Desde os primórdios o cinema possui a capacidade de nos transportar para outras realidades. O lúdico sempre acompanhou a sétima arte, vide obras pioneiras como as da cineasta Alice Guy Blaché (1873-1968) e de Georges Méliès (1861-1938), que injetaram a narrativa ficcional e o fantástico na arte cinematográfica. Desde então o cinema nos apresentou inúmeros universos fantásticos que encantam aos olhos, como é o caso de “Valerian e a Cidade dos Mil Planetas” (Valerian and the City of a Thousand Planets, 2017), de Luc Besson, cineasta francês e conterrâneo dos realizadores citados anteriormente.

Em “Valerian e a Cidade dos Mil Planetas“, adaptação da HQ “Valerian: O Agente Espaço-Temporal”, de Pierre Christin, Jean-Claude Mézières e Évelyne Tranlé, acompanhamos a história de Valerian (Dane DeHaan) e Laureline (Cara Delevingne), uma dupla de agentes espaciais encarregados de manter a ordem em todos os territórios humanos no século 28.

O filme, desde seus créditos iniciais, já se apresenta grandioso. Ele se inicia com imagens de arquivos, mostrando os primeiros passos da humanidade na exploração espacial. Mas, o que antes era imagem de arquivo, se torna uma viagem através dos séculos, numa montagem bastante funcional que serve para ambientar o universo que o filme se passa, além de nos mostrar o aspecto de respeito entre a humanidade e os outros seres da galáxia. Com certeza é uma cena inicial que empolga e instiga, pois ao inserir a música “Space Oddity“, de David Bowie e, depois de aumentar a sua razão de aspecto, o filme nos joga numa viagem intergalática visualmente promissora e imersiva.

E a sensação de imersão é totalmente reforçada na primeira sequência do filme, onde somos levados ao lindo planeta Mül, na qual vivem em harmonia a raça dos Pearls. O planeta nos é apresentado através dos olhos da princesa Lïhio-Minaa (Sasha Luss), que além de servir como uma personagem guia para o espectador para nos mostrar as deslumbrantes paisagens paradisíacas de Mül, também nos apresenta a cultura de seu povo. E a inteligente decisão de Besson em não utilizar legendas para traduzir os diálogos desse povo nos faz criar mais interesse por aquele mundo. A nossa posição quanto espectador se revela como curiosos, que anseiam conhecer mais daquele lindo ambiente.

E, tratando-se do aspecto visual do filme, “Valerian e a Cidade dos Mil Planetas” é fascinante. A computação gráfica consegue criar um universo cheio de texturas, vivo em cores e incrivelmente palpável. Por conta disso, também, não precisamos de muito tempo para criar uma empatia com os Pearls, onde, mesmo sem proferir uma palavra que possamos entender, nos revelam sentimentos tão verdadeiros que quase esquecemos que todo aquele planeta, assim como todo o povo, foi criado totalmente por computação gráfica. Sem dúvidas que essa é uma das sequência mais forte do filme, o que nos faz querer mais do que a obra pode nos proporcionar nesse sentido, vinda de um design de produção encantador.

Mas, infelizmente, após a encantadora sequência no planeta Mül, o filme começa a se tornar irregular e, logo de cara, quando conhecemos ValerianLaureline, percebemos que dificilmente o filme se manterá com o carisma apresentado na sequência anterior, isso graças a clara antipatia gerada pelos personagens e por um vindouro romance, que que de início tenta se estabelecer, mas que não convence. Aliás, os personagens não convencem nem como agentes espaciais e muito menos como um casal promissor, o que acaba deixando toda a trajetória de ambos bastante desinteressante.

O protagonista, interpretado por Dane DeHaan, possui uma personalidade aspirante a canastrona, o que de longe chega a ser alcançada. Apesar de parecer se divertir durante a trama, o ator não nos entrega nada além do alguns trejeitos bem caricatos. Enquanto isso, Cara Delevingne consegue se mostrar mais apática ainda do que DeHaan. Embora sua personagem possua momentos que aparentemente irão fazê-la evoluir, a atuação de Delevingne as boicota, que também é corroborada por um roteiro falho em vários aspectos. Os personagens são tão desinteressantes que até mesmo nos momentos de perigo, nós não nos importamos com eles, o que é um problema grave quando o filme se trata de uma aventura e os personagens passarão por difíceis provações ao decorrer de suas jornadas.

O primeiro ato do filme é o que mais funciona, pois mesmo com personagens desinteressantes, ele funciona ao estabelecer o universo e ao apresentar alguns conceitos interessantes. Como é o caso da sequência do Grande Mercado, que através da narrativa consegue resolver visualmente um conceito aparentemente complexo de dimensões, além de também mostrar pela primeira vez os personagens em ação. E o filme funciona muito bem quando ele resolve explorar o universo a sua volta, com os diferentes ambientes e as diferentes raças, que evidenciam o poder visual da obra, mostrando o porquê o seu material fonte também inspirou a criação do universo de Star Wars, concebido por George Lucas.

