poster-66047Béla Tarr é sem dúvidas um dos cineastas autorais mais importantes das últimas décadas, suas obras são repletas de poesia, seus filmes conseguem falar da condição humana de uma forma espiritualizada, assemelhando-se as obras de Andrei Tarkovski. As suas produções, por serem demasiadamente plásticas, com um primor técnico absurdo, pode soar como se Tarr se distanciasse dos temas que quer abordar, mas contraditoriamente essa distância é totalmente quebrada quando sua lente consegue penetrar nos mais profundos sentimentos de seus personagens, que em vários momentos são silenciosos.

Em 2011 Tarr lançou seu último filme, o derradeiro, “O Cavalo de Turim“. Os cinéfilos foram surpreendidos quando Tarr anunciou sua aposentadoria, dizendo que “O Cavalo de Turim” seria o último filme de sua carreira, pois ele sentia que se continuasse a produzir estaria se repetindo, portando sua obra estava completa, o que ele queria transmitir já havia sido transmitido em suas demais obras. Portanto, o cineasta francês Jean-Marc Lamoure se encarregou da missão de registrar Béla Tarr pela última vez realizando uma filmagem, e é disso que se trata o documentário “Tarr Béla, Eu Costumava Ser um Cineasta“, lançado em 2013.

Para quem procura um documentário onde aprenderemos mais sobre a figura de Béla Tarr, pode se decepcionar com o filme, com raras exceções onde temos algumas falas de Tarr sobre a sua carreira. O filme em questão pretende colocar o espectador dentro das filmagens de “O Cavalo de Turim“, o que por si só já é algo maravilhoso, pois são nesses momentos onde conseguimos enxergar além da figura mítica do cineasta, seja ele qual for; podemos ver como funciona a sua interação com a equipe, com os atores, suas ideias para os planos, enfim, acompanhamos praticamente todo o processo de filmagem. É gratificante ver como determinadas cenas foram produzidas, como por exemplo nas famosas cenas externas de “O Cavalo de Turim” onde sempre há uma ventania absurda, aqui descobrimos que elas são realizadas, em sua maioria, por dois ventiladores gigantes e com pessoas jogando folhas secas para criar o efeito necessário. Nesses momentos, Lamoure intercala entre a cena que está sendo gravada com cenas do corte final de “O Cavalo de Turim“. É um deleite, pois podemos ver os ensaios dos movimentos de câmera e no mesmo instante assistir ao ‘balé’ da cena já pronta.

Mas o filme não faz somente um trabalho de making of, ele também traz ótimos depoimentos, e o mais impressionante é sem dúvida da atriz Erika Bok, que trabalhou com Tarr na epopeia “Satantango” (1994) quando era criança e que agora atuava em mais um filme dele; Erika Bok se emociona claramente ao falar da importância de Tarr em sua vida. Em um outro momento vemos Bok durante as filmagens assistindo a uma cena que acabara de gravar, mais uma vez ela se emociona, mostrando sua entrega à obra.

Tarr Béla, Eu Costumava Ser um Cineasta” é um documentário puramente de observação, e assim como os filmes de Tarr, não procura grandes explicações verborrágicas para suas cenas, o filme se preocupa em fazer somente um registro da última grande obra de um grande cineasta. Um presente para os cinéfilos e principalmente para os apaixonados pela obra do húngaro Béla Tarr.