O cinema é inquestionavelmente rico em suas formas de contar histórias, mas por mais rico que a arte cinematográfica seja ela ainda possui alguns vícios, o que se reflete na recepção do público em determinadas obras. Um dos vícios mais enraizados no cinema é o tema que o filme aborda, onde por muitas das vezes uma obra só é válida à partir de um tema que ela queira retratar, e mesmo quando um filme quer passar por cima disso, nós quanto espectadores procuramos um tema para defini-lo, como por exemplo o título dessa crítica, que talvez queira resumir uma obra em poucos adjetivos, mas o fato é que “Paterson” (2016), novo filme de Jim Jarmusch, se preocupa mais em retratar o prosaico do que outra coisa, qualquer desdobramento ou leitura que possamos fazer do filme é à partir disso.

No filme acompanhamos a vida do jovem Paterson (Adam Driver) durante uma semana. Paterson é um motorista de ônibus numa cidade que coincidentemente também se chama Paterson, situada em Nova Jerseye, onde ele vive tranquilamente com sua esposa Laura (Golshifteh Farahani) e seu cachorro. E assim vamos acompanhando sua rotina, dia após dia.

Jarmusch faz questão de evidenciar aqui uma rotina com movimentos mecânicos, os quadros são os mesmos usados para mostrar cenas que se repetem ao longo da semana. Paterson acorda por volta das 6 da manhã todos os dias da semana, toma o seu café, vai para o trabalho, faz o seu caminho de volta para casa andando, confere a caixa de correios, janta com sua esposa, conversa sobre trivialidades, sai com o cachorro para passear e termina seu dia tomando uma cerveja num pub. Mas o que o filme quer nos transmitir está nas pequenas coisas do cotidiano e como essas coisas enriquecem nossos afazeres diários. Pois, Paterson além de ser um motorista de ônibus, ele também escreve pequenos poemas e qualquer coisa que chama sua atenção pode virar inspiração para seus versos, e como o filme se lança nesses pequenos mundos que são criados à partir de um olhar de uma pessoa comum faz toda a diferença. Logo no início vemos Paterson olhando atentamente a caixinha de fósforos ao tomar o café da manhã em sua cozinha, na sequência já o vemos escrevendo os primeiros versos que vieram ao observar essa mesma caixinha de fósforos. E o filme acerta em colocar os letreiros com esses versos na tela com a própria grafia do protagonista e também com uma narração em off do mesmo, o que aproxima mais ainda o personagem do espectador. E essa se torna a narrativa do filme, dando importância para pequenos momentos que servem de inspiração para Paterson escrever os seus poemas, se contrapondo ao que poderia soar banal em sua vida.

A relação de Paterson com sua esposa às vezes soa demasiadamente mecânica, claro que essa é a intenção do filme, mas a maneira como ele age em relação a sua companheira chega a ser absurdamente artificial em alguns momentos. Seria um mérito se o filme não tentasse usar a personagem de Laura como um alívio cômico a todo momento, pois o cachorro deles já faz essa função na trama e não precisaria resumir uma personagem com ótimas características para um simples escape cômico. Nos primeiros momentos vemos a personagem de Laura como uma mulher sonhadora, que gosta de artes e de produzir suas coisas, como artesanato e cupcakes por exemplo, e além disso ela também incentiva o seu marido a continuar escrevendo e até mesmo a fazer cópias de seus poemas para quem sabe publicá-los num futuro, mas ao longo da projeção o filme vai a transformando em uma caricatura dela mesma, chegando ao ponto onde tenta se criar momentos cômicos somente em observações aos trejeitos da personagem. E isso não é um problema de atuação, é um problema de desenvolvimento de personagem e de roteiro, que desperdiça uma personagem que poderia ser rica e que acrescentaria mais à obra.

Mas para balancear os tropeços que o filme dá em relação a Laura, Paterson possui um charme bastante peculiar, pois ele vai dá total empatia ao carisma completo rapidamente, carregando o filme de uma forma excelente. O personagem de Adam Driver é muito cativante e o espectador se encanta facilmente com a sua sensibilidade para com o mundo, o que traz ao filme um tom de leveza bastante apurado, fato que também se reflete nas cores do filme, no qual em momentos mais rotineiros elas se mostram frias, mas nos momentos de inspiração do protagonista se mostram mais vivas. Fazendo assim, que a cinematografia trabalhe em relação aos sentimentos de seus personagens.

A narrativa flui muito bem durante toda a sua projeção, e isso sem uma grande reviravolta, embora aconteça um rápido incidente no filme, nada toma proporções épicas. O que pode decepcionar os espectadores mais viciados nos maneirismos do cinemão americano, pois aqui não há uma estrutura habitual em três atos e com pontos de virada, onde tudo culmina num final resolutivo. O filme subverte isso e vai mais além na sua abordagem.

E o fascinante nessa abordagem que Jim Jarmusch adotou, é fazer o espectador encontrar o belo no simples e nas pequenas coisas que passam por nós desapercebidos, onde isso é cada vez mais forte num mundo cada dia mais dinâmico e sedento por informação. Não é à toa que o protagonista não possui celular, e o filme pontua isso em diversos momentos, pois é à partir das percepções de Paterson que vamos nos conectar a um outro mundo, um mundo mais palpável aos olhos nu e a um mundo onde o banal pode tomar uma forma poética.

*Filme assistido durante a 40° edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Direção: Jim Jarmusch
Roteiro: Jim Jarmusch
Elenco: Adam Driver, Golshifteh Farahani, Helen-Jean Arthur, Owen Asztalos, Kacey Cockett, Luis Da Silva Jr., Jared Gilman, Chasten Harmon, William Jackson Harper, Frank Harts, Kara Hayward, Barry Shabaka Henley, Sterling Jerins, Joan Kendall, Dominic Liriano, Johnnie Mae, Rizwan Manji, Brian McCarthy, Method Man, Jaden Michael, Sophia Muller, Masatoshi Nagase, Nellie, Trevor Parham, Troy T. Parham, James Van Treuren, Martin Van Treuren e Jorge Vega
País: Estados Unidos da América
Ano: 2016
Duração: 113 minutos
Estreia: 20/4/2017
Distribuidora: Fênix Filmes

Avaliação
  • 9/10
    Paterson (2016), de Jim Jarmusch - 9/10
9/10

Resumo

“Paterson” (2016) é um filme sobre o prosaico e o ato de transformar coisas banais do cotidiano em criação, mostrando que o processo criativo está nos detalhes. E, embora o filme tropece em alguns momentos tornando os personagens bastante caricatos, ele é eficaz em nos mostrar a beleza das pequenas coisas do nosso dia a dia.