Planeta Fantástico (La Planète Sauvage – 1973) visto nos tempos atuais pode causar estranheza ao público por conta de suas técnicas em stop-motion em seus tempos áureos de formação, sua trilha sonora espacial psicodélica e de múltiplas camadas, e por sua linguagem filosófica e política que conversam com a fase em que a cultura e a contracultura estavam lidando com o contexto geopolítico do inicio dos anos 1970.

Realizado pelo cineasta e animador francês, René Laloux, “Planeta Fantástico” se passa no planeta Yagam, onde vive uma raça de seres alienígenas com mais de dez metros de altura, olhos vermelhos e pele azul chamados Draags. Estes seres mantêm os humanoides Oms como animais domésticos, tratando-os muitas vezes com sadismo e um certo desdém perverso, que não é muito difícil de identificar uma rápida semelhança em relação ao que temos com nossos bichos de estimação e porque não com pessoas.

O epicentro de toda a história é um Oms chamado Terr, que depois de ter ficado órfão vira um bicho de estimação de um dos Draags. Essa relação acaba dando acesso aos costumes dos Draags, e também a sua educação e conhecimentos. Tendo conhecimento da sua posição, ele se revolta contra os gigantes e acaba fugindo com o aparelho que fornece esse conhecimento e prepara, com a ajuda de outros Oms, um contra ataque contra a opressão dos Draags.

O roteiro escrito por René Laloux e Roland Topor é uma clara crítica a exploração que as pessoas passavam em tempos de grandes guerras mundiais e civis. Roland Topor foi um famoso escritor, ator e pintor francês. Ele é conhecido por ter escrito o famoso livro “O Inquilino” (Le Locataire Chimerique – 1964), que em 1976 seria adaptado pelo diretor Roman Polanski. Topor foi também um dos criadores do grupo “Mouvement Panique” junto com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, que tinham influências do Surrealismo, mas com uma visão mais caótica do surreal, que acabou transformando o grupo em dos grandes nomes da contracultura.

Fora a já citada contribuição no roteiro, Roland Topor ajudou a criar todo o design da animação. Nas artes de Topor para o filme ele usa técnicas que já eram bem conhecidas para quem acompanhava seus quadros e desenhos. Uma delas é bem parecida com a técnica de gravura, tanto com cores únicas, quanto usando de cores com mais vida. Esses desenhos criados muitas vezes remetiam a rabiscos experimentais em formas de monstros, plantas e outras formas, formas que eram usadas com bastante vida por René Laloux em alguns planos, que possuíam o intuito de passar o clima selvagem do planeta desconhecido.

Em “Planeta Fantástico” tudo é pensado para te levar ao inexplicável e ao onírico, e um dos pontos que são primordiais nessa viagem é a trilha sonora. O compositor Alain Goraguer foi chamado para criar uma trilha hipnótica e com um climão Space Rock Psicodélico que tira o folego e ao mesmo tempo passa um ar de temor. O casamento da história com as artes gráficas e a trilha sonora é o que nos faz situar na trama. A grande atmosfera que as guitarras carregadas de efeitos, o uso de flautas e sintetizadores lembram bastante bandas de Rock Progressivo com esse clima psicodélico como Nektar e Eloy.

Planeta Fantástico” venceu o Prêmio Especial no Festival de Cinema de Cannes em 1973, e se consolidou como uma obra atemporal. Com todos os elementos artísticos envolvidos nela, o clima de romance distópico, sempre com um grande alerta ao modo em que vivíamos e que por sinal, ainda vivemos.

Hoje, René Laloux é lembrado como um dos grandes cineastas franceses e um dos maiores animadores da história ao lado de mestres como Hayao Miyazaki. E “Planeta Fantástico” também representa, é claro, a grande vitória da contracultura mesclada com o sucesso das artes sinistras de Roland Topor, que chegou a ser influência para o design das artes da obra “The Wall – O Filme”, de Alan Parker.