amfa3ekptybjsxmy7ef7s0gabntO stop-motion é uma técnica que desde os primórdios da história do cinema foi usada como uma forma de expressão dentro de animações, e em filmes live action que mostravam a interação com criaturas e mundos fantásticos. George Méliès, Tim Burton, George Lucas e Wes Anderson são diretores que usaram muito bem da técnica para suas obras. Vale ressaltar que esses cineastas bebem bastante da fonte de Ray Harryhausen. Conhecido por ter trabalhado em “Jasão e os Argonautas” (1963) e na primeira versão de “Fúria de Titãs” (1981) e é considerado um dos maiores profissionais da área da animação e stop-motion de toda a história do cinema.

Fora desse mercado particularmente conhecido, temos artistas de outras nacionalidades que usam dessa influência, mas a passos mais largos. Um desses caras é o cineasta e artista plástico tcheco Jan Švankmajer, que mescla o stop-motion e fantoches, argila e com linguagem surrealista. Entretanto, para o diretor tcheco o surrealismo não é apenas uma corrente artística de vanguarda, é uma filosofia. Ao desenvolver em seu cinema as constantes do surrealismo, o estudo do inconsciente, o interesse pela infância e a liberdade da imaginação.

Jan Švankmajer nasceu em Praga em 1934 e assim que terminou seus estudos no Instituto de Artes Industriais e na Faculdade de Marionetas de Praga, da Academia de Belas Artes na década de 1950, Svankmajer começou a trabalhar como diretor de teatro, principalmente em associação com o Teatro de Máscaras e Lanterna Magika. Com base neste período, produziu seu primeiro filme de animação, “Last Trick”, baseado em suas experiências teatrais. Nos anos 60 entraria para o Grupo Surrealista Tchecolosváquia e ainda em 68 faria seu primeiro curta-metragem de animação com toques surreais clássicos.

Nos anos 70 seria proibido pelas autoridades comunistas de continuar a fazer filmes, permanecendo desconhecido e fora de atividade até meados dos anos 80. Essa volta a atividade rendeu muitos bons trabalhos, entre sua grande maioria curtas. Entre seus longas temos a duas adaptações, “Fausto” de Goethe e a obra em questão, Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll.

Em 1988, realizaria seu sonho de adaptar a obra-prima de Lewis Carrol, “Alice no País das Maravilhas”. A junção de técnicas de stop-motion para recriar o fantástico mundo da obra e com a interpretação da linda Kristyna Kohoutova, o filme vai contra a narrativa de conto de fadas e de lição de moral da adaptação da Disney. O design e a construção do filme passa a sensação de sonho, uma expressão do inconsciente, a realização de nossos desejos e vontades inibidos. Os personagens passam uma falta cordialidade em um mundo sujo, sem esperança e sem conceitos morais e racionais. O filme é conhecido mundialmente pelos profissionais da área de animação e dos que simpatizam com a ideia do movimento surrealista como uma das melhores adaptações literárias já feitas, seria o embrião de muitas das características mais marcantes do autor e seria considerado até hoje a versão mais sombria de Alice.

Tanto Alice, quanto a maioria dos curtas que o diretor produziu podemos encontrar facilmente no Youtube. Para uma pequena demonstração antes de se aventurar pela adaptação de Lewis Carroll indico os ótimos, “Dimensões do Diálogo” (1982) e “Food” (1992) que além de mostrar uma certa crítica às nossas relações sociais, faz uma junção magnífica do live action com a técnica stop-motion e a utilização da argila. Simplesmente surreal.