O cinema japonês é muito influenciado por seus contos e mitos folclóricos, e boa parte deles bebe da matriz originária do Xintoísmo e do Budismo, duas religiões tradicionais desde os tempos antigos no Japão. Geralmente se passa com personagens ou situações imaginárias e bizarras, muitas vezes incluindo divindades, monstros e fantasmas em seus enredos. Esse folclore é normalmente dividido segundo o tipo de suas narrativas. As histórias de fantasmas e demônios são conhecidas como Kaidan. “Onibaba – A Mulher Demônio” (1964), de Kaneto Shindô é livremente baseado na parábola budista “yome-odoshi-no-men”, conto que representa algumas motivações de uma da personagem do filme.

Onibaba” é um filme de pode ser classificado como terror, mas também é acima de tudo um registro histórico dramático dos acontecimentos no Japão do século XIV.

Logo nas cenas iniciais vemos a introdução de duas mulheres que em meio a uma guerra civil vivem isoladas em uma cabana dentro de um sinistro matagal. Sem recursos para sobreviver elas recorrem à assassinatos de soldados perdidos no matagal para assim conseguirem alimento vendendo seus pertences e armaduras para um comerciante clandestino. Um certo dia, um guerreiro chamado Hachi (Kei Sato) chega ao local aonde as mulheres residem. Ele teria lutado no mesmo exército em que o filho da mulher mais velha, e marido da mulher mais nova. Vale ressaltar que em nenhum momento é falado os nomes das duas personagens. A mais nova começa a se interessar por Hachi, enquanto a mais velha desaprova a relação e começa a inventar estórias sobre o inferno e tentar amedrontar a moça mais jovem. Não obtendo sucesso, ela começa a pensar em outras formas de fazer os dois não ficarem juntos. Esses sentimentos da velha são a grande ponte do filme com a parábola que citei no inicio.

A história é originária do século XIV bastante representada no teatro e que se tornou mundialmente conhecida pela máscara Hannia. A máscara representa um rosto de mulher que, em virtude do sofrimento por sentimentos como raiva, inveja e ciúme, adquire um aspecto demoníaco.

O clima de terror que se vai construindo além de ser minimalista é bastante equilibrado e conciso. O matagal com seus vendavais e clima soturno é quase um terceiro personagem. A fotografia em preto em branco, com alguns focos de luz lindamente executados se juntam aos som animalescos e tribais. Essa atmosfera nos passa uma sufocante sensação de estar em um universo à parte, onde os personagens se animalizaram em busca de sobrevivência e o alívio através do prazer sexual, isso seria uma fuga do sofrimento vivido pelos acontecimentos da época e uma busca urgente por vivência.