A cineasta estadunidense Ava DuVernay possui obras notórias em sua filmografia, como “Selma: Uma Luta Pela Igualdade” (2014) e “A 13ª Emenda” (2016), filmes que alcançaram algum destaque comercial e que carregam consigo um forte aspecto político, pautados em questões raciais. O seu mais recente longa, “Uma Dobra no Tempo” (A Wrinkle in Time, 2018), possui alguns elementos característicos de sua assinatura, mesmo que sutis, mas o foco nesta nova aventura da Disney é a jornada fantástica de seus personagens, o que acaba deixando a desejar.

Na trama, baseada no livro homônimo da escritora Madeleine L’Engle, acompanhamos a jovem Meg (Storm Reid) e seu irmão Charles (Deric McCabe), que com ajuda de misteriosas figuras, partem em busca de seu pai desaparecido (Chris Pine), numa jornada que passará por diferentes lugares do universo.

O filme é claramente voltado ao público infanto-juvenil, com um aspecto lúdico importante para que a obra tenha um mínimo de consistência dentro de sua narrativa, mas o que sempre vemos é a proposta ficando aquém da execução, e o que poderia ser uma jornada cativante e repleta de desafios torna-se uma aventura vazia de emoções e que a todo momento reforça seu didatismo acerca de seu tema principal.

No primeiro ato do filme conhecemos a rotina da protagonista, que desde que seu pai desapareceu, possui cada vez mais problemas para se relacionar com as pessoas, fechando-se num mundo bastante solitário, mesmo contando com a presença de seu irmão mais novo, que através de sua inocência e compaixão, tenta guiar sua irmã para um caminho mais feliz, além de mostrá-la que é necessário continuar mantendo as esperanças. Enquanto isso, a mãe dos personagens, a Dr. Kate Murr (Gugu Mbatha-Raw), se equilibra entre os cuidados com as crianças e a fé de que o marido um dia retornará após o seu misterioso desaparecimento, que já fazem quatro anos. Tais conceitos entre as relações entre esses personagens são até bem estabelecidos. Embora o roteiro dê o mínimo de suporte para isso, as atuações parecem não acompanhar a mesma linha, começando pela protagonista, que não entrega nada além do que suas falas, sem profundidade e sem carisma algum.

O elenco principal é totalmente problemático, enquanto a protagonista não consegue extrair muitos sentimentos, os coadjuvantes são mais desinteressantes ainda, o irmão da personagem principal faz uma espécie de garoto esperto, mas as suas falas são tão elaboradas que acaba afastando a criança que mora ali. Mas o pior exemplo é do de Calvin (Levi Miller), um colega que, sem mais nem menos, se junta aos irmãos em sua jornada de busca. De longe esse é o personagem que mais sofre com o frágil roteiro do filme, pois, além de não dizer a que veio, o personagem, sem profundidade, parece sobrar durante a trama, e as suas frases de efeito completamente sisudas o tornam extremamente desinteressante, sem contar a falta de carisma do ator.

O filme possui poucos momentos louváveis, mas que precisam ser destacados, tal como a inserção fantástica num mundo real. A quebra de perspectiva favorece o longa e cria uma camada lúdica que encanta em alguns momentos. De início, quando as misteriosas personagens surgem, a Mrs. Who (Mindy Kaling), a Mrs. Whatsit (Reese Witherspoon) e a Mrs. Which (Oprah Winfrey), o filme ganha um certo fôlego, a começar pelo incrível figurino das personagens que chamam a atenção e que possuem lindas cores vivas, contrastando com o que a cinematografia havia explorado até então. Outro aspecto que insere energia ao filme é a primeira sequência em que os personagens partem para o universo, os planos gerais dão bastante valor para o ambiente novo que rodeia os personagens, dando ao espectador a necessária curiosidade em explorar cada canto daquele planeta, esperando assim, um universo rico em diversidade e fantasia, como o vivenciado nessa sequência, em específico.

Mas, tal como sofre o filme no geral, nada é aprofundado o suficiente, e até mesmo o universo fantástico, que a princípio mostra-se promissor, acaba tornando-se repetitivo e nada inspirador, o que deixa a jornada dos personagens ainda mais enfadonha. Nem a presença pontual de alguns personagens que pertencem ao universo do filme cativam o suficiente, como por exemplo Happy Medium (Zach Galifianakis), que insere um humor que nunca chega.

Uma Dobra no Tempo” é um filme repleto de boas intenções, mas que em sua maioria morrem na intenção. É extremamente válido a inserção de personagens negros importantes, tal como a protagonista, mas infelizmente são personagens sem substância, rasos e desinteressantes. O filme ainda martela a todo momento a sua carga motivacional, tirando-o de uma possível sutileza. O que resta para apreciação são alguns momentos visuais deslumbrantes, a imponência das personagens de WitherspoonKalingOprah e alguns poucos acertos na cinematografia. Mas infelizmente o filme é demasiadamente cansativo para ser uma ótima aventura, falta carisma, humor, fantasia e, principalmente, substância. Não adianta discursar sobre o amor quando a própria obra carece de sentimentos.

Título Original: A Wrinkle in Time
Direção: Ava DuVernay
Roteiro: Jennifer Lee e Jeff Stockwell (Baseado na obra de Madeleine L’Engle)
Elenco: Storm Reid, Oprah Winfrey, Reese Witherspoon, Mindy Kaling, Levi Miller, Deric McCabe, Chris Pine, Gugu Mbatha-Raw, Zach Galifianakis, Michael Peña, André Holland, Rowan Blanchard, Bellamy Young, David Oyelowo, Conrad Roberts
Fotografia: Tobias A. Schliessler
Produção: Jim Whitaker
País: Estados Unidos da América
Ano: 2018 Duração: 109 minutos
Estreia: 29/03/2018
Distribuição no Brasil: Disney

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima