um-dia-na-vida_t60582_jpg_290x478_upscale_q90Nessa semana se completou um ano da morte do documentarista Eduardo Coutinho, que deixou uma obra repleta de questionamentos sobre a alma humana e a sociedade. E esse filme, que foi realizado em 2010, além das reflexões propostas, também é um trabalho diferenciado na linguagem cinematográfica. A proposta de “Um Dia na Vida” (2010) é bem simples, pois o filme nos mostra um dia na programação da televisão brasileira, registrando por 19 horas os programas dos canais abertos, como Bandeirantes, CNT, Globo, MTV, Record, Rede TV, SBT e TV Brasil.

O resultado final é uma tortura, mas mesmo assim muito menor do que seria ver essa programação por 19 horas ininterruptas. Mas o interessante em “Um Dia na Vida” é como a montagem é levada, pois começamos com a TV Brasil exibindo um curso de inglês às 6:50 da manhã, que por mais educativo que seja o programa é terrível, e assim a programação vai seguindo, com zapeadas pelos canais. Passamos pelo desenho animado, programas sensacionalistas, programas voltados para donas de casa e horários comprados, como programas de venda e de igrejas. A ideia de Coutinho era não usar um dia com grandes acontecimentos e sim mostrar o que seria uma programação normal da televisão brasileira.

Coutinho também abre mão de qualquer narração ou julgamento sobre a programação, o que vemos em “Um Dia na Vida” é praticamente um documentário de observação, onde só é mostrado o horário que o programa estava sendo exibido e nada mais. Então, Coutinho deixa de ser a voz questionadora, como de costume, e passa ser um observador, como o espectador.

Além da linguagem do filme que é o ponto chave, “Um Dia na Vida” propõe uma reflexão sobre o que estamos acostumados a assistir na televisão, sem colocar em questão se o meio de comunicação é ruim ou não, mas sim o que é transmitido através dele. Somos empurrados goela abaixo programas sensacionalistas na hora do almoço, que servem pra instalar o pânico na população, temos publicidade infantil sendo jogada a todo momento na tela e, talvez, o mais bizarro são os programas religiosos que ocupam grande parte da programação, o que é deveras assustador, pois o alcance que esses programas possuem são grandiosos e ver pessoas que se dizem a favor do povo como Valdomiro Santiago, falando por horas a fio sobre fé como se fosse mercadoria, é mais uma vez, assustador, tanto que ele não entrou no filme, pois Coutinho achou o seu programa repugnante, mas outros programas como esse estão presentes no documentário. Por conta dos programas religiosos a gravação terminou antes das 24 horas, pois o filme acabaria ficando repetitivo, já que a programação da madrugada é dominada por programas religiosos sensacionalistas.

Um Dia na Vida” só foi exibido em alguns festivais e com sessões gratuitas por conta dos direitos autorais, pois seria impossível colocar um filme como esse em circuito comercial, devido ao grande número de programas registrados aqui, mas hoje o filme é facilmente encontrado na internet.

No final ficamos com a impressão que assistimos um filme longo, que talvez assistimos as 19 horas da gravação bruta, mas só se passaram 90 minutos. O que se leva de positivo é uma reflexão sobre o que a programação da televisão aberta nos proporciona e o quanto isso é prejudicial para o povo.