starsanatpodkleps2O cinema polonês é conhecido desde muito tempo pela qualidade em suas produções e por ter passado por inúmeras modificações, mas sempre mantendo uma qualidade difícil de se encontrar na história do cinema. Um dos mais importantes, se não o mais importante é sem sombra de dúvidas o período pós-Segunda Guerra Mundial. Vários diretores alavancaram suas carreiras cinematográficas utilizando-se de conotações políticas em seus roteiros e relatando os horrores sofridos pela Polônia durante eventos trágicos como a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial e a Revolta de Varsóvia. Dentre alguns dos nomes a integrar este seletivo grupo estão Andrzej Wajda, Andrzej Mink, Jerzy Kawalerowicz e Wojciech Has. Este último, diferente de seus companheiros, preferia utilizar o contexto sociopolítico de forma onírica, com uma linguagem fantasiosa, poética e metafórica, mas ainda assim nos fazendo refletir da mesma forma.

E é exatamente nesse clima pós-guerra em que acompanhamos a jornada de Józef (Ján Nowicki), que parte para disposto a reencontrar seu pai internado num sanatório, aparentemente à beira da morte. Logo quando chega ele encontra o local em ruínas, prestes a ser derrubado, e somente uma enfermeira parece importar-se com o bem estar dos pacientes; não há praticamente nenhum médico, enfermeiro ou mesmo um dono no local. No entanto, ao interagir com seu pai, não tarda para que o sanatório mostre sua verdadeira face.

O tempo não flui de forma comum, a ambientação muda constantemente e o passado é ressuscitado de formas distintas, sempre de uma maneira aleatória. Essa forma aleatória nos apresenta cortes de planos belíssimos. A ambientação muitas vezes nos passa a impressão de estarmos vendo um filme de terror, um clima barroco e destrutivo. Mas a cada passagem de cenário somos surpreendidos por uma mudança total de narrativa, para um desfile, outra vez para um grande mercado com tons de cores fortes nos figurinos e na locação que adentram ao clima surreal do filme, mas que não dura muito, voltando sem nenhuma preocupação com a linearidade da trama, para um clima sombrio novamente. A imersão nesse clima onírico e poético é tanta, que você acaba esquecendo da linearidade.

O “Sanatório da Clepsidra” (1973) foi livremente adaptado da obra literária homônima (publicada no Brasil como Sanatório Sob o Signo da Clepsidra) de Bruno Schulz, mas que também toma como base outros textos do escritor. Estranho é saber que essa adaptação é considerada até hoje o filme mais caro da história do cinema polonês, isso considerando que geralmente vemos esses estouros de orçamento em filmes que não entregam nem um terço do que vemos no belíssimo trabalho de Wojciech Has.

Has dá preferência a suas típicas acrobacias narrativas que não se valem de efeitos especiais ou artifícios de montagem, mas dão vida, de forma quase artesanal, a um caos encantador com tons de fábula e surrealismo.