Entre o final dos anos 1960 a 1973, Max J. Rosenberg e os estúdios Amicus, que na época era rival da gigante dos filmes de horror Hammer, lançaram uma série de filmes de antologia inspirados nos macabros contos encontrados nas páginas da EC Comics. É um formato em que a empresa seria excelente, como muitos desses recursos são agora considerados clássicos.

Uma das maiores obras dessa do estúdio é sem sombra de dúvidas o filme dirigido pelo diretor Peter Duffel, “A Casa que Pingava Sangue” de 1971. O filme é extraordinário do início ao fim graças à sua escrita excepcional assinado por Robert Bloch, escritor autor de “Psicose”, que mais tarde vai ganhar uma belíssima adaptação para o cinema pelas mãos do mestre Alfred Hithcock.

O filme conta com um elenco estelar, e vale ressaltar que boa parte dos atores eram conhecidos por ser parceiros na maior parte das produções da Hammer. A história começa como um inspetor da polícia que é chamado para investigar o desaparecimento de Paul Henderson, um ator que tinha se mudado para uma casa com uma história de ocorrências estranhas. A partir daí conhecemos quatro contos, casos que são apresentados ao inspetor por um estranho e mórbido agente imobiliário.

No primeiro conto “Method for Murder“, somos apresentados a um escritor de livros de crimes e terror Charles Hillyer (Denholm Elliott), que depois de mudar para a tal casa começa a não conseguir diferenciar a ficção que está criando e o que é real. Isso faz com que a sua sanidade seja posta em questão.

No segundo e meu favorito conto “Waxworks“, Peter Cushing vivendo o papel de Phillip Grayson, um solitário homem que busca ter uma certa paz depois de se aposentar. Para manter-se ocupado, o velho ouve música clássica, lê livros e cuida de seu jardim. Em uma visita à cidade ele entra em um museu de horrores, e acaba dando de cara com uma estranha figura de cera que é idêntica a uma antiga amante. A estátua logo exerce um mórbido fascínio em Phillip, assim como o esquisito dono do museu lhe provoca medo imediato.

Em “Sweets to the Sweet” uma instrutora é contratada para cuidar de uma criança doce contudo reclusa cujo o pai ordena sobre ela de uma maneira severa. À medida que os eventos se desenrolam, a governanta vem a perceber que tudo não é como parece com a criança e que forças malignas pairam na relação entre pai e filha.

No último conto “The Cloak“, conta a história do tal ator desaparecido que é em primeira estância a razão do inspetor ter ido investigar a casa. Um veterano e canastrão ator de filmes de horror compra uma capa em uma loja de segunda mão, a fim de adicionar realismo ao seu desempenho, o resultado é que sua atuação acaba ficando mais real do que ele esperava.

É bom que eu deixe bem claro que estou dando apenas uma pincelada no que acontece em cada trama. Os contos em sua mitologia são bem completos e tem algumas reviravoltas, que em minha concepção, são mais interessantes e ricas vistas em primeiro impacto. O escritor Robert Bloch, que é mais conhecido como o autor de “Psicose”, fornece um roteiro que é reforçado pelas contribuições de colegas Russ Jones (o segmento “Waxworks“) e Richard Matheson (“Sweets For The Sweet“). Juntos, esses três escritores evocam quatro contos que são bem arredondados, graças a sólidos arranjos, personagens bem desenvolvidos e o clima soturno.

A história envolvente do filme também é de interesse e se relaciona com o segmento final até a perfeição, permitindo que o filme termine muito bem. Bloch havia se tornado um escritor regular para Amicus no momento em que The House That Dripped Blood foi lançado em 1971, tendo previamente escrito três filmes padrão (The Skull, The Psychopath e The Deadly Bees), bem como a antologia denominada Torture Garden. O grande fato de que o talentoso Bloch foi muito além de sua obra mais famosa (Psycho).

Embora o filme tenha sido feito para o público em geral, o fã de terror mais sério terá uma explosão com as linhas de história do filme, como eles fornecem várias piscadelas sutis (e não tão sutis) para o gênero. Dentro destes quatro contos são várias referências visuais à literatura escura (como The Complete Stories e Poems de Edgar Allan Poe). Claro que a narrativa significaria quase nada se não fosse pelo elenco tremendo que está em ação. Como todas as antologias do Amicus, o filme é um verdadeiro clássico do gênero com Christopher Lee, Peter Cushing, Denholm Elliott, Jon Pertwee, Joss Ackland e Ingrid Pitt.

Como muitos dos filmes da Amicus, “A Casa que Pingava Sangue” tem um brilho profissional que pode ser creditado a um talentoso grupo artistas nos bastidores. Um desses artesãos desconhecidos, é o diretor de arte Tony Curtis, ele era vital quando se tratava de definir a aparência de um recurso. Curtis faz um excelente trabalho de fazer os cenários do filme, que foram filmados nos lendários estúdios de Shepperton, pois parecem realistas. Se ele está reorganizando itens dentro da casa titular para se misturar com o episódio correlacionando, criando a aparência ameaçadora de um museu de cera para o segmento “Waxworks“, o filme emite um sentido contínuo de ameaça que pode ser atribuído, à trilha do compositor Michael Dress. Usando cordas, órgãos e percussão profunda, ajuda a Dress preencher a imagem com passagens estranhas, que fazem o espectador estar mais imerso no climão do filme e da casa.

A linha editorial da EC ComicsTales from the Crypt” que serviu como base para “A Casa que Pingava Sangue” e muitos outros longas de horror da época, ainda chegou a ganhar uma série de grande renome nos anos de 1980. A série intitulada, “Contos da Cripta” é bem conhecida aqui em terras brasileiras por ter passado no anos 90 em canais de TV aberta. A qualidade dos contos é muito boa, mas o clima já era diferente dos clássicos filmes da produtora Amicus.