para a obra, mas que serve para acrescentar um pouco mais de complexidade ao seu universo político e abrir portas para um provavél futuro da franquia; e por fim, acompanhamos também o núcleo da Resistência, com Poe Dameron (Oscar Isaac) sendo o personagem impulsivo e que vai de encontro com as ordens se seus superiores, como os da General Leia Organa (Carrie Fisher), com quem estabelece um vínculo afetivo quase familiar.

O sentido de urgência citado anteriormente é de fato sentido, pois a Resistência está encurralada, perdendo cada vez mais forças. O problema inicial é que, ao ser um filme de intermédio, os dramas dos personagens se tornam maiores e é impossível fugir da densidade que o próprio argumento traz, mas ainda assim, existem várias piadas fora de tom e que tiram o espectador do sentimento de perigo. No início elas acontecem a todo momento e em fora de hora, de uma forma nem um pouco orgânica, talvez por uma necessidade de amenizar a carga dramática que o filme anterior havia deixado, o que acaba não funcionando. Ao decorrer do filme o timing cômico acaba funcionando melhor, servindo para aliviar a tensão, diferentemente do primeiro ato que soava gratuito.

Se às vezes o humor descompassado prejudica o filme em algumas cenas, a falta de substância prejudica ainda mais a trama como um todo. Claro que o novo universo está sendo construído e que os novos personagens ainda estão se estabelecendo, mas o filme, em momento algum se aprofunda de verdade nas razões e motivações de seus personagens principais, embora exista a tentativa. Mas a lacuna deixada é ainda maior e a impressão que fica é que as situações ocorridas entre os Episódios VI e VII tiveram que acontecer em função do roteiro, pra história acontecer, não no sentindo de uma dramaturgia clara. A própria existência de Snoke (Andy Serkis) indica isso, que simboliza uma falta de substância narrativa presente em toda a nova trilogia.

Mas se os dois novos filmes da franquia possuem problemas de profundidade narrativa como um todo, quando optamos por fazer um recorte de seus personagens, eles se saem muito bem. E é nesse quesito que o filme se torna grande e se destaca dentre seus antecessores. A jornada de Rey, que aqui se esbarra com a de Kylo, são ótimas e, como dito anteriormente, são incrivelmente surpreendentes, subvertendo os clássicos arquétipos da saga.

Rey passa por um conflito semelhante ao de Luke em “Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca” (1980), ao buscar a compreensão da Força voltando-se a si para enfrentar seus traumas adormecidos. Mas, ainda assim, esse percurso de Rey possui uma identidade muito própria e não emula algo que já vimos antes, como tanto aconteceu no Episódio VII. Isso também se deve muito ao personagem de Kylo, que interfere de forma mais pertinente no treinamento de Rey.

Kylo é o personagem mais complexo de toda a série, possuindo uma jornada indefinida e motivações dúbias, tornando-o um antagonista mais palpável e crível. A atuação de Adam Driver deixa os fragmentos de sentimentos do personagem mais evidentes do que no filme anterior, o seu tom de voz, que possui um ar de morbidez e medo, as nuances do olhar e os gestos impulsivos de caráter físico, o tornam o melhor personagem de toda a nova trilogia, dramaturgicamente falando não há um personagem tão profundo quanto ele em todo o filme.

E, ainda tratando-se de profundidade de personagens, o filme também nos apresenta um Luke nunca antes visto, repleto de conflitos e amarguras. É preciso destacar a ótima atuação de Mark Hamill, que realiza, disparadamente, o seu melhor trabalho em toda a saga. O personagem de Luke é crucial para a trama, pois é através dele que conseguimos alcançar um novo deslumbramento do conceito da Força. Para os mais aficionados, Luke traz consigo elementos da trilogia clássica e cenas que com certeza já estão dentre as mais memoráveis de toda a franquia.

Se os arquétipos e as jornadas dos personagens principais são subvertidos de forma coesa e eficaz, a linguagem do filme também apresenta novos recursos. O diretor e roteirista Rian Johnson insere elementos que não vimos em outros filmes, mas que ainda assim preserva a identidade visual dentro do conceito da saga. As janelas de transições ainda estão presentes, mas a montagem traz um frescor revigorante pro filme, que insere ritmo e sugere uma série de caminhos que a história pode trilhar.

A fotografia de Steve Yedlin traz equilíbrio ao filme, que alterna entre primeiros planos nos momentos de tensão e planos gerais nos momentos de batalhas, que casada a ótima cinematografia do filme, nos brindam com incríveis momentos puramente visuais. O vermelho, que no conceito da série simboliza o Lado Sombrio, está fortemente presente na iconografia da obra, que além de tornar algumas cenas plasticamente fantásticas, também favorece para o grande conflito dos arcos dos personagens principais.

As batalhas espacias ainda estão grandiosas, aliás o filme abre com uma delas e, logo de início, já somos apresentados a personagens coadjuvantes que nos cativam em poucos minutos de cena. Se há algo que a franquia sabe trabalhar são seus personagens secundários, dando valor narrativo a eles, o que torna as batalhas mais elaboradas, pois nos importando com esses personagens, damos valor a cada cena de conflito apresentada.

Como já dito, Rian Johnson consegue, em “Star Wars: Os Últimos Jedi“, expandir conceitos da série e inserir novos elementos cinematográficos em sua identidade visual. Há espaço para discussões pertinentes sobre os lados da guerra, os lados da Força e os lados da própria Resistência. E, como não poderia deixar de ser, o filme ainda possui várias cenas que homenageiam Carrie Fisher, falecida em dezembro de 2016. No fim, o novo episódio de Star Wars ainda caminha sobre as clássicas características da saga, mas que dessa vez abre precedentes para um futuro curiosamente desconhecido, dentro de um universo muito rico e vasto.

Título Original: Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi
Direção: Rian Johnson
Roteiro: Rian Johnson, baseado nos personagens criados por George Lucas
Elenco: Daisy Ridley, Adam Driver, Andy Serkis, Anthony Daniels, Benicio Del Toro, Carrie Fisher, Domhnall Gleeson, Gwendoline Christie, John Boyega, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Lupita Nyong’o, Mark Hamill, Oscar Isaac, Jimmy Vee, Joonas Suotamo, Peter Mayhew
Fotografia: Steve Yedlin
Produção: Kathleen Kennedy
País: Estados Unidos da América
Ano: 2017
Duração: 152 minutos
Estreia: 14/12/2017
Distribuição no Brasil: Disney

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima