La La Land – Cantando Estações” (2016) veio construindo sua sólida carreira desde quando foi exibido na abertura do Festival Internacional de Cinema de Veneza de 2016, ganhando inúmeros elogios desde então, e agora que finalmente o longa entrou em cartaz nos cinemas brasileiros podemos afirmar que o filme faz jus a tais elogios e é um dos melhores musicais dos últimos anos.

O filme é dirigido e escrito por Damien Chazelle, que já provou ser um grande admirador de música no seu trabalho anterior, em “Whiplash: Em Busca da Perfeição” (2014). Aqui, em “La La Land – Cantando Estações“, Chazelle volta ao jazz para nos contar uma história mágica, de sonhos e desafios. Na trama acompanhamos Sebastian (Ryan Gosling), um pianista de jazz bastante purista, que almeja abrir um clube para resgatar a essência do estilo musical que teve seu auge entre as décadas de 1920 e 1960. Em meio a frustrações por onde tocava, ele acaba conhecendo Mia (Emma Stone), uma garçonete que sonha em ser uma atriz de sucesso. E a partir desse encontro os dois se aproximam, se apaixonam e juntos se dedicam para alcançarem seus objetivos, sempre contanto um com a ajuda do outro.

Como o título sugere, o filme se passa na ensolarada Los Angeles, que é praticamente uma terceira personagem da história. Na primeira cena já vemos como a cidade será usada, como um grande palco, não só para os números musicais dos protagonistas, mas também como um lugar repleto de esperança. Toda a cinematografia traz cores vivas, que refletem no espírito do filme, Chazelle usa muito de planos abertos quando os personagens estão pela cidade, o que mostra toda a grandiosidade de Los Angeles com suas cores, e também planos conjunto para mostrar as locações combinadas com as cores dos figurinos, deixando o filme visualmente muito elaborado e passando para o espectador um aspecto bastante mágico e também de leveza.

A premissa do filme é bastante clichê, mas a narrativa que é adotada foge do habitual. Se no número musical do prólogo temos uma grande cena com várias pessoas cantando, grandiosas coreografias elaboradas e uma música crescente, não é o que veremos ao decorrer da projeção, pois o filme vai na contra-mão dos grandiosos musicais e entrega algo íntimo, subvertendo toda uma narrativa já habitual de filmes do gênero e até do que ele próprio apresentou em sua primeira cena, que vale dizer que é muito bem fotografada num plano sequência de encher os olhos.

Toda a trama é dividida em estações do ano (o que explica tal subtítulo no título do filme no Brasil), fazendo paralelos com os momentos que os personagens vivem. O que nos remete aos clássicos do cinema de Hollywood, que marcavam as transições dos atos através de letreiros. Mas as referências ao cinema clássico vão além disso, o filme brinca com algumas rimas visuais e também nos remetendo aos clássicos através de sua edição e sua montagem, que também deixa o filme com um ritmo muito fluído. 

Mas o filme funciona também por conta da química de GoslingStone, os dois estão ótimos em seus respectivos personagens, não somente nos números musicais, que são essenciais para um musical funcionar, mas também nos momentos mais intimistas, onde a cena necessita de uma carga dramática maior nos diálogos. Como dito anteriormente, os dois personagens se completam e motivam um ao outro para que vão em busca de seus sonhos, por mais distante que pareçam. Mia participa de várias audições, mas todas sem resultado, enquanto Sebastian toca em grupos que não despertam nele o verdadeiro tesão da música que ama. Em determinado momento da trama, Sebastian se vê coagido por ele mesmo a ter um emprego fixo e começa a tocar num grupo de um colega que possui uma proposta diferente do jazz clássico, misturando elementos musicais para deixar a sonoridade mais moderna. E é nesse sentimento que Chazelle leva seu filme, mas assim como Sebastian vê o jazz, Chazelle vê os musicais e sua obra; ele propõe algo diferente, mas no fim ele retorna aos clássicos e os reverencia.

As músicas do filme são ótimas, as composições de Justin Hurwitz são bastante emblemáticas, cada tema marca um ponto do filme, que é muito bem explorado na cena final. Hurwitz repete aqui o ótimo trabalho feito em “Whiplash: Em Busca da Perfeição“, criando canções apaixonantes, como o caso da música “City of Stars“, que evoca um sentimento apaixonante no espectador. Mas mesmo assim o filme não possui tantos números musicais como era de se esperar, em alguns momentos ele prefere ser pé no chão, principalmente quando surgem os conflitos, e é então que as cores vibrantes desaparecem e a cidade deixa de ter um tom otimista e passa a ser mais cinza, mais rude. O que acaba dando uma importância maior ainda aos momentos do filme onde a música toma conta, pois elas são chave na narrativa do filme e refletem os momentos mais singelos e eufóricos dos protagonistas.

Se toda a narrativa do filme foge um pouco do convencional do gênero, o seu final vai nessa mesma toada, trazendo uma resolução corajosa e que deixa o especador com um sentimento agridoce. Mas em momento nenhum tal escolha parece forçada ou aleatória, pois é a partir de uma determinada situação que o filme nos entrega a sua cena mais linda, que não só reconstrói toda a trajetória dos protagonistas como passeia pela história do cinema musical. E no fim, ficamos ainda deslumbrados, com aquele sentimento mágico que a obra nos transmitiu a todo momento, que acaba se misturando com um aspecto palpável que poucos musicais conseguem atingir.

No fim, “La La Land – Cantando Estações” é um filme leve, otimista e cativante. A escolha de fazer uma obra com cenas mais intimistas funciona muito bem, pois nos concentramos no casal de protagonistas, que seguram o filme muito bem, sendo nos números musicais ou não. Toda a narrativa que subverte os moldes dos musicais clássicos é bem arriscada, mas traz um refresco no gênero e deixa o filme com um ótimo ritmo, mas ele também não deixa de homenagear as grandes obras do gênero, soando em vários momentos como um filme nostálgico, o que não é demérito para a obra, que sabe sempre aonde quer chegar. O filme também é tecnicamente impecável, Chazelle consegue evocar o espírito afetivo de uma cidade que serve como palco para dois personagens sonharem.

Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Damien Chazelle
Elenco: Emma Stone, J. K. Simmons, John Legend, Rosemarie DeWitt, Ryan Gosling, Anna Chazelle, Bobo Chang, Callie Hernandez, Claudine Claudio, Courtney Hart, Damon Gupton, David Douglas, Dempsey Pappion, Finn Wittrock, Hemky Madera, Jason Fuchs, Jessica Rothe, Jordan Ray Fox, Josh Pence, Meagen Fay, Miles Anderson, Olivia Hamilton, Sonoya Mizuno, Terry Walters, Tom Everett Scott, Trevor Lissauer, Valarie Rae Miller e Zoë Hall.
País: Estados Unidos da América
Ano: 2016
Duração: 128 minutos