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Interessante observar como os dois longas brasileiros que foram exibidos em Cannes esse ano dialogam entre si; “Aquarius” (2016), de Kleber Mendonça Filho e “Cinema Novo” (2016) de Eryk Rocha usam de elementos da história do cinema para criar um olhar do presente com reflexões para o futuro. Se no primeiro filme citado, Kleber resgata Sonia Braga, grande estrela do nosso cinema, para protagonizar uma história com uma denúncia social muito contemporânea, em “Cinema Novo“, Eryk embarca num movimento cinematográfico muito importante para também fazer um paralelo com os dias de hoje em relação a política.

O filme se inicia com a clássica cena final de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) onde Manuel (Geraldo Del Rey) e Rosa (Yoná Magalhães) correm desesperadamente para um futuro incerto. E numa montagem ágil, Eryk mescla cenas de vários filmes do cinema novo que dão continuidade a esse sentimento de movimento e deslocamento que a cena de Manuel e Rosa transmite. E já nesse início percebemos o tom do filme, que é repleto de alegorias, com uma montagem esplendorosa, assim como todo o desenho de som que o filme possui.

Um filme que leva no título um dos movimentos cinematográficos mais importantes do mundo já possui um peso por si só, e num primeiro momento pensamos que um documentário sobre tal movimento teria que ser algo didático, que apresentaria ao público toda a complexidade dos filmes daquela época e de seus cineastas, além de fazer uma linha cronológica de narrativa e contextualizar toda a situação social e política do país naquele período, isso seria o mais óbvio a ser feito, mas felizmente Eryk vai por um outro caminho. A proposta aqui não é de fazer um filme sobre o cinema novo, mas sim um filme com o cinema novo.

É interessante apontar também, que Eryk mais uma vez opta por não ir para um lado academicista e masturbatório sobre o cinema novo e principalmente sobre a figura de Glauber Rocha, que em momento algum toma o filme pra si, como poderia se esperar numa obra como essa. Mas o filme em momento nenhum deixa o seu espectador perdido em meio às cenas, há sim uma contextualização um tanto quanto pontual por parte dos realizadores, onde vemos entrevistas e depoimentos em off de cineastas como Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Glauber Rocha, Ruy Guerra e Leon Hirszman, só pra citar alguns nomes. Os depoimentos não só situam o espectador como também servem para os cineastas falarem de seus filmes e também sobre as suas visões referentes ao cinema novo, e é esse o importante valor histórico que o filme possui, podemos ver Glauber, por exemplo, falar da importância de Humberto Mauro para o cinema autoral nacional, assim como as reflexões levantadas sobre a importante luta para distribuir os filmes do cinema novo através da Difilm. E o filme também faz questão de lembrar de “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, no qual venceu a Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes e que infelizmente acabou sendo esquecido pelos cinemanovistas, Anselmo inclusive sempre dizia que o cinema novo tinha o jogado pra escanteio; e é muito importante ver que Eryk compreende que Anselmo também teve relevância para o cinema autoral brasileiro citando-o no filme.

Cinema Novo” é uma força fílmica totalmente independente do assunto que ele aborda, isso fica claro em toda a sua montagem. Em certo momento numa entrevista, Joaquim Pedro de Andrade fala que seu filme “O Padre e a Moça” (1966) possui quadros muito fechados e é um filme praticamente estático, e para ilustrar essa fala Eryk usa uma cena do filme que possui um plano aberto e que a câmera se movimenta, reforçando o tom autoral de sua obra. Embora o filme se aproprie das cenas das obras que ele quer retratar, ele também sabe respeitar as sua origens, pois todas as janelas dos filmes retratados foram mantidas em seu aspecto original, nada foi mutilado para tentar criar uma unidade visual nas cenas do documentário, o que é muito louvável.

O filme todo é composto por imagens de arquivo, o que talvez o colocaria dentro do movimento Dogma 2002, criado pelo cineasta Marcos Bertoni, no qual propõem que a obra não se filma, mas sim se recicla. E a montagem de “Cinema Novo” estabelece brincadeiras interessantes, como criar plano e contra plano de filmes distintos e fazer rimas visuais com cenas de também filmes distintos. Mas a montagem do filme não caminha sozinha, todo o trabalho de som do filme é maravilhoso e assim como as brincadeiras que a montagem faz de misturas cenas de vários filmes, o áudio também faz isso e talvez vá mais além, pois ele é a espinha dorsal de toda a obra, praticamente um guia de toda essa viagem visual.

Cinema Novo” não só faz um resgate de um movimento cinematográfico, ele usa de depoimentos para falar da nossa situação política atual, o que deixa a obra com um ar de horror quando fazemos essa reflexão, pois após cinquenta anos estamos ainda presos a situações que cada vez mais se assemelham as de 1964, o imperialismo americano está cada vez mais forte e a cultura brasileira é cada vez mais engolida por grandes corporações estrangeiras que enfiam qualquer arte enlatada nas cabeças das pessoas. As falas totalmente lúcidas de Leon Hirszman no filme exemplificam muito isso.

Mas apesar disso, o filme termina com uma mensagem otimista e numa ótima rima estrutural que volta ao seu começo e nos mostra personagens correndo, num movimento constante. Se no início Eryk queria nos transmitir uma ideia de que o cinema novo se movimentava e buscava algo tal como seus personagens, no fim a sugestão é de que o cinema novo ainda existe e está vivo junto com seus questionamentos e suas ideias, e assim como Manuel e Rosa, o povo brasileiro corre desesperadamente em direção ao desconhecido, embora isso soe desesperador, precisamos ter em mente que é importante seguirmos firmes nos movimentando e lutando por um futuro melhor.

Vale ressaltar também a linda homenagem que o filme faz ao apresentar os cineastas com os créditos originais de seus filmes, mostrando que apesar do filme ter sido dirigido por Eryk Rocha, ele é também uma obra conjunta, uma obra de toda uma geração que pensava muito fortemente sobre o ato de fazer cinema e como através da sétima também se fazer política. No fim, “Cinema Novo” é sobretudo um filme político, que foi concebido num momento conturbado e que olha para o passado para nos deixar uma mensagem para o futuro, que ao meu ver é totalmente otimista.

*Filme assistido durante a 40° edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Direção: Eryk Rocha
Roteiro: Eryk Rocha
Elenco: Nelson Pereira dos Santos, Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Ruy Guerra, Arnaldo Jabor, Gustavo Dahl, Walter Lima Jr. e Luiz Carlos Barreto
País: Brasil
Ano: 2016
Duração: 90 minutos

Avaliação
  • 9.5/10
    Cinema Novo (2016), de Eryk Rocha - 9.5/10
9.5/10

Resumo

“Cinema Novo” é um filme corajoso em sua linguagem e em sua proposta, aqui Eryk Rocha nos brinda com uma obra autoral sobre um importante movimento cinematográfico e faz paralelos entre a situação política e cultural do país naquele período com a que vivenciamos hoje. A montagem do filme e seu desenho de som é o seu grande trunfo e proporciona ao espectador uma viagem visual totalmente estimulante.