Fechando o aspecto visual do filme, é importante ressaltar a utilização do 3D, que deveria servir como uma tecnologia de imersão, não é devidamente aproveitada na obra. Claro que, nos momentos em que o filme usa de planos gerais e quando a sua profundidade de campo é grande, o efeito do 3D salta aos olhos e o objetivo de entrar naquele universo é claramente alcançado, mas infelizmente esses momentos não acontecem com frequência durante a sua narrativa e o 3D acaba se tornando cansativo durante a projeção. Apesar de Luc Besson usar a tecnologia de uma forma melhor do que outras grandes produções, claramente, o 3D ainda não foi usado de uma forma que sirva totalmente a linguagem cinematográfica.

O segundo ato do filme é demasiadamente esticado, as situações demoram a se resolver e pior ainda, surge uma sequência totalmente episódica de que nada serve para o andamento da trama senão tentar dar sentido ao vindouro romance dos personagens principais. E, embora, seja uma aventura que, assim como a da cena do Grande Mercado, que é repleta de seres interessantes de se ver, a ação é vazia, porque seus personagens são vazios, mas com uma leve ressalva para Bubble (Rihanna), que mesmo rapidamente, possui uma pequena construção de personagem.

E no que se refere a Bubble, que possui a capacidade de se transformar em outros seres, é inserida numa cena visualmente bastante interessante. Nela, Bubble apresenta um número de dança e, quando a personagem é interpretada por Rihanna, o filme chega até a ganhar uma outra áurea, pois a falta de carisma de DeHaan é engolida pela presença da cantora. Infelizmente a sua participação serve somente para tentar dar um ar dramático à trama, o que acaba também ficando somente na promessa, pois, novamente, o casal protagonista não consegue responder a carga dramática estabelecida e a sequência que antes parecia ser somente episódica, acaba se tornando verdadeiramente episódica, com os personagens saindo das situações da mesma forma que entraram, sem um claro crescimento.

O terceiro ato é uma completa bagunça narrativa. São inseridos flashbacks e a montagem nos mostra o que já sabíamos, a reviravolta é totalmente previsível e o conceito temático que o filme tenta criar acaba morrendo no próprio discurso de seus personagens. A batalha final também sofre dos mesmos problemas das anteriores do filme, tornando-se vazia. E o mais curioso nessa cena é que acabamos nos importando muito mais com os Pearls do que com ValerianLaureline, o que deixa novamente óbvio o problema de roteiro e de elenco que o filme possui.

Como se não bastasse toda a confusão que se cria no ato final, o filme ainda tenta jogar uma moral que falha ao tentar ser aprofundada. O conceito de que todos os seres do universo precisam de empatia e que a ganância pode acabar destruindo povos e culturas, não consegue convencer quando a empatia falta ao seu protagonista. Em teoria é um bom discurso, clichê, mas ainda assim um bom discurso, mas que morre em sua execução, o que deixa toda a trajetória do protagonista (novamente) vazia.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas” se mostra promissor em seu início, mas, no fim, o que se salva é a sua fantástica cinematografia, que cria mundos, seres e culturas, e é de fato um trabalho de encher os olhos tamanho o esmero visual. Pena toda essa riqueza visual servir de fundo para uma história tão rasa em sua execução, e que leva personagens tão desinteressantes.

Título Original: Valerian and the City of a Thousand Planets
Direção
: Luc Besson
Roteiro: Luc Besson (Adaptado da HQ “Valerian: O Agente Espaço-Temporal”, de Pierre Christin, Jean-Claude Mézières e Évelyne Tranlé)
Elenco: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, John Goodman, Herbie Hancock, Rutger Hauer, Kris Wu
Fotografia: Thierry Arbogast
Produção: Luc Besson, Virginie Besson-Silla, Camille Courau
País: França
Ano: 2017
Duração: 137 minutos
Estreia: 10/8/2017
Distribuidora: Diamond Films

Avaliação
  • 4.5/10
    Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (2017), de Luc Besson - 4.5/10
4.5/10

Resumo

“Valerian e a Cidade dos Mil Planetas” se mostra promissor em seu início, mas, no fim, o que se salva é a sua fantástica cinematografia, que cria mundos, raças e culturas, e é de fato um trabalho de encher os olhos tamanho o esmero visual. Pena toda essa riqueza visual servir de fundo para uma história tão rasa em sua execução, e que leva personagens tão desinteressantes.