Foram dez anos de construção de personagens, de introdução de universos e de realidades para culminar no aguardado “Vingadores: Guerra Infinita” (Avengers: Infinity War, 2018), um dos filmes mais aguardados da cultura pop dos últimos anos. E que, consequentemente, já se tornou um marco dentro do gênero de super-heróis, que alcançou níveis de popularidades inimagináveis através da Marvel Studios.

O fato é que “Vingadores: Guerra Infinita” entrega o que havia prometido e, para a felicidade dos fãs, ele se mostra com mais substância do que poderia se imaginar. Traçando uma linha narrativa um tanto quanto ousada para os moldes dos filmes-produtos da Marvel, fato que soa como um respiro na já saturada fórmula do estúdio.

Na trama, acompanhamos Thanos (Josh Brolin), que busca reunir todas as jóias do infinito para assim extinguir metade do universo. Para impedir que isso aconteça, os heróis da Marvel se unirão para enfrentar tal ameaça.

Como dito anteriormente, foram dez anos de histórias, que nos aproximaram dos personagens aqui reunidos, por conta disso, a trama tem, ao seu favor, a carga de profundidade de dezenas de filmes. Conhecemos o universo estabelecido tão bem que simples momentos pontuais já são mais do que necessários para que possamos entender o que o filme quer nos transmitir. Quando, por exemplo, a trilha sonora anuncia um núcleo específico e imediatamente fazemos a ligação necessária, é fruto desse trabalho de anos de elaboração. Dito isso, o longa se foca no único personagem que não foi devidamente apresentado até então e que possui um papel fundamental: o antagonista.

E o arco dramático de Thanos é a melhor coisa do longa, pois, ao aprofundar o personagem, o filme acaba ganhando uma outra camada, que ao inserir uma motivação crível para ele, também insere peso na trama. Não transformando o antagonista somente num elemento que serviria como um pretexto para união dos heróis numa batalha sem real motivo. Mesmo com a computação gráfica, podemos ver traços de expressão do rosto de Josh Brolin, que juntamente com o trabalho de voz, dá ao personagem a humanidade necessária para que o espectador se aproxime do personagem e assim, compreenda suas motivações. A proposta de entregar um vilão palpável, fugindo da caricatura, coloca Thanos como um dos mais emblemáticos vilões do universo cinematográfico da Marvel.

Os demais personagens, que são dezenas, possuem funções narrativas bem definidas e todos, em maior ou menor grau, estão envolvidos em pequenas tramas dentro do conflito maior da trama. O roteiro é bem equilibrado e sabe dosar o tempo de tela de cada personagem, aproveitando até mesmo para aprofundar um dos personagens mais problemáticos do MCU, mostrando o quão desencontrado estava tal personagem até então. Mas, ao passo que sentimos que o filme dá continuidade a trajetória de certos personagens, também fica a impressão de que a trama se esforça para segurar alguns acontecimentos ou situações. Como o encontro de alguns personagens, ou até mesmo a música tema dos Vingadores, que é tocada em momentos pontuais, mas nunca na íntegra, sempre pincelando uma nota ou outra, ou em versões variadas. Claro que, tratando-se de uma primeira parte de uma história ainda maior, todos esses artifícios são justificados. E mesmo apesar do arco dramático bem definido, fica claro que alguns momentos épicos foram guardados para o próximo longa.

Mesmo com o roteiro segurando situações aguardadas, o filme consegue entregar tantas outras memoráveis. E, dentro da sua proposta de grandeza, o filme se sai muito bem. A fotografia de Trent Opaloch é bastante funcional na maior parte do tempo e transmite o aspecto épico da trama em planos gerais que demonstram a grandeza que as cenas pedem, assim como as usuais câmeras na mão que injetam dinamismo em cenas de pânico e em algumas batalhas, que aliás, são ótimas quando os heróis se unem para enfrentar Thanos. Ver a interação de poderes dos heróis era tudo o que os fãs mais ansiavam e que aqui, são entregues como deveriam ser. Com exceção da batalha em Wakanda, que é filmada de uma forma confusa e com uma montagem que dificulta a noção do que acontece em tela, inserindo uma ação totalmente artificial e que serve somente para desafogar a computação gráfica.

No fim, o filme pode chocar com a sua resolução, mas que particularmente não comove, mesmo havendo a tentativa. Afinal, a Marvel não abrirá mão de certas franquias, que juntas são bilionárias. O aspecto de consequência não é convincente o suficiente e com isso, o filme perde força. O tom dramático só não é todo em vão pelo arco do Thanos, que conclui-se de uma ótima forma. O que fica, ao fim da sessão, é a impressão de que de alguma forma, o filme tentou dar um gancho para sua segunda parte, mas de uma maneira dramática pouco persuasiva.

Mas de modo geral “Vingadores: Guerra Infinita” é um ótimo filme, principalmente pelo direcionamento de seu olhar, que foi corajoso ao focar em seu vilão, em aprofundar as suas motivações e ao dar tempo de tela para que tudo se desenvolvesse devidamente. Thanos, que com sua carga moral, remete ao clássico personagem Ozymandias, de Watchmen, escrito por Alan Moore, que por sua vez faz referência ao poema de Percy Shelley, onde dizia-se, numa de suas passagens mais marcantes: “Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis. Contemplem a minha obra, ó poderosos, e desesperem.” Mas tal como o personagem de Moore, há um preço a pagar pela conquista de seus seus objetivos. E neste caso qual seria? A resposta é, afinal, melancólica. Enfim, “Vingadores: Guerra Infinita” é um filme épico e que, com certeza, vai marcar a cultura pop como um dos eventos mais emblemáticos do cinema comercial.

Título Original: Avengers: Infinity War
Direção: Anthony Russo & Joe Russo
Roteiro: Christopher Markus & Stephen McFeely
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson, Don Cheadle, Benedict Cumberbatch, Tom Holland, Chadwick Boseman, Zoe Saldana, Karen Gillan, Tom Hiddleston, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Idris Elba, Danai Gurira, Peter Dinklage, Benedict Wong, Pom Klementieff, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Gwyneth Paltrow, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Chris Pratt, Letitia Wright
Fotografia: Trent Opaloch
Produção: Kevin Feige
País: Estados Unidos da América
Ano: 2018
Duração: 149 minutos
Estreia: 26/04/2018
Distribuição no Brasil: Disney

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima