É incrível como a Pixar sabe conduzir uma boa história, inserindo elementos que facilmente conversam com o público, seja de qualquer idade, ou de qualquer lugar no mundo. As buscas e jornadas de seus protagonistas esbarram em sentimentos do nosso cotidiano, deixando as produções com uma profundidade dramática que sensibilizam os espectadores.

Em “Viva: A Vida é uma Festa” (Coco, 2017), de Lee Unkrich, a Pixar volta ao que sabe fazer de melhor, nos contar uma história divertida, visualmente incrível e repleta de camadas.

Na trama, ambientada no México, acompanhamos Miguel (voz de Anthony Gonzalez), um menino de 12 anos, que sonha em se tornar músico, mas que sempre é vetado pela sua família, que detesta música por conta de traumas do passado. Após passar por uma série de situações, Miguel cruza o mundo dos vivos e vai parar no reino do mortos em pleno Dia dos Mortos, onde encontra seus antepassados.

O mítico crítico de cinema André Bazin dizia que o cinema, além de tudo, servia como uma espécie de artefato que imortalizava as pessoas, evitando que elas passassem por uma segunda morte, que ele caracterizava como o esquecimento. E é justamente sobre isso que “Viva: A Vida é uma Festa” aborda, e de uma forma tão aventuresca que a densidade do tema dá espaço para o mágico e o encantado, coisas que só um ótimo roteiro pode nos proporcionar.

Falar que o visual do filme é incrível é chover no molhado, mas ainda sim, é preciso ser mencionado, pois o trabalho de animação é tão majestoso que cada detalhe acaba encantando. O universo em que a obra é ambientada é rico em elementos visuais, a cultura mexicana é mostrada com bastante vigor e as tradições folclóricas são reverenciadas com o devido respeito.

O filme explora muito bem sua concepção visual, principalmente quando ele adentra ao mundo dos mortos, onde são utilizados de planos gerais para revelar ao espectador a riqueza do lugar. As cores vivas e os lugares repletos de construções gigantescas e coloridas subvertem a ideia de que boa parte do mundo ocidental possui do reino dos mortos.

Os elementos do filme são introduzidos aos poucos, o roteiro é cauteloso ao nos explicar sobre a tradição do Dia dos Mortos e como funciona toda a política do outro lado. O interessante é que o espectador começa descobrir sobre as situações e o mundo apresentado juntamente com o protagonista, que também vai descobrindo sobre seu passado e, claro, sobre si, durante sua jornada.

Tratando-se de estrutura de roteiro, o filme utiliza de elementos já conhecidos nas obras da Pixar, o que não significa que não é funcional, mas o fator surpresa é praticamente perdido quando sabemos onde os conflitos irão resultar. Mas, mesmo sendo previsível, o filme consegue dar profundidade em alguns clichês, como a esperada reviravolta no final do segundo ato, que possui uma justificativa interessante e que dá ao antagonista mais credibilidade dramatática em suas ações.

Se a estrutura do filme é óbvia, com pontos de viradas bem claros, o conceito é complexo e delicado, pois o filme trata de morte, e nem sempre vemos animações que encaram um tema como esse de uma forma amistosa. A mensagem que a obra nos dá é emocionante e, além de inserir valor artístico numa tradição, também nos faz refletir sobre as nossas relações familiares e até mesmo como lidamos com o processo de luto. A ideia de que precisamos nos lembrar dos mortos, traz uma carga dramática que é brilhantemente explorada pelo filme, tornando a obra universal, pois o processo de identificação que o espectador acaba criando é bastante sentimental, afinal, quem não sente saudades de alguém próximo que já partiu?

Viva: A Vida é uma Festa” é a obra mais gratificante da Pixar desde “Divertida Mente” (Inside Out, 2015), que usa de elementos fantásticos para falar de relações humanas e, sobretudo, das relações familiares. É um filme que encanta não só pelo seu visual, mas também por sua mensagem, que fará crianças e adultos caírem no choro ao final da sessão.

Título Original: Coco
Direção: Lee Unkrich
Roteiro: Lee Unkrich & Jason Katz & Matthew Aldrich & Adrian Molina, Adrian Molina & Matthew Aldrich
Elenco: Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Jaime Camil, Alfonso Arau, Herbert Siguenza, Gabriel Iglesias, Lombardo Boyar, Ana Ofelia Murguía, Natalia Cordova-Buckley, Selene Luna, Edward James Olmos, Sofía Espinosa, Carla Medina, Dyana Ortelli, Luis Valdez, Blanca Araceli, Salvador Reyes, Cheech Marin, Octavio Solis, John Ratzenberger
Fotografia: Matt Aspbury, Danielle Feinberg
Produção: Darla K. Anderson
País: Estados Unidos da América
Ano: 2017
Duração: 105 minutos
Estreia: 04/01/2018
Distribuição no Brasil: Disney

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima