Eis um filme que poderia ter colocado a carreira de Anselmo Duarte dentre os maiores cineastas do mundo. Mas infelizmente o filme sofreu vários boicotes e hoje acaba sendo esquecido pela crítica e fica a sombra do movimento do Cinema Novo.

POSTER-Vereda-da-SalvacaoAnselmo que sempre foi um galã e marcava presença nas produções da Atlântida e logo depois nas produções da Vera Cruz, nunca foi visto com bons olhos quando quis se aventurar na direção, principalmente por Glauber Rocha e sua turma a favor da Estética da Fome, mas que foram obviamente influenciados por Anselmo.

Logo após de vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962 com “O Pagador de Promessas(1962)  fato inédito até hoje no Brasil, Anselmo quis adaptar uma versão para o cinema de “O Auto da Compadecida”, uma peça escrita por Ariano Suassuna, depois de vários conflitos com o próprio Suassuna, Anselmo entrou de cabeça em Vereda da Salvação, texto de Jorge Andrade.

Anselmo estava confiante que estava produzindo o seu melhor trabalho, investiu muito dinheiro no filme, dinheiro que havia ganhado com “O Pagador de Promessas”. Tal dinheiro nunca retornou para Anselmo e esse foi dito como o seu filme maldito, como muitas vezes o próprio o declarava.

 

Sinopse: Com o conflito pela posse da terra, os camponeses seguem um líder místico, para quem “o pecado vai empurrar o ar do mundo e o sofrimento vai indicar a vereda do paraíso”. O fanatismo aumenta e os camponeses não conseguem mais compreender a realidade, levando, inevitavelmente, a um final trágico.

Anselmo Duarte nos mostra nesse filme o quanto aprendeu durante seus anos como ator e principalmente como grande observador durante o seu tempo na Atlântida e na Vera Cruz, nos mostra também o quanto evoluiu desde o seu último trabalho até então. A história nos remete claramente a um conflito parecido em “O Pagador de Promessas”, como a crença em demasiado pode ser prejudicial e pode nos afastar um dos outros com facilidade, pelos conflitos ideológicos.

Nós acompanhamos um grupo de camponeses que aos poucos começam a reverenciar Joaquim (Raul Cortez), que começa a acreditar que é o próprio Jesus Cristo e promete o céu aos seus seguidores que ficam cada vez mais cegos, chegando a cometer atos escabrosos para retirar o suposto pecado que está dentro de cada um que o segue e de outras pessoas que não acreditam que Joaquim seja o Messias. Uma dessas pessoas que mais se opõem a Joaquim é a personagem de Esther MellingerArtuliana, que leva um filho e está prestes a se casar com Manuel (José Parisi), que é o chefe do grupo de camponeses.O conflito começa quando Joaquim acusa o casal de estarem possuídos pelo Demônio e ordena que tirem o filho do útero de Artuliana.

O personagem de Joaquim é muito forte e a interpretação de Raul Cortez é arrebatadora. Ele nos transmite o perfil de Joaquim de uma forma assustadora, como deveria ser, doentio, com édipo e lunático, sem dúvidas uma das grandes interpretações do nosso cinema. Destaco duas cenas em que Raul Cortez dá um show de interpretação – a primeira quando Joaquim começa a convencer os camponeses que está falando com o Espírito Santo e ordena Manuel a pedir perdão e a outra cena é no final do filme, onde ele lidera uma procissão em direção a ‘salvação’.

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Destaque também para a trilha sonora regada a viola, que faz a ambientação no começo do longa, nos deixando perante a uma realidade sertaneja. E outro destaque para os dedilhados tocado de uma forma melancólica ao final do filme, que nos arremete ao começo do longa, mas de uma forma mais bruta e devastadora, ambientando a verdadeira Vereda da Salvação.

A cena final de “Vereda da Salvação” já é melhor do que muita coisa que o pessoal do Cinema Novo insistia em produzir. A cena possui uma carga dramática absurda e deixa o espectador atordoado, a direção de Anselmo é certeira, com seus planos sequência que acompanham os personagens, ora ligeira, ora suave. Esse é sem dúvidas o grande filme de Anselmo Duarte, um filme que não foi bem recebido na época e que merece ser revisitado e se não fosse o boicote dos militares do Brasil na época, o filme arrebataria festivais e mais festivais ao redor do mundo.

Anselmo sofreu para levar o filme adiante, “Vereda da Salvação” foi proibido de sair do país na época e consequentemente proibido de ir pra Cannes, o filme só conseguiu ir pro Festival de Berlim em 1965 de maneira clandestina, e por pouco não levou o Urso de Ouro e deixou Godard a ver estrelas. Infelizmente para Anselmo, um dos júris que estavam presente em Berlim era a mesma pessoa que tinha vetado o filme no Brasil, que acabou fazendo uma má propaganda, dizendo que o longa não representava o Brasil e que o país não era da maneira que fora retratada por Anselmo. Esse capricho dos militares acabou com o filme e consequentemente com a carreira de Anselmo, que se sentia amordaçado pela censura. Mas apesar de tudo isso, o filme de Godard, “Aphaville(1965) ganhou por um voto de diferença do filme de Anselmo, assim o próprio contava. Se tivesse ganhado, seria a consagração de Anselmo e do Cinema Brasileiro.

No final das contas, “Vereda da Salvação” se tornou um filme que foi sendo esquecido ao decorrer dos anos, o que é uma tristeza, pois o filme é uma grande obra do nosso cinema e deveria ter lugares de destaque quando se fala dos melhores filmes nacionais. Isso nos mostra que temos que redescobrir nosso cinema e aprender a dar valor a obras que realmente tem importância para a nossa filmografia.