Para quem assiste a “Robocop – O Policial do Futuro” (1987) hoje vê muita similaridade com temas que estão presentes na atualidade, como corrupção, violência, privatização e manipulação midiática. O filme dirigido pelo holandês Paul Verhoeven é quase um retrato clarividente do que estava por vir, com a ascensão das tecnologias. Criado por Edward Neumeier e Michael Miner, o filme de ficção científica, e eu diria até distópico, segue a linha de produções oitentistas como “O Exterminador do Futuro” e “Blade Runner”, que não vêem um futuro muito promissor para a humanidade.

A plot do filme nos conta a estória de Alex J. Murphy (Peter Weller), policial novato que é violentamente assassinado por um dos vilões do filme, Clarence Boddicker (Kurtwood Smith) e sua gangue, logo em sua primeira missão. Os restos mortais do policial é usado pela OCP, uma empresa privada que controla a polícia e que tem um ambicioso executivo, Bob Morton (Miguel Ferrer), que quer sair na frente do vice-presidente Dick Jones (Ronny Cox) e do seu projeto concorrente, o ED-209, um robô gigante. Robocop vira um símbolo no combate ao crime na violenta Detroit, seguindo algumas diretrizes que são colocadas em seu sistema interno. Mas tudo começa mudar quando ele começa a ter lapsos de memórias da vida anterior de Murphy, e até mesmo de seu assassinato. Isso faz com que ele vá atrás de seus algozes e descubra algumas coisas que podem mudar sua relação com seus criadores.

A falência das instituições e a privatização de serviços básicos é meio que um combustível dentro do roteiro. Tudo gira em torno do controle que a OCP tem sobre Detroit. É de uma lógica capitalista tremenda, que uma empresa, em meio ao caos, através da desordem e da pobreza, querer gerir um órgão público como a polícia, com um discurso de renovação da cidade. Qualquer similaridade com a realidade é mera coincidência. Com a crise de violência em Detroit, a gestão da polícia é passada para a já citada OCP, com o intuito de melhoria nas condições do enfrentamento contra o crime. Esse plano não dá muito certo, e é aí que temos algumas das cenas mais legais ao se falar em tratamento da relação entre personagens.

Verhoeven usa de planos fechados dentro da delegacia, para construir uma relação humanizada dos policiais, e faz com que nos relacionemos com eles. Outra personagem muito bem construída é a da policial Lewis (Nancy Allen). Uma representação feminina forte no filme. Determinada, e que tem uma química sem igual com o personagem de Weller. O vínculo, e a preocupação que Lewis nos mostra com Murphy poderia ficar facilmente estereotipada, mas o trabalho de atuação da atriz não deixa margem para tais questionamentos.

Paul Verhoeven é conhecido por seus temas, cenas explícitas e de extrema violência gráfica. Isso está em “Robocop“, e não chega a ser gratuito, por ter um trabalho de design de produção aliada a um ótimo trabalho de montagem. Temos cenas de ação memoráveis, muito bem montadas, e que trabalham para a evolução da trama. As atitudes de Murphy trazem uma breve reflexão se o que ele está fazendo está realmente dentro do código ético universal e também da ética da polícia. Talvez não nos sintamos incomodados com atitudes de Robocop como buscar vingança, ou assassinar Dick Jones a sangue frio, depois de ficar livre de uma de suas diretrizes, por estarmos tão ligados emocionalmente com sua estória e sentimentos.

Na época os efeitos visuais estavam em constante evolução, e tem até alguns êxitos dentro do filme. É até econômico, se formos pensar em todos os designs que são criados para conversar com a narrativa que Verhoeven quer passar. E também, com um trabalho de stop-motion de Craig Hayes (Jurassic Park, Tropas Estrelares) e Phil Tippett (Star Wars IV e V) para criar, como exemplo o robô ED – 209, não soam com aquele ar datado.

Quem vê o Robocop não imagina que aquela armadura tenha sido o item mais caro do set. A armadura, que demorava 11 horas para ser colocada totalmente, foi criada pelo maquiador Bob Bottin (O Enigma de Outro Mundo, O Vingador do Futuro), e tem umas de sua inspirações a androide do filme “Metrópolis” (Fritz Lang) e os quadrinhos de Juiz Dredd (John Wagner e Carlos Ezquerra). Claro que não ficava fácil para Weeler se movimentar com uma armadura muito pouco confortável e extremamente quente. Quem já viu o filme repara que o andar do personagem é completamente robótico, se isso era pelo desconforto não importa, porque dá muito certo. Casado com a trilha sonora sombria criada por Basil Poledouris (Conan – O Bárbaro), e a competente atuação de Weller, o filme nos entrega um dos personagens mais enigmáticos já feitos.

Não fica claro ao espectador em qual ano se passa a trama do filme, o que fica aberto a interpretações. E nesses 30 anos que se passaram desde seu lançamento, muita coisa tem se assemelhado a aquele clima de pouca esperança, violência, corrupção e influência do capitalismo em nossas vidas. E é aí que fica a pergunta, será que já estamos vivendo os tempos sombrios da Velha Detroit?