O diretor sueco Ruben Östlund (Força Maior, 2014) nos entrega uma obra de forte crítica a sociedade maniqueísta em que vivemos.

The Square – A Arte da Discórdia” (2017) faz questionamentos sobre a “elite” artística dos grandes museus, indagações sobre a arte contemporânea e sobre uma hipocrisia de uma parcela da sociedade politicamente correta, tudo isso envolta de narrativa cheia de um humor sagaz e um drama que trabalha com questões atuais para o mundo e o Brasil de hoje.

Uma dessas questões se dá por parte do núcleo chave do roteiro que se passa dentro de um museu em Estocolmo, em que tem como curador chefe, Christian (Claes Bang), que é um homem divorciado, com duas filhas e que vive seguindo uma vida em que parece ter tudo sob seu controle. Até que um belo dia, por ordem do acaso, ele se vê passado pra trás por alguns batedores de carteiras performáticos. Vemos o curador sair de sua zona de conforto, ao cair em velhos maneirismos. Seu alter ego é desconstruído depois que decide ir atrás de seu celular que foi levado no começo do filme, tudo isso de uma maneira nada madura. Sua relação com a jornalista Anne (Elizabeth Moss, maravilhosa.) que começa com uma hilária discussão sobre o valor da arte e vai crescendo nos levando à cenas míticas, e muito engraçadas, sem apelar para galhofagens.

Para alguns teóricos, estudiosos e artistas, a arte é mais que forma de expressão, é um instrumento de inclusão social, complementando o desenvolvimento de aprendizagens de outras áreas e que também pode ser usado como forma de questionamento da realidade social e política. Longe desse mundo metafísico da arte, existe um mundo superficial, que não procura questionar, e nem almeja a integração, mas sim, se aproveita e trata com desdém toda forma de questionamento. Isso é um dos pontos da ferida em que Ruben Östlund toca com seu filme.

Seu personagem, Christian, vive em um cercado do luxo e da avarezas da vida. Ele está cercado pela arquitetura luxuosa de seu apartamento e das instalações do próprio museu, seu carro luxuoso e suas roupas sobre medida. Sua função no museu alimenta esse ideário com aberturas e jantares com a mais alta elite de Estocolmo, de exposições que tem um certo teor de qualidade duvidoso. A grande relevância de algumas obras expostas e até o modo de pesquisa para definição de argumento e objetivo de “O Quadrado“, fica a uma ordem de julgamento subjetivo de sua real relevância. Como toda obra de arte de arte, e arte contemporânea em si.

Todo o desenrolar e o escândalo que se dá logo após a performance inicial da obra titulo, nos remete logo de cara ao que aconteceu aqui em nosso quintal no ano de 2016. Quando setores conservadores fizeram protestos contra a exposição do Queermuseu e a performance artística no MAM. E logo em seguida, fazendo o MASP restringir a entrada de menores de 18 anos à exposição “Historias da Sexualidade”.

A cena que mostra a performance do artista Oleg (Terry Notary) em que ele imita um macaco durante um jantar de gala com a mais alta sociedade sueca, já é uma das cenas mais antológicas que eu vi no cinema nos últimos anos. No fim, a performance de Oleg corrobora a mensagem que Ruben Östlund quer passar e tem muito a nos dizer de nossa natureza e também da imagem que queremos passar em nossa bolha social. Ela também conversa com a narrativa em que o filme vinha construindo ao longo de sua projeção, e alimenta a certeza que no final de tudo, somos meros animais domesticados e educados a sermos charlatões e egocêntricos.

Título Original: The Square
Direção: Ruben Östlund
Roteiro: Ruben Östlund
Elenco: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Terry Notary, Christopher Læssø, Marina Schiptjenko, Elijandro Edouard, Daniel Hallberg, Martin Sööder, Sofie Hamilton
Fotografia: Fredrik Wenzel
Produção: Philippe Bober, Erik Hemmendorff
País: Suécia
Ano: 2017
Duração: 142 minutos
Estreia: 04/01/2018
Distribuição no Brasil: Pandora Filmes

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima

Avaliação
  • 9.5/10
    The Square - A Arte da Discórdia (2017), de Ruben Östlund - 9.5/10
9.5/10

Resumo

“The Square”, novo filme de Ruben Östlund, quer nos transmitir, no geral, uma reflexão sobre a nossa natureza e também da imagem que queremos passar em nossa bolha social. Usando de pano de fundo o mundo da arte, expondo seus arquétipos com um deboche muito bem elaborado.