O Exorcista (1973) é um dos filmes de horror mais cultuados de toda a história do cinema. Seja pelos sinistros acontecimentos envolvendo sua produção, ou os que vieram após seu lançamento. Mas uma coisa é certa, o filme virou referência no gênero, e até hoje tentam fazer algo parecido. Tarefa difícil por vários motivos. O filme teve um êxito grande em criar toda uma atmosfera que poucos filmes do gênero se preocuparam, ou se preocupam em fazer. O roteiro escrito por William Peter Blatty, autor do livro é coeso, e junta todas as narrativas sem deixar arrestas. O uso dos poucos recursos disponíveis na época para criar a maquiagem, é de deixar muito filme com CGI no chinelo. A direção criativa e segura de William Friedkin ( Operação França), da ao filme camadas que mesmo depois de assistido muitas vezes, não tem como não ficar impressionado com a imersão ao longo de seus 132 minutos.

Como dito antes O Exorcista é uma adaptação de um livro com o mesmo título escrito por William Peter Blatty, que assina o roteiro do filme, e dirigido por William Friedkin. O livro de Blatty é baseado em um suposto exorcismo de um garoto de 13 anos que teria vivido em 1949 na cidade de Cottage, em Maryland, nos Estados Unidos. Na época, jornais locais espalharam terror com as notícias de uma possessão demoníaca na cidade, todas baseadas em fontes anônimas.

Logo em seu começo o filme se ambienta em uma região instituída Norte do Iraque, aonde acontece algumas escavações que são normal naquele ambiente árido aonde já se encontrou a mítica Mesopotâmia. Não demora muito e somos apresentados a Padre Merrin (Max Von Sydow, como sempre ótimo.), que a primeira estância parece ser um estudioso e pesquisador religioso e Padre Merrin é avisado da descoberta de alguns itens e ao chegar no local encontra sua primeira imagem demônio Pazuzu, seguida por um amuleto. A partir daí vemos o filme começar a se ambientar em um clima mais tenso, com ele buscando respostas, diante de olhares atentos de pessoas que povoam o lugar. Essa primeira sequência termina com o encontro do Padre com uma estátua de Pazuzu. O trabalho de climatização é crucial.

A partir daí somos transferidos para a cidade de Georgetown, aonde encontramos outros dois núcleos narrativos, que irão a partir daqui fazer a estória se desenrolar. Conhecemos a atriz Chris McNeil (Eller Burstyn), que se divide entre sua carreira e sua filha adolescente Regan (Linda Blair), que está passando por mudanças por conta da idade, e pela falta da presença paterna em sua vida. Do outro lado temos Padre Damien Karras (Jason Miller), que ao mesmo tempo que enfrenta problemas com sua mãe doente que se recusa a deixar sua casa e ir para um asilo, percebe-se também uma certa briga interna sobre seu papel dentro da igreja. A trama se desenvolve a partir do momento em que Regan passa por uma mudança em seu comportamento. A primeiro momento os médicos acham que é uma coisa hormonal, e até em certo momento, um distúrbio cerebral, mas depois de inúmeros exames, não encontram nada. Ao ver o desespero da mãe de Regan, os médicos sugerem que ela procure uma ajuda espiritual, e acaba que Padre Karras é indicado para fazer um diagnóstico. Mal sabia ele que a decisão de ajudar Regan iria levá-lo a muitos questionamentos internos.

Padre Karras é um personagem enigmático e muito rico. Ele é um homem, que virou padre e depois teve sua formação como psiquiatra paga pela igreja, e o que me parece, ele leva isso como um peso. Uma dívida. Não fica claro no filme os motivos reais que o levaram a decisão de seguir essa vida, mas percebe-se que, talvez, pelas suas angústias, tenha sido uma decisão com grande peso de sua mãe. O personagem sempre angustiado, parece nos mostrar estar com sua fé abalada já há algum tempo. O demônio Pazuzu irá se aproveitar desse momento de fragilidade dele com o passar da filme.

Com os problemas de Regan se agravando, e a garota ficando cada vez mais agressiva, e estranha, a personagem pede muito da atuação de Linda Blair. Essas mudanças vão acontecendo gradativamente, e vamos ficando angustiados e assustados com algumas atitudes da personagem. Blair consegue fazer desde os trejeitos quando está possuída, quanto mudar totalmente para uma fala carinhosa, como quando o demônio encarnado nela finge ser a mãe do Padre Karras.
Junto ao talento de Blair para encarnar a menina Regan possuída, temos um metódico trabalho de maquiagem, que nos mostra seu rosto que antes era bonito, jovial e doce, se transformar em uma rosto apodrecido, cheio de cicatrizes.

O Pazuzu do romance de Blatty é diferente do Pazuzu das lendas babilocas e assírias. Se as lendas dizem que ele destruía aldeias inteiras através dos ventos fortes e tempestades que levavam consigo pragas e doenças, o demônio daqui está muito mais interessado em mexer com feridas abertas, e levar o caos as vidas de um jeito mais pessoal. Ele como um “bom” demônio, usa dos desejos, dos problemas pessoais, e muitas vezes obscuros das pessoas para criar um conflito interno, ou dependendo do ponto de vista, isso, pode também ter um cunho libertador.
Friedkin trabalhou com o uso de imagens, teoricamente, subliminares dentro do filme. Essas imagens com a imagem horrenda de Pazuzu são jogadas na tela em momentos inesperrados, e que marcam mudanças na narrativa, e são bem assustadoras. Isso, aliada ao jogo de luzes, e o trabalho de edição, nos dá a sensação de que aquilo não está dentro do filme, e sim dentro de nossas cabeças.

O Exorcista acabou sendo um sucesso de bilheteria tremendo, estando até hoje como um dos filmes mais rentáveis da história do filmes de horror. Além de ter conseguido virar uma obra atemporal, ele é constantemente lembrado quando se é falado em filmes de exorcismo. Sem sombra de dúvidas, é uma obra que até hoje mexe com nossas cabeças